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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Lula diz que está à disposição das autoridades, mas que MP foi editada por Dilma



Em nota divulgada nesta sexta-feira, ex-presidente diz que 'não tem qualquer relação com os fatos investigados' na Operação Zelotes e que 'MP em questão foi editada em 2013'; petista foi intimado a depor na Polícia Federal


Andreza Matais, Fábio Fabrini
e Carla Araújo
O Estado de S.Paulo


BRASÍLIA - O Instituto Lula divulgou nota nesta sexta-feira, 11, na qual diz que ainda não foi notificado pela Polícia Federal para que o ex-presidente preste depoimento no inquérito que investiga suposta compra de medidas provisórias, mas que “sempre esteve à disposição das autoridades para contribuir com o esclarecimento da verdade.” O ex-presidente mencionou que “não tem qualquer relação com os fatos investigados” ao afirmar que “a MP em questão foi editada em 2013”, quando ele não estava mais no Planalto e a presidente já era Dilma Rousseff. “A Medida Provisória em questão foi editada e aprovada pelo Congresso em 2013, quando ele não era mais presidente da República”, diz a nota.

O filho do ex-presidente Lula, Luís Claudio Lula da Silva, é suspeito de ter recebido R$ 2,5 milhões do esquema de lobby que atuou na suposta compra das MPs justamente pela edição da 621/2013, medida provisória a que o petista faz referência na nota.

Lula

O Estado revelou hoje que a PF decidiu intimar o ex-presidente para que ele esclareça “fatos relacionados ao lobby realizado para a obtenção de benefícios fiscais para as empresas MMC Automotores, subsidiária da Mitsubishi no Brasil, e o Grupo CAOA (fabricante de veículos Hyundai no Brasil e revendedora das marcas Ford, Hyundai e Subaru), bem como outros eventos relacionados a essas atividades”. A determinação para a intimação é assinada pelo delegado Marlon Oliveira Cajado dos Santos, responsável pelas investigações da Operação Zelotes. O ex-presidente ainda não foi intimado porque o processo não é automático e o petista está em viagem ao exterior. O mandado de intimação foi expedido no último dia três de dezembro.

As investigações da Operação Zelotes, contudo, não se concentram apenas na MP 621/2013. Também há suspeitas de pagamento de propina para as MPs 471/2009 e 512/2010 editadas por Lula quando presidente. Todas renovaram incentivos fiscais para montadoras de veículos com fábricas no Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

O esquema de lobby para a compra de medidas provisórias envolveu a contratação da consultoria Marcondes & Mautoni que tem como sócios Mauro e Cristina Marcondes, amigos do ex-presidente Lula. O Estado revelou que Mauro Marcondes disse em depoimento a um livro que ajudou a tirar Lula da prisão na época em que o petista era sindicalista em São Bernardo do Campo. O chefe de gabinete de Lula na presidência, Gilberto Carvalho, também é ligado a Mauro Marcondes, segundo os investigadores, e teria atuado pela edição da MP 471 assinada por Lula.

Veja a íntegra da nota de Lula:

“O ex-presidente Lula não tem qualquer relação com os fatos investigados. A Medida Provisória em questão foi editada e aprovada pelo Congresso em 2013, quando ele não era mais presidente da República. Mesmo sem ter sido notificado oficialmente para depor, Lula estará, como sempre esteve, à disposição das autoridades para contribuir com o esclarecimento da verdade.”

11 Dezembro 2015


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Com a frase em que jurou não ser ladrão, o coroinha de missa negra se transformou em forte candidato a Richard Nixon de picadeiro



Por Augusto Nunes

No meio da entrevista coletiva concedida em 17 de novembro de 1973, o presidente Richard Nixon soltou a frase que, concebida para transformar-se no dístico inscrito no estandarte de outra vítim inocente de tramoias políticas, acabou radiografando com cinco palavras o caráter e a alma do homem mais poderoso do mundo.  "
I’m not a crook", mentiu Nixon.

A supressão do not , exigida aos gritos pelo que já se descobrira sobre o Caso Watergate, pelas demais anotações no alentado prontuário, pela cara de culpado e pela voz de foragido do entrevistado, ofereceu aos jornalistas a expressão que resumia o personagem com contundente exatidão.

