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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Parte 4 - “Braços abertos num cartão postal e punhos fechados na vida real”

Rio de Janeiro, sede das Olimpíadas e território de gangues

Parte 4

Jon estava, justamente, recolhendo material para o artigo, então em fase de redação. Contou-me que havia logrado entrevistar o procuradíssimo traficante Fernandinho, da favela Parque Royal, na Ilha do Governador.

Especialista em zonas de conflito mundo afora, estava visivelmente impressionado. Falava baixinho e, de vem em quando, olhava em volta de soslaio, como quem verifica se não há ninguém suspeito à espreita.

Sorri. Contei-lhe, então, que, fazia alguns meses, eu estava, em no apartamento
que ocupava, localizado entre o posto 6 e o Posto 5, em Copacabana, quando subitamente a empregada interrompeu-me, entrando de sopetão no quarto onde eu escrevia no lap-top.

Absorto, ouvia de longe um ruído estranho, mas cuja materialidade não processara.

Era um tiroteio.


Um helicóptero da polícia girava em torno do morro do Pavão e Pavãzinho, passando rente aos prédios.

Do décimo andar tínhamos um vista privilegiada da cena.

Dois policiais penduravam-se para fora da aeronave, com fuzis automáticos, atirando em direção às casas do morro, de onde se respondia com mais tiros, também de armamento pesado.

Prudentemente, saímos das janelas do lado direito e fomos para a outra face do apartamento.

Dali tinha-se uma bela visão da praia, iluminada pelo generoso sol
carioca: pessoas fazendo jogging no calçadão, gente nadando nas águas frescas da Guanabara, ou descansando calmamente sobre a areia.


Guarda-sóis coloridos.
Um bucólico barquinho passando ao largo.

A vista das duas faces opostas do apartamento era a síntese perfeita para a esquizofrenia da qual falávamos!

O confronto durou uns bons 20 ou 30 minutos. Encerrado, desci e fui à barbearia, em frente ao prédio.

As ruas continuavam cheias, as calçadas apinhadas e as pessoas vivendo normalmente, como se nada houvesse acontecido:



"Ah, pois é, houve um tiroteio", comentou vagamente o barbeiro, um senhor de cerca de 70 anos, natural do interior do Rio Grande do Norte, de onde migrou para o Rio ainda menino.

No dia seguinte, ansioso por saber o motivo daquilo, se havia feridos, mortos, procurei referência ao episódio nas páginas dos jornais locais: nem uma linha!

continua no post abaixo

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