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quinta-feira, 4 de julho de 2013

Falhou o golpe da “Irmandade Petista”; única reação de Dilma a protestos vai para o brejo



A “Irmandade Petista” se assustou com o povo na rua e tentou dar um golpe
 
Por Reinaldo Azevedo

Ao propor uma Constituinte, convertida depois em plebiscito, para fazer a reforma política, Dilma Rousseff tentou jogar a crise nas costas do Congresso, inventou a tese de que o problema do país está nas instituições e resolveu chamar para si, ainda que de modo suave — já que não dispõe dos instrumentos para o modo não-suave —, poderes de que não dispõe.

A sandice não prosperou.

Os partidos disseram “não”; a maioria dos brasileiros nem tomou conhecimento, e a Justiça eleitoral lhe deu uma resposta exemplar:

a: a partir da definição do plebiscito, seriam necessários 70 dias adicionais para a sua realização;

b: descarta-se a hipótese, porque fere cláusula pétrea da Constituição, de uma mudança ter eficácia eleitoral se votada a menos de um ano do pleito;

c: o povo não pode ser chamado a se posicionar sobre temas dos quais não tenha pleno domínio.


A derrota de Dilma não poderia ser mais completa. Sobraram algumas vozes do PT e do PC do B no apoio ao exotismo, mas bem timidamente.

Assim, a única reação que Dilma teve até agora às manifestações não deu em nada. “No que se refere”, como ela diria, ao mundo da governanta, é como se nada tivesse acontecido.

Só não se pode dizer que tudo segue na mesma porque ela conseguiu despertar a ira dos médicos. E os descontentamentos que geraram os protestos continuam em fermentação.

E o Babalorixá de Banânia lá pelas terras africanas, aparentemente em silêncio, mas atacando Dilma por intermédio de asseclas…
04/07/2013

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Egito e as flores do mal: Quando milhares vão às ruas para pedir que o Exército dê um golpe para impedir a ditadura islâmica



 Por Reinaldo Azevedo


APOIO – Helicópteros do Exército levando a bandeira do Egito sobrevoam a Praça Tahrir, no dia 1º de julho, durante manifestação pedindo a saída do presidente Mohamed Mursi
(Foto: Suhaib Salem/Reuters)

Milhares de egípcios estão de volta à praça Tahrir. Só nesta terça-feira, houve 16 mortos. O Exército deu um ultimato ao presidente Mohamed Mursi: ou busca o diálogo e pacifica o país ou… Bem, fala-se abertamente numa intervenção. Na segunda-feira, o mundo assistiu ao, até então, inimaginável: helicópteros do Exército sobrevoavam a praça carregando bandeiras do Egito. Estavam ameaçando o povo da praça? Ao contrário: ofereciam-lhe proteção. A massa delirava e aplaudia, pedindo abertamente a intervenção dos militares. Que estranha história é essa? Nada de novo sob o sol. Vamos ver.

Uma das belezas da Internet é a disponibilidade de arquivo. Assim, vocês poderão, se tiverem um tempinho, recorrer à área de busca para saber o que andei escrevendo, ao longo do tempo, sobre “Primavera Árabe”. Deixei aqui registrado umas duzentas vezes que se tratava de uma invenção do jornalismo ocidental. Tentou-se emprestar àqueles levantes ares de revolta democrática. Pois é… Recentemente, apanhei bastante porque escrevi aqui que a Turquia, que não é árabe, era “a prova dos noves de que é impossível haver, a um só tempo, um regime islâmico e democrático”, a nãos ser que inventem feitiçarias como “democracia ileberal”, na formulação de alguns intelectuais do miolo mole. A “democracia iliberal” deve ser a irmã gêmea da “ditadura suave”…

A Turquia evidencia, assim, que o problema, obviamente, não é étnico. Não existe incompatibilidade sanguínea de árabes com o regime democrático. A questão é o Islã. Ou um estado é teocrático — ainda que exerça uma forma velada e branda da teocracia — ou é democrático. País em que o estado — e, por consequência, os cidadãos — obedecem a comandos dos que se apresentam como intérpretes da ordem divina não têm como atender às demandas plurais da sociedade nem como abrigar a divergência. Afinal, que sentido faz brigar com Deus, não é mesmo? Tanto pior se as correntes hoje influentes dessa religião convivem mal com a diferença e com a pluralidade.

A crise estava contratada. Recomendo um excelente artigo sobre a crise publicado em seu blog por Adam Garfinkle, que edita The American Interest. Ele lembra que o Exército é a única força realmente organizada do país e a mais afinada com o mundo moderno. E é assim há mais de 60 anos — ao menos desde 1952. Ora, como vamos nos esquecer — e chamei tantas vezes a atenção par isso aqui — que Hosni Mubarak foi deposto por aquilo que se poderia chamar, tecnicamente, de golpe de estado? Depois de alguns confrontos de rua (e não foram tantos assim para os padrões de uma ditadura; compare-se com a Síria…), os militares deram um chega pra lá em Mubarak e assumiram o comando, preparando, então, o terreno para as eleições.

Mursi, da Irmandade Muçulmana, foi eleito, e o Exército tentou se apresentar como o condestável também do novo regime. O presidente fez de conta que aceitou, mas não demorou a destituir a cúpula da Força e a promover uma grande troca de oficiais do comando por outros simpáticos à Irmandade. E deu início — e era fatal que o fizesse porque é quem é — à chamada islamização do país. O Egito é um país esmagadoramente muçulmano, sim, mas a ditadura Mubark era laica. Garfinkle lembra que o país entrou em colapso porque a turma recrutada por Mursi não tem a menor ideia do que seja governar. Bagunça semelhante está em curso na Líbia, só que este país tem pouco mais de 6 milhões de habitantes; no Egito, eles passam dos 80 milhões.