O presidente reeleito com uma votação consagradora era um crook. Um genuíno escroque, confirmariam à exaustão as revelações que induziram Nixon a renunciar em 8 de agosto de 1974 ao segundo mandato ainda em seu começo e cair fora do Salão Oval antes da chegada da ordem de despejo. Os eleitores dos Estados Unidos também se equivocam quando escolhem o presidente. Mas já aprenderam o que fazer quando descobrem que instalaram patifes na Casa Branca.

      

É possível que a história se repita como farsa em outros países. No Brasil do lulopetismo, costuma ser reprisada como chanchada, confirmou a frase que Gilberto Carvalho declamou ao despedir-se do gabinete no Palácio do Planalto que lhe garantiu por 12 anos um salário de bom tamanho e a carteirinha de pai da pátria que livra o portador de embarques indesejados na traseira do camburão. “Nós não somos ladrões”, confessou pelo avesso a caixa preta abarrotada de casos de polícia por resolver desde os tempos em que se disfarçava de amigo do prefeito Celo Daniel.

O Brasil teve de esperar mais de 40 anos para ver a entrada em cena, a bordo de quatro palavras, de um forte candidato a Richard Nixon de picadeiro.

Gilberto Carvalho mostrou que está credenciado para o papel ao confessar, pelo avesso, que o bando de que faz parte anda atulhado de ladrões. Mas o candidato talvez já tivesse garantido o novo emprego se o script se limitasse a traduzir o original americano. A turma que tentou inocentar com o palavrório desastrado é muito maior e mais abrangente que a bancada dos gatunos. “Nós não somos escroques”, deveria ter ampliado o leque o coroinha de missa negra.

No bando formado por especialistas em distintas modalidades criminosas, há outros serviços a fazer além de embolsar dinheiro público. Mas todos os integrantes da quadrilha a que Gilberto Carvalho se orgulha de pertencer são escroques que que fariam bonito até num duelo com o time de Richard Nixon.



06/01/2015


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Carvalho por um fio: se ele não cai, quem fica na corda bamba é Dilma




Miguel Rossetto, que já foi duas vezes ministro do Desenvolvimento Agrário, é cotado para o lugar de Gilberto Carvalho na Secretaria-Geral da Presidência da República


Por Reinaldo Azevedo
Parece que Dilma vai acatar a minha sugestão e pôr na rua o seu ministro da Confusão Institucional. Na semana passada, enquanto a presidente falava em um entendimento nacional, Carvalho pregava, na prática, a guerra com o que ele chama “mídia”. Sempre foi um procurador dos interesses de Lula no Planalto; nunca esteve a serviço de Dilma, que não gosta dele.

E olhem que Rossetto não é exatamente uma flor “no que se refere” a olores ideológicos. É ligado à Democracia Socialista, uma corrente de esquerda, de sotaque trotskista, que só aderiu ao PT em 1986. No mapa ideológico ao menos, está à esquerda do próprio Carvalho.

A questão, no fim das contas, nem é de ideologia, mas de disciplina. Carvalho se move sem pedir licença, fala o que lhe dá na telha e se comporta como se fosse chefe de Dilma. Afinal, ele é da turma que considera a autoridade do partido acima da autoridade do Estado e do governo. Se, no PT, ele é mais do que ela — e é —, então manda mais no país. Sem contar que é a voz, os braços, os olhos, os ouvidos e a língua de Lula no Palácio.

Se Dilma não puser Carvalho na rua, será muito difícil governar.

E saiba, presidente: estamos falando do maior hortelão da República.

Ninguém planta “notícias”, inclusive aquelas que Vossa Excelência não gosta de ler, com a habilidade deste misto de sacristão e tiranete.

Se ele não cai, quem fica na corda bamba é Dilma.

Se fica, passará os próximos quatro anos conspirando em favor da volta de Lula.


03/11/2014

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Carvalho, por enquanto, vence braço de ferro, com auxílio de Lula, e fica no governo, sabotando-o. Então que fique!



Gilberto Carvalho: Lula vence batalha e mantém seu espião no governo


Por Reinaldo Azevedo

Dedico nesta sexta, na Folha, mais uma coluna a Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, vejam lá. A presidente Dilma Rousseff já percebeu que ele não é exatamente alguém que lute para que ela se reeleja. Em certa medida, pode até fazer o contrário: Carvalho é o tipo de militante que, caso considere que a doutrina partidária está sendo contrariada, prefere a derrota que purifica à vitória que não honra os fundamentos.