Citando um outro autor, Garfinkle observa que a “Síndrome IBM” marca a cultura política no Egito e no mundo árabe. Ele explica. O “I” designa a palavra “inshallah”, o tomara-Deus — uma espécie de fatalismo passivo. O “B” remete a “bokr”, que quer dizer “amanhã de manhã”, ou só “amanhã”. Trata-se, diz o autor, de uma noção pré-moderna do tempo. Há uma obsessão em empurrar tudo com a barriga. O “M” remete a “Malesh”, algo como “deixa pra lá”., “ninguém se importa”, “tanto faz”… Some-se a isso um estado inteiramente aparelhado pela Irmandade Muçulmana, e está dada a receita do caos. O Exército, diz Garfinkle, é a única instituição profissionalizada do país, que não sofre da “Síndrome IBM”.

O prazo dado pelos militares a Mursi termina nesta quarta-feira. O presidente foi à televisão, disse que não renuncia, e isso correspondeu a um convite para que seus aliados, que também são muitos milhões, saiam às ruas. Muitos entenderam o chamamento como um convite à guerra civil caso as Forças Armadas, agora com o apoio dos setores laicos, deem um chega pra lá no presidente. Golpe? Pode-se dizer que sim, a exemplo daquele dado para derrubar Mubarak. “Ah, mas, agora, estariam depondo um presidente eleito.”

Chegamos ao “x” da questão. Eleição é condição necessária para que um regime seja democrático, mas não condição suficiente, como evidencia o Irã — que é uma ditadura teocrática. Mursi foi eleito com o compromisso de fazer um governo laico, respeitando as minorias. Não está cumprindo a palavra. Tentou alijar os militares do poder e acabou flertando com a bagunça.

Segundo informa AFP, o site do jornal Al-Ahram, que é ligado ao governo, afirma que os militares pretendem suspender a atual Constituição, montar um conselho presidencial composto por três pessoas, liderado pelo presidente da Suprema Corte, e convocar um grupo de especialistas para redigir uma nova Carta, que seria submetida a referendo. Essa nova Constituição levaria em conta “as necessidades dos diferentes componentes do povo”. O Exército, claro!, seria a garantia do cumprimento desses passos — na prática, seria o poder. Ao fim de um período de nove meses a um ano, marcar-se-iam, então, eleições gerais. E, saibam, o plano conta com o apoio dos movimentos que estão nas ruas contra Mursi.

Pois é… Que dispositivo haveria na nova Constituição que pudesse impedir a Irmandade Muçulmana de vencer de novo as eleições e reiniciar os esforços de islamização do país? Não sei! O que sei é que a “Primavera Árabe” resultou no inverno de Mohamed Mursi, que, tudo o mais constante, vai rivalizar com Mubarak em número de mortos. O que sei que o Exército volta a ser o protagonista da cena, agora com o apoio de milhares de civis que rejeitam uma ditadura islâmica, ainda que nascida das urnas.

03/07/2013

Charge







Aroeira

Senado aprova ficha limpa para servidores



Senado aprova extensão da Ficha Limpa para cargos comissionados e de confiança

Projeto estava parado desde maio do ano passado. Texto, que ainda precisa de aval da Câmara, estende as exigências da Lei da Ficha Limpa para ocupantes de cargos comissionados e de confiança dos Três Poderes


Júnia Gama
O Globo


Senadores após aprovação de projeto da Ficha Limpa para cargos comissionados

Givaldo Barbosa / Agência O Globo


BRASÍLIA — O Senado aprovou por unanimidade, nesta terça-feira, o projeto que estende os efeitos da Lei da Ficha Limpa aos servidores de cargos comissionados e de funções de confiança nos três Poderes. De autoria do senador Pedro Taques (PDT-MT), a proposta recebeu um adendo que prevê a aplicação do mesmo critério para investidura em cargo público efetivo. A aprovação do projeto é mais um item da agenda positiva no Senado como tentativa de dar respostas às manifestações recentes em todo o país. Agora, o projeto segue para apreciação da Câmara.

O relatório do senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) ao texto foi aprovado em maio do ano passado na Comissão de Constituição e Justiça, mas ficou parado desde então. Somente na semana passada, com a aprovação da urgência na tramitação, o projeto foi levado à análise do plenário. Para Pedro Taques, não é suficiente que os condenados judicialmente sejam impedidos de participar de eleições. O senador defende que o princípio da moralidade na administração pública será reforçado a partir da medida.

— A exigência da Ficha Limpa deve ser também requisito para investidura e nomeação em cargo de comissão e função de confiança para todos os cidadãos, não só para aqueles que participam do pleito eleitoral. O que buscamos é a efetivação do princípio constitucional republicano, sem desprezar o princípio da não culpabilidade. Apenas incorrerão na inelegibilidade proposta pela Lei da Ficha Limpa aqueles que já foram condenados por órgão colegiado ou cuja condenação seja definitiva — explicou Taques.

A Lei da Ficha Limpa foi aprovada em 2010 com o objetivo de vetar candidaturas de políticos com condenação na Justiça, nos julgamentos em instâncias colegiadas (decisão de mais de um juiz). A lei ampliou de 3 para 8 anos a inelegibilidade e abrange os condenados por atos de improbidade administrativa, os que tiverem seus mandatos cassados por abuso de poder político, econômico ou de meios de comunicação, corrupção eleitoral e compra de votos, entre outros.

Além disso, a Ficha Limpa também atinge os condenados por crimes eleitorais que resultem em pena de prisão; os que forem condenados, em decisão transitada em julgado, por crimes graves; os que tiverem sido excluídos do exercício da profissão, por algum crime grave ético-profissional e, por fim, os eleitos que renunciarem a seus mandatos para evitar processo por quebra de decoro.

Na lei, quem praticou crimes dolosos, onde há a intenção, e com penas acima de dois anos, também é enquadrado. No entanto, no projeto aprovado no Senado, o cometimento de crimes dolosos como critério para enquadramento na lei foi excluído. De acordo com o senador Eunício, servidores que já estejam no exercício do cargo, caso cometam crimes previstos na Lei da Ficha Limpa após a promulgação da medida, serão destituídos.

— Cargos e funções de chefia, direção e assessoramento devem ser preenchidos com profissionais competentes e também honrados, comprometidos com o estado e conscientes de que sua força de trabalho e o trato da coisa pública só podem ser direcionados à busca do bem comum e do interesse da coletividade. Ninguém suporta mais assistir a frequentes e degradantes espetáculos de enriquecimento ilícito e de lesão ao erário — justificou Eunício, durante a votação.



02/07/13


terça-feira, 2 de julho de 2013

PMDB da Câmara fecha questão contra plebiscito



Horas depois de a presidente Dilma Rousseff encaminhar ao Congresso mensagem com itens do plebiscito para a reforma política, a bancada do PMDB da Câmara fechou questão contra a proposta


ERICH DECAT

Agência Estado


Em uma reunião em que nem assessores puderam participar, parte dos peemedebistas criticou a iniciativa de Dilma, considerada uma manobra para desviar a atenção dos protestos nas ruas.

Em nota, a bancada se posicionou a favor de uma consulta popular, mas apenas em 2014. No debate junto com a sociedade, eles defendem que deverá constar temas como reeleição, tempo de mandato, pacto federativo e sistema eleitoral.

"A população não quer ser enganada. Não há tempo hábil de se votar nenhuma medida a não ser que seja consenso para 2014. E dificilmente uma proposta que dependa de Emenda Constitucional terá consenso", afirmou o líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), após a reunião.

Sobre o clima de discussão no encontro, o peemedebista resumiu: "Foram três horas e vinte minutos de pancadaria".

Dentro da sala de uma das Comissões da Casa, parlamentares do partido se revezaram nos microfones com ataques ao governo federal e análises "ácidas" sobre a condução política da presidente Dilma.

Alguns chegaram até a propor uma reavaliação da aliança com o PT nas eleições de 2014, o que rendeu aplausos dos mais exaltados. Além das palmas, não faltaram discursos em tom de chacota. "Estamos discutindo a troca da roupa do morto?", ponderou um. "Vamos evitar o abraço dos afogados", disparou outro.

Redução de ministérios
Do lado de fora, o deputado Newton Cardoso (MG) verbalizou o descontentamento de alguns. "A aliança está em xeque sim", afirmou.

No encontro também ficou decidido que os peemedebistas passarão a adotar um discurso pela redução do número de ministérios.

Ao ser questionado se o partido estaria disposto a oferecer seus ministros para o sacrifício dos cortes, o vice-líder do PMDB, Danilo Forte (CE), disse: "Se quiserem levar os cinco do PMDB, podem levar porque eles não valem um".

Por traz do discurso de cortes na Esplanada está a tentativa dos parlamentares de devolver a "batata quente" ao Palácio do Planalto, mudando o foco sobre o debate do plebiscito para o tamanho da máquina governamental e seus 39 ministérios.

                            02 de julho de 2013

Deputados do PMDB descartam plebiscito neste ano


Deputados peemedebistas só aceitam realizar a consulta popular no ano que vem, o que frustraria os planos do Palácio do Planalto
Gabriel Castro e Marcela Mattos,
Veja.com de Brasília
Deputado Eduardo Cunha
(Lúcio Bernardo Jr/Agência Senado)
"Qualquer um que entende o mínimo sobre o tempo e o regimento desta Casa saberia que era inviável o plebiscito valer para as eleições de 2014", deputado Eduardo Cunha

Durou poucas horas até que a proposta de um plebiscito sobre a reforma política provocasse um novo atrito entre a bancada do PMDB na Câmara dos Deputados, liderada por Eduardo Cunha (RJ), e o Palácio do Planalto.

Os deputados, reunidos nesta terça-feira, decidiram que só aceitam a aprovação do plebiscito se a consulta popular for realizada em 2014, simultaneamente às eleições gerais - e não nos próximos três meses, como quer o governo.


Dessa forma, o principal parceiro do PT - e segunda maior bancada da Casa - já se coloca como um entrave para que as novas regras aprovadas pelo plebiscito valham para as eleições do ano que vem - para isso, elas precisariam estar em vigor no início de outubro de 2013.

Enfraquecido pela queda aguda na popularidade da presidente, o governo começa a ver parte dos aliados perderem cada vez mais o receio de enfrentar o Planalto.


O líder do PMDB descarta a hipótese de tramitação célere da proposta: "Qualquer um que entende o mínimo sobre o tempo e o regimento desta Casa saberia que era inviável o plebiscito valer para as eleições de 2014", disse Cunha, após o encontro. Ele também criticou os cinco pontos sugeridos pelo Executivo na mensagem entregue ao Congresso: "Isso é reforma eleitoral, não é reforma política".