A luta dos que tentam botar Carvalho para fora do Ministério continua, a começar de Aloizio Mercadante, ministro da Casa Civil. Mas não será fácil. E, por enquanto ao menos, os seus adversários internos foram derrotados. A razão é simples. Luiz Inácio Lula da Silva, o chefão nº 1 do PT, entrou em ação para manter no Planalto o chefão nº 2 do partido — justamente Carvalho, que atua como seus olhos, mãos e ouvidos. Segundo a família de Celso Daniel, prefeito assassinado de Santo André, as mãos de Carvalho carregaram bem mais do que um destino.

Carvalho é o Savonarola do PT e do Planalto, aquele que se apresenta como o chefe da doutrina e o purificador, o que lhe rende também simpatias em amplos setores da imprensa, que o veem como um homem sem ambições pessoais. Quem quiser que se comova. Tomem o caso do Decreto 8.243, aquele que disciplina a participação dos movimentos sociais no governo federal. É claro que a presidente Dilma não foi obrigada a assinar aquela porcaria. Por sua própria vontade, no entanto, isso seria deixado pra lá. Quem forçou a mão foram setores do PT e, evidentemente, Carvalho. Diante da resistência da Câmara — na verdade, do Congresso —, em vez de buscar a conciliação, o convencimento, o entendimento, ele anuncia uma “guerra” e uma “luta até o fim”.

De junho do ano passado a esta data, a Carvalho cabia o chamado “diálogo” com os movimentos sociais — ou por outra: a sua função era justamente desarmar o gatilho das manifestações violentas, que acabaram caindo no colo de Dilma Rousseff. E o que se sabe hoje? Este senhor resolveu bater um papinho com black blocs. Sob a sua gestão, a questão indígena se tornou, literalmente, um assunto que se debate com arco, flecha e balas. Carvalho tentou até mesmo, como esquecer?, transformar os rolezinhos numa guerra racial.

Este senhor não é exatamente um homem, mas uma personagem. Num romance como “O Nome da Rosa”, por exemplo, de Umberto Eco, ele seria um daqueles obcecados que se moveriam nas sombras, com convicção inquebrantável, em nome de alguma doutrina morta. Se estivesse em “Criação”, de Gore Vidal, caber-lhe-ia o papel de um dos eunucos da corte persa, defendendo valores nos quais o próprio imperador não acredita.

Lula agiu para Carvalho continuar no governo. Dilma que se vire com os seus sabotadores.
25.07.2014

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Gleisi não enxerga nem a Petrobras, Gilberto Carvalho vislumbra uma conspiração encabeçada por FHC, Renan não vê coisa nenhuma e Rui Falcão entra na briga com o apoio do companheiro André Vargas




Por Augusto Nunes

“A chefa não viu problema nenhum em Pasadena, não viu nada de errado na Abreu e Lima e avisou que, em respeito aos superiores interesses do governo e da nação, nessa ordem, não está conseguindo enxergar direito nem a Petrobras”, avisou um dos 77 funcionários de confiança de Gleisi Hoffmann, durante a solenidade que anunciou a candidatura da senadora ao título de Homem sem Visão de Abril.

“Ela está disposta a tudo para se juntar ao timaço abrilhantado por gente como Ideli Salvatti, Marilena Chauí e Dilma Rousseff, entre outras maravilhas femininas da fauna nacional contempladas com o troféu. Além do mais, ela ganha de goleada no quesito estampa & fachada”.
Como André Vargas não pôde inscrever-se por ter arrebatado o HSV de Fevereiro, o melhor amigo do doleiro Alberto Yousseff vai pedir um jatinho emprestado para ajudar a eleger o companheiro Rui Falcão. O presidente do PT credenciou-se para entrar na briga de foice ao não enxergar nenhuma ligação entre o PT e o deputado do PT do Paraná que o PT indicou para a vice-presidência da Câmara.