A bancada também decidiu que vai defender a inclusão de outros temas ao plebiscito, como a adoção do parlamentarismo, o fim da reeleição e a delimitação do tempo de mandato. Com isso, aumentam as chances de o debate sobre o conteúdo da consulta popular se prolongar.

Plano B - Diante da insatisfação com o projeto de plebiscito enviado pelo governo, o presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), já trabalha com a ideia de realizar a reforma política por meio de um referendo. Ele estabeleceu prazo de sete dias para que os líderes das bancadas negociem como se posicionarão sobre o tema. Na próxima semana, será criado um grupo de trabalho para apresentar uma proposta alternativa no prazo de 90 dias.

“Um plebiscito só se justificaria se houvesse um consenso nesta Casa. Não quero correr o risco de esse plebiscito, não se viabilizando, essa Casa perder a oportunidade de votar a reforma política”, afirmou Alves.

“O plebiscito é um caminho, mas quero uma carta de seguro. Estou criando um paralelo, uma alternativa, para que se o plebiscito não caminhar, tenhamos outro caminho a percorrer, que seria de um projeto que essa casa votaria. Seria votado por essa Casa e percorreria não o caminho do plebiscito, mas do referendo”, disse.


Outros assuntos - As posições referendadas pela bancada do PMDB foram divulgadas por meio de uma nota redigida por Cunha. O texto informa também que a bancada apoia a votação de um projeto que destina 10% das receitas da União na área da saúde. E que a bancada quer discutir o pacto federativo como prioridade.

Os peemedebistas foram mais longe: aproveitando a mobilização popular, pedem a "imediata redução do número de ministérios". Ao comentar a deliberação, Cunha voltou a provocar o governo: "Do jeito que está, tem ministro que vai levar um ou dois anos para poder falar com a presidente da República".

O líder garante que seu partido está disposto a abrir mão de ministérios para colaborar com o enxugamento: "Pode reduzir à vontade, pode abrir mão; não há nenhum problema no PMDB em relação a isso, nem nós vamos deixar de ser governo por causa disso", disse Cunha.






O plebiscito dos espertalhões vai tropeçar na revolta da rua e desaparecer no sumidouro que engole malandragens eleitoreiras






Por Augusto Nunes
O plebiscito sobre a “reforma política” é o mais recente lançamento da usina de pirotecnias eleitoreiras instalada pelo bando de vigaristas, ineptos e gatunos que está no poder há mais de dez anos ─ e lá quer ficar para sempre.

Atarantados com a revolta da rua, a presidente Dilma Rousseff e seus conselheiros trapalhões imaginam que a manobra malandra vai esvaziar o pote até aqui de cólera que enfim transbordou para as ruas de centenas de cidades.


Versalhes reencarnou no Planalto.Os espertalhões não demorarão a descobrir o tamanho da encrenca em que se meteram.

As multidões sem medos nem donos já não suportam a impunidade dos corruptos, o apodrecimento dos sistemas de saúde e educação, a gastança debochada dos exploradores da Copa do Mundo, o cinismo dos políticos profissionais, a institucionalização da trapaça, da tapeação, da promessa que não descerá do palanque.

Em sua essência, as palavras de ordem reiteradas nos atos de protesto, encampadas pela imensa maioria do país que pensa, exigem a imediata interrupção da Ópera dos Canalhas.

O governo lulopetista acha que, com um plebiscito malandro, vai mandar os manifestantes para casa, livrar a chefe de vaias, inverter a curva desenhada pelas pesquisas de popularidade, reeleger Dilma Rousseff no primeiro turno e correr para o abraço. Vão quebrar a cara.

A esperteza da hora será tragada pelo mesmo sumidouro onde jazem, agonizam ou sobrevivem com injeções bilionárias de dinheiro público tantos projetos delirantes, invencionices diversionistas, façanhas imaginárias, milagres de araque, maluquices perdulárias e ideias natimortas.

O legado dos arquitetos do Brasil Maravilha já inclui, por exemplo,

o Programa Fome Zero,
as três refeições por dia,
o fim da pobreza,
o extermínio da miséria,
o Programa Primeiro Emprego,
o trem-bala,
a Ferrovia do Sarney,
a ressurreição da rede ferroviária em ruínas ,
a transposição das águas do Rio São Francisco,
a rede nacional de hidrovias,
as 6 mil creches prometidas em 2010,
as 6 mil casas na Região Serrana do Rio prometidas em 2011,
os 6 mil agentes especializados na prevenção de enchentes,
os 6 mil médicos cubanos,
o sistema de saúde que Lula considera “perto da perfeição”,
a importação do SUS pelos Estados Unidos,
a recuperação das rodovias federais,
a autossuficiência em petróleo anunciada em 2007,
a entrada na OPEP a bordo das jazidas do pré-sal,
a chegada da Petrobras ao topo do ranking das maiores empresas do ramo,
a vaga no Conselho de Segurança da ONU,
o poderio econômico do Mercosul,
a conquista do Nobel da Paz por Lula,
a candidatura de Lula a secretário-geral da ONU,
a esquadrilha de caças franceses,
a fórmula milagrosa que rebaixa qualquer crise econômica a marolinha,
os pitos telefônicos de Lula em George Bush,
as advertências de Lula a Barack Obama,
a Copa do Mundo de matar argentino de inveja,
a Olimpíada de assombrar dinamarquês,
o colosso de “obras de mobilidade urbana” legado pelos dois eventos esportivos,
o terceiro aeroporto de São Paulo,
os 800 novos aeroportos distribuídos por todo o país,
a reforma e ampliação dos aeroportos das capitais,
os recordes de popularidade estabelecidos por Lula e Dilma,
o controle social da mídia,
a regulamentação da mídia,
a promoção de Dilma a superexecutiva onisciente,
o doutorado em economia da doutora em nada,
o PT detentor do monopólio da ética,
o partido que não roubava nem deixava roubar,
fora o resto.

A lista será ampliada pelo plebiscito que é mais que uma tentativa de golpe: é também a confirmação de que os chefões do lulopetismo e seus comparsas não conseguem ou não querem ouvir a voz da rua.

Essa espécie de surdez invariavelmente eleva em milhares de decibéis o som da fúria.

E acaba consolidando a certeza de que governantes como Lula e Dilma só ouvem com nitidez a palavra de cinco letras que, gritada em coro pela multidão, costuma prenunciar o final infeliz: basta.

02/07/2013


Lula versus Dilma



Há uma pedra barbuda no escarpim de Dilma Rousseff, furando a meia-calça

Lula é seu nome

POR RUTH DE AQUINO
ÉPOCA
O maior líder popular do Brasil sumiu, escafedeu-se, silenciou sua voz rouca, justamente nas semanas em que o povo acordou da letargia para protestar contra uma herança maldita. Por que se calou o grilo falante em todas as celebrações de conquistas no país e no exterior? Só aparece na boa?

Por que Lula finge que nada é com ele? Por que o criador evitou apoiar a criatura no auge da crise? Por que ficou mudo e invisível, quando a turba se insurgiu, e brasileiros de todas as idades passaram a falar, gritar, discutir e analisar, mesmo aos tropeços e sob o risco de errar?

O Lula que se metamorfoseou em oito anos de mandato e rasgou a bandeira da ética na política... O Lula que suspendeu suas férias para defender o ex-presidente do Senado sob o argumento de que “Sarney não pode ser julgado como homem comum”... O Lula que se locupletou com o corrupto-mor Maluf para eleger Haddad, “o novo”... O Lula que se uniu “aos picaretas do Congresso”... O Lula que quis reeditar a CPMF, uma taxa que antes chamava de extorsão... Esse Lula não põe seu bloco na rua numa hora dessas?

Por lealdade, deveria ter dado o braço a Dilma. Afinal, ela chefiava sua Casa Civil e só concordou em disputar a Presidência porque, sem Dirceu nem Palocci, Lula impôs seu nome.

A técnica Dilma, a gerentona, a ex-guerrilheira, talvez um dia escreva um livro sobre sua relação com Lula. Por mais responsável que seja, como presidente, pela explosão da insatisfação no Brasil, Dilma sabe bem quem a colocou nessa roubada de “mãe do PAC”.

Sabe que recebeu uma herança de corrupção, impunidade, abuso de poder, desvio de verba pública, falta de representatividade dos partidos, péssima qualidade de serviços essenciais, impostos absurdos, altos salários e mordomias dos burocratas dos Três Poderes, cinismo e oportunismo de governadores e prefeitos.

O Brasil já era assim quando ela foi eleita.

Por que o criador evitou apoiar a criatura justamente no auge

da crise? Por que ficou mudo?


O Lula presidente se lamentava da “herança maldita” de Fernando Henrique Cardoso. Dilma não pode dizer nada nem parecido. Lula teve oito anos para mudar o caráter do Brasil para melhor. Tinha tudo.

Tinha uma história de defesa da liberdade e dos direitos humanos, tinha credibilidade e a legitimidade do voto, tinha nas mãos a esperança de tantos jovens aglutinados pela estrela do PT.

E por tantas bandeiras no ar.

A ética.

A educação e a saúde de qualidade ao alcance de todos.

As creches, o transporte de massa.

Mas Lula achou que o Bolsa Família seria suficiente.


Os jovens que protestam agora, em paz ou com raiva, mal chegavam aos 10 anos de idade quando a eleição de Lula emocionou o Brasil. A geração YouTube deveria rever a bela cerimônia em que FHC passou o poder a Lula. Se, na última década, a oposição fracassou com a juventude, imagine a autocrítica do PT. Um partido que inchou com siglas infiltradas e perdeu companheiros de raiz.

Uns saíram por racha ideológico, outros por convicção de que nada mudaria na essência, e outros ainda porque foram processados, cassados e condenados.


Os jovens brasileiros de 16 a 18 anos, para quem o voto é facultativo, se afastaram das urnas e, até umas semanas atrás, pareciam alienados. Eles não acreditam nos partidos. Quem de bom-senso ainda acredita, a não ser os que ganham o pão – e os dólares – com a política partidária?

Por isso a ideia de candidatura avulsa, endossada pelo presidente do STF, Joaquim Barbosa, ganha força. Joaquim defendeu um “recall” nacional dos políticos. Já pensou se os eleitores passam a ter o direito de revogar mandatos e de expulsar políticos de cargos?

Renan continua com aquele sorrisinho pregado no rosto em todas as fotos. Até quando, Calheiros?


Na semana passada, Dilma virou a Geni. Tudo que disse e desdisse levou pedra de aliados e oposicionistas. Uns vândalos. Constituinte, plebiscito, referendo, pactos, apelos, nada pegou bem, nem com a maquiagem e o penteado que custaram R$ 3.125. A presidente está isolada por seus pares e ímpares.

Sua sorte é que, até agora, não há líderes oposicionistas com discurso consistente para o futuro do país. Aécio Neves converteu-se a uma pálida sombra do que poderia ser. Marina Silva virou uma analista em cima do muro, com o aposto de “evangélica”. Eduardo Campos desistiu do combate às claras e age nos bastidores à espera de uma derrapagem fatal.


E Lula... Bem, Lula recebeu alguns jovens em seu instituto. A aliados, diz-se que acusou Dilma de cometer “barbeiragens” na articulação e na resposta à nação. Lula é hoje a pedra mais incômoda no sapato alto da presidente.
 
 
01/07/2013 


Charge




Chico

Plebiscito em Marte


Os parasitas da nação estão em festa.

Os efeitos dos protestos de rua estão tomando o melhor caminho possível (para eles): constituinte, plebiscito, pré-sal…

gmfiuza
O GLOBO

Os parasitas estão gargalhando em seus gabinetes. Sempre souberam que embromariam a multidão, mas não esperavam que fosse assim tão fácil.

Ao fim da primeira semana de manifestações, Dilma foi à TV. Nas ruas, os protestos contra o aumento das passagens de ônibus mostravam o óbvio: a volta da inflação enfim tirara os brasileiros de casa. O transporte era só o item mais visível da escalada de preços em todos os setores. A vida ficou mais apertada – e a paciência acabou. Como todos sabem (ou deveriam saber), o governo popular abandonou a meta de inflação para irrigar sua formidável máquina de dezenas de ministérios. Mas na TV, Dilma parecia uma porta-voz dos revoltosos.

A presidente disse que os anseios das ruas eram os mesmos do seu governo. É preciso coragem para soltar um disparate desses sem gaguejar. O tal governo que anseia por mudanças governa o país há dez anos. E Dilma não deu uma palavra sobre gastos públicos – ou, em português, sobre a orgia orçamentária que seu partido preside no Estado brasileiro. Pregou a melhoria dos serviços públicos (supostamente os do Brasil), no momento em que seu governo bate mais um recorde de despesas – como sempre reduzindo os investimentos e aumentando o custeio (a verba dos companheiros). É preciso muita desinibição.

O projeto parasitário é desinibido porque a opinião pública é trouxa. E o pronunciamento da presidente foi engolido pelos brasileiros, incapazes de relacionar a inflação e a queda dos serviços com a administração perdulária e inepta da grande gestora.

Se o movimento que encanta o país fosse minimamente lúcido, cercaria o Palácio do Planalto depois desse pronunciamento. Poderia anunciar, pacificamente, que só sairia de lá com a extinção de pelo menos cinco ministérios inúteis, mantidos para alimentar correligionários. Ou com o compromisso da presidente de voltar a respeitar a meta de inflação. Ou denunciando o escândalo da “contabilidade criativa”, pelo qual o governo do PT passou a fraudar seu próprio balanço – seguindo a escola Kirchner-Chávez –, escondendo dívidas para poder gastar mais com cargos e propaganda.

Será que os heróis das ruas não percebem que é isso o que mais infla o custo de vida (e as passagens de ônibus)?

Não, não percebem. Uma líder do movimento declarou ao “Jornal Nacional” que a próxima prioridade era a reforma agrária… Aí os parasitas estouraram o champanhe. Era a senha para mandarem Dilma tirar da cartola uma constituinte: reforma política! (mesmo balão de ensaio usado por Lula quando estourou o mensalão). E o truque colou. Tiraram a constituinte de cena, mas deixaram o Brasil entretido no debate lunático sobre um plebiscito do crioulo doido. De brinde, Dilma prometeu transformar a “corrupção dolosa” em crime hediondo. Eles venceram de novo.

Enquanto gritam por cidadania, educação, dinheiro do pré-sal e felicidade geral, os revoltosos urbanos estão absolvendo Rosemary Noronha – a protegida de Lula e Dilma na invasão fisiológica das agências reguladoras (responsáveis pelos serviços que a presidente promete melhorar…). Estão absolvendo as quadrilhas que dominaram o PAC – reveladas pela CPI do Cachoeira, que Dilma abafou e nenhum manifestante reclamou. Estão chancelando todos os denunciados na época da faxina imaginária que continuam dando as cartas no governo, como o ministro do Desenvolvimento Fernando Pimentel. Os revoltosos estão sancionando a sucção e cantando o Hino Nacional.

Fica então uma sugestão de pergunta para o plebiscito: o Brasil prefere ser roubado por corrupção dolosa ou indolor?
29/06/2013



segunda-feira, 1 de julho de 2013

A política nas ruas


 

As manifestações populares que tomaram as ruas nas últimas semanas, entre os resultados concretos que já produziram — como a redução das tarifas dos transportes — e outros que certamente ainda provocarão, colocam a nu a monumental realização de Lula e do PT em pouco mais de dez anos no poder: a debilitação, quase a anulação, do debate político em seu maior foro institucional, o Parlamento.

Na falta de quem exprimisse seus anseios e necessidades mais prementes — captá-los e processá-los é função dos políticos, numa democracia representativa —, o cidadão saiu às ruas para dizer ele próprio o que pensa e o que quer do governo. É simples assim. Menos mal, é claro, que vivemos num país em que o cidadão tem a liberdade de sair às ruas para se manifestar. Mas é muito ruim que seja forçado a esse exercício democrático porque se cansou de ver obstruídos os canais institucionais que, por definição, existem para representá-lo.

Esse gravíssimo sintoma do mau funcionamento do sistema democrático só pode ser debitado na conta de quem tem a responsabilidade de manejá-lo: o governo.

E o simples fato de o governo ter sido constrangido a vir a público para admitir que o coro das ruas tem razão e para anunciar providências emergenciais para atendê-lo leva à inescapável conclusão: se o governo tivesse tido a competência de fazer antes, no tempo certo, o que está tentando fazer agora, sob a pressão do clamor popular, os brasileiros estariam hoje celebrando em paz o país de sonho que o PT prometeu e não entregou.

O fato é que o lulopetismo, do alto de sua soberba, messiânico e populista, a partir de 2003 tomou enorme gosto pelo poder e passou a cultivar a obsessão de nele se perpetuar. Uma ambição até legítima, se sustentada de forma genuinamente democrática.

Mas está longe de ser democrático quem sustenta seu poder — para ficarmos apenas no caso do Congresso Nacional — por meio da subjugação das instituições, exatamente aquelas que têm a missão constitucional de representar os cidadãos (a Câmara dos Deputados) e as unidades federadas (o Senado Federal), além de fiscalizar os atos do Executivo. Pois foi exatamente essa a tarefa a que, inicialmente sob o desastrado comando do mensaleiro José Dirceu, o PT se dedicou com afinco: transformar o Congresso Nacional num mero balcão de negócios, silenciando a discussão das grandes questões políticas do país com a generosa distribuição de toda sorte de vantagens pessoais, inclusive de nacos de poder. Afinal, para que debate, se os iluminados donos do poder sempre souberam perfeita e exatamente o que o povo quer?

É claro que, a partir do instante em que senadores e deputados se mostram incapazes e desinteressados de atuar em sintonia com o sentimento popular, se abre espaço para o clamor das ruas. Trata-se de reação saudável do ponto de vista da democracia, mas obviamente excepcional. A necessária participação popular nos sistemas democráticos tem à sua disposição mecanismos e foros adequados, de organizações não governamentais e entidades associativas aos partidos políticos. Mas é nos Parlamentos que devem desaguar as aspirações populares.

Por essa razão é que, por meio da cooptação puramente fisiológica dos partidos no Congresso Nacional, o lulopetismo vinha tentando impor-se absoluto e incontrastável na missão de definir os rumos do País. Vinha — até que as ruas se tingiram de verde-amarelo e chamaram para si a definição da agenda política prioritária e aos atônitos governantes não restou senão correr atrás do prejuízo.

A teoria da separação e autonomia dos Poderes constitui o núcleo duro do sistema democrático de governo. Sua prática, entretanto, depende da competência com que os atores da cena política logram equilibrar o jogo de interesses conflitantes inevitável em qualquer tipo de convivência humana. Aqui, lamentavelmente, o lulopetismo alterou em seu benefício o equilíbrio entre os Poderes da República ao impor o fisiologismo como moeda corrente da vida pública nacional. Despolitizou o Parlamento. O resultado está nas ruas.

01/07/2013


Charge




Amarildo


Olé!






domingo, 30 de junho de 2013

Manuel Castells: ‘O povo não vai se cansar de protestar’

Sociólogo afirma que ausência de líderes é uma das qualidades dos protestos no Brasil e diz que país vai influenciar países vizinhos

Maurício Meireles

Na rua está “a sociedade em sua diversidade”, diz Castells
Foto: Luiz Munhoz/FatoPress/Folhapress/10-6-2013
Na rua está “a sociedade em sua diversidade”, diz Castells Luiz Munhoz/FatoPress/Folhapress/10-6-2013
Para o sociólogo catalão Manuel Castells, boa parte dos políticos é de “burocratas preguiçosos”. Ele é um dos pensadores mais influentes do mundo, com suas análises sobre os efeitos da tecnologia na economia, na cultura e, principalmente, no ativismo. Conhecido por sua língua afiada, o espanhol falou ao GLOBO por e-mail sobre os protestos.


Os protestos no Brasil não tinham líderes. Isso é uma qualidade ou um defeito?
Claro que é uma qualidade. Não há cabeças para serem cortadas. Assim, as redes se espalham e alcançam novos espaços na internet e nas ruas. Não se trata, apenas, de redes na internet, mas redes presenciais.
Como conseguir interlocução com as instituições sem líderes?
Eles apresentam suas demandas no espaço público, e cabe às instituições estabelecer o diálogo. Uma comissão pode até ser eleita para encontrar o presidente, mas não líderes.
Como explicar os protestos?
É um movimento contra a corrupção e a arrogância dos políticos, em defesa da dignidade e dos direitos humanos — aí incluído o transporte. Os movimentos recentes colocam a dignidade e a democracia como meta, mais do que o combate à pobreza. É um protesto democrático e moral, como a maioria dos outros recentes.
Por que o senhor disse que os protestos brasileiros são um “ponto de inflexão”?
É a primeira vez que os brasileiros se manifestam fora dos canais tradicionais, como partidos e sindicatos. As pessoas cobram soberania política. É um movimento contra o monopólio do poder por parte de partidos altamente burocratizados. É, ainda, uma manifestação contra o crescimento econômico que não cuida da qualidade de vida nas cidades. No caso, o tema foi o transporte. Eles são contra a ideia do crescimento pelo crescimento, o mantra do neodesenvolvimentismo da América Latina, seja de direita, seja de esquerda. Como o Brasil costuma criar tendências, estamos em um ponto de inflexão não só para ele e o continente. A ideologia do crescimento, como solução para os problemas sociais, foi desmistificada.
O que costuma mover esses protestos?
O ultraje, causado pela desatenção dos políticos e burocratas do governo pelos problemas e desejos de seus cidadãos, que os elegem e pagam seus salários. O principal é que milhares de cidadãos se sentem fortalecidos agora.
O senhor acha que eles podem ter sucesso sem uma pauta bem definida de pedidos?
Acho inacreditável. Além de passarem por uma série de problemas urbanos, ainda se exige que eles façam o trabalho de profissional que deveria ser dos burocratas preguiçosos responsáveis pela bagunça nos serviços. Os cidadãos só apontam os problemas. Resolvê-los é trabalho para os políticos e técnicos pagos por eles para fazê-lo.
Com organização horizontal, esse movimento pode durar?
Vai durar para sempre na internet e na mente da população. E continuará nas ruas até que exigências sejam satisfeitas, enquanto os políticos tentarem ignorar o movimento, na esperança que o povo se canse. Ele não vai se cansar. No máximo, vai mudar a forma de protestar.
Outra característica dos protestos eram bandeiras à esquerda e à direita do espectro político. Como isso é possível?
O espaço público reúne a sociedade em sua diversidade. A direita, a esquerda, os malucos, os sonhadores, os realistas, os ativistas, os piadistas, os revoltados — todo mundo. Anormal seriam legiões em ordem, organizadas por uma única bandeira e lideradas por burocratas partidários. É o caos criativo, não a ordem preestabelecida.
Há uma crise da democracia representativa?
Claro que há. A maior parte dos cidadãos do mundo não se sente representada por seu governo e parlamento. Partidos são universalmente desprezados pela maioria das pessoas. A culpa é dos políticos. Eles acreditam que seus cargos lhes pertencem, esquecendo que são pagos pelo povo. Boa parte, ainda que não a maioria, é corrupta, e as campanhas costumam ser financiadas ilegalmente no mundo inteiro. Democracia não é só votar de quatro em quatro anos nas bases de uma lei eleitoral trapaceira. As eleições viraram um mercado político, e o espaço público só é usado para debate nelas. O desejo de participação não é bem-vindo, e as redes sociais são vistas com desconfiança pelo establishment político.
O senhor vê algo em comum entre os protestos no Brasil e na Turquia?
Sim, a deterioração da qualidade de vida urbana sob o crescimento econômico irrestrito, que não dá atenção à vida dos cidadãos. Especuladores imobiliários e burocratas, normalmente corruptos, são os inimigos nos dois casos.
Protestos convocados pela internet nunca tinham reunido tantas pessoas no Brasil. Qual a diferença entre a convocação que funciona e a que não tem sucesso?
O meio não é a mensagem. Tudo depende do impacto que uma mensagem tem na consciência de muitas pessoas. As mídias sociais só permitem a distribuição viral de qualquer mensagem e o acompanhamento da ação coletiva.

O medo da vaia esvazia a tribuna de honra do Maracanã: Lula refugiou-se na África e Dilma resolveu ficar escondida em casa




 

Por Augusto Nunes
Em silêncio sobre o caso Rose há 217 dias, faz 23 que Lula não abre a boca em público sobre as manifestações de rua que vêm ocorrendo em centenas de cidades desde 6 de junho.

E vai continuar fugindo do assunto enquanto puder. Nesta sexta-feira, depois de permanecer enfurnado algumas semanas no Instituto Lula, o maior dos governantes desde Tomé de Souza tratou de afastar-se de problemas novos ou antigos a jato.
Jatinho, para ser mais preciso.

A bordo de um deles, cedido por um dos patrões do camelô de empreiteiros, caiu fora do país que perdeu a paciência com os vendedores de fumaça que arquitetaram a farsa do Brasil Maravilha.

Como informa a coluna do meu irmão Ricardo Setti, o palanque ambulante foi tapear plateias na África. Nos países explorados por ditadores companheiros, as balas que reprimem manifestações contra o governo não são de borracha.

Além de escondê-lo de perguntas sobre o caso de polícia em que se meteu ao lado da segunda dama Rosemary Noronha, e de poupá-lo de caçar explicações para a onda de descontentamento que varre o paraíso imaginário, a viagem livrou o foragido do dilema que atormentou a presidente Dilma Rousseff, o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes: ir ou não ir ao Maracanã neste domingo.

Os três ases das urnas alegaram que, antes de anunciar o que fariam, precisavam saber o que pretendiam fazer os manifestantes que vão protestar nas ruas do Rio contra a afrontosa gastança do bando que surfa na Copa da Ladroagem.

Conversa fiada: o que aguça o pavor dos parceiros é a certeza de que nenhum escaparia da surra sonora aplicada por milhares de brasileiros que não embarcaram no conto da “pátria de chuteiras”.

Neste sábado, Dilma enfim revogou a bravata recitada no mesmo dia em que a multidão aglomerada no Mané Garrincha mostrou o que acha do seu desempenho.

Vai ver pela TV o jogo entre o Brasil e a Espanha. Foi aconselhada a ficar em casa pelas lembranças do vexame na abertura da Copa das Confederações, pelo clamor das ruas e pela pesquisa divulgada pelo Datafolha.

Como também aconselhou a chefe a manter distância da zona perigosa, pode-se deduzir que Sérgio Cabral vai torcer pela Seleção em companhia da família.

É provável que convide Eduardo Paes para dividir um sofá. A deserção dos que dias atrás enxergavam a oitava maravilha do mundo no estádio reformado por absurdos 1,2 bilhão de reais atesta que, se soubessem dos planos de Lula, todos teriam disputado a pontapés uma vaga no jatinho do palanque ambulante.

O presidente da Fifa, Joseph Blatter, será vaiado sozinho.

No Maracanã superlotado, estarão vazios os lugares reservados à presidente, ao governador e ao prefeito na tribuna de honra.

É mais uma prova contundente de que os governantes lulopetistas e seus comparsas só protagonizam demonstrações de bravura em combate quando lutam contra a lei, a ética e os cofres públicos.

29/06/2013