Ao saber da entrada em campo dos dois craques, Renan Calheiros escalou um dos 12 mil servidores comissionados do Senado para protocolar sua candidatura. Antes de embarcar rumo a São Paulo num jatinho da FABTur requisitado pelo presidente da Casa do Espanto, o servidor público teve de decorar a mensagem manuscrita que o chefe enfiou em seu bolso: “Quem nunca viu nada de errado em nenhum governo de nenhum partido merece mais que o troféu mensal: merece ser o HSV do Ano”.

Conforme informou a reportagem sobre a entrega do título de março a Luís Roberto Barroso, o caixa-preta Gilberto Carvalho conseguiu autorização para ingressar na disputa antes que abril começasse. A exceção foi aberta porque o secretário-geral da Presidência enxergou no rebaixamento da nota de crédito do Brasil uma conspiração que juntou Aécio Neves e a agência S&P, sob a supervisão de Fernando Henrique Cardoso.

É só campeão em campanha, leitores-eleitores! Outras feras se preparam para entrar na jaula! Quem será o vencedor? Ou vencedora? Que vença o pior!
10/04/2014


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Mistério no Rio de Janeiro: o que fazia Gilberto Carvalho na manifestação contra o aliado Sérgio Cabral?





Divulgado com exclusividade pela coluna, o vídeo de 5:19 registra imagens e sons da manifestação contra Sérgio Cabral promovida em 26 de julho em Copacabana.

Um olhar superficial não vê nada de mais.

Cenas de hostilidade ao governador fazem parte desde junho da rotina do Rio, e as palavras de ordem berradas pelos ativistas já soam familiares aos cariocas.

O que faz a diferença é a presença de Gilberto Carvalho no ato de protesto.

O secretário-geral da Presidência da República, que estava no Rio para acompanhar a visita do Papa Francisco, faz quatro aparições na gravação feita com um celular.

Na primeira, o rosto risonho sugere que está gostando do que vê e ouve.

Na segunda, ele olha para o alto sem desfazer o sorriso abobalhado.

Na terceira, circula entre a multidão caprichando na pose de sherloque paraguaio.

Na última, parece desconfiar que talvez esteja no lugar errado.

Somadas, as fugazes entradas em cena deixam sem resposta a pergunta intrigante: o que fazia Gilberto Carvalho no meio da manifestação contra um aliado do Planalto?

O coroinha decaído começou a ganhar notoriedade em janeiro de 2002, quando participou ativamente da trama destinada a fantasiar de crime comum a execução do prefeito de Santo André, Celso Daniel, e sepultar as investigações sobre os autores do assassinato consumado por motivações políticas.

De lá para cá, acumulou anotações no prontuário suficientes para transformá-lo na mais valorizada caixa preta do PT.

O espião flagrado no vídeo invariavelmente esteve do lado errado das coisas.

Embora ainda não se saiba o que o levou ao meio da manifestação, é certo que estava lá para tramar contra alguém.

E para servir a Lula, como tem feito desde que deixou o seminário para cair na vida.


02/08/2013


quarta-feira, 10 de julho de 2013

A fúria das férias



 
Estudantes em férias, trânsito melhor, menos manifestações com menos gente.

Após a tempestade vem a bonança ─ mas quem disse que a tempestade passou?

Por Carlos Brickmann

Talvez não tenha passado. Amanhã, quinta, há greve geral marcada pelas centrais sindicais. A menos que fracasse, é confusão brava.

Pior: algumas centrais tentam criar uma figura nova na História, a greve geral a favor do Governo; uma delas, a Força Sindical, age na direção oposta e prega o quanto pior, melhor.

O líder da central opositora, deputado Paulinho da Força, do PDT paulista, ameaça gerar confrontos com as outras centrais, levando cartazes “Fora, Dilma” às manifestações.

Diz: “Nosso trabalho é empurrá-la para o buraco”. Como se fosse possível jogar uma presidente da República no buraco sem que o país vá junto.

A Federação Nacional dos Médicos tem reunião de emergência também amanhã, em Brasília, às 10 da manhã. O objetivo é protestar contra o plano de importação de médicos estrangeiros, que nem precisariam revalidar seus diplomas.

A Federação pensa até, entre outras possibilidades, em greve nacional de médicos.

Quem do Governo dialoga com os médicos? Gilberto Carvalho, até agora o negociador, está fora; Gleisi Hoffman, da Casa Civil, e Ideli Salvatti, das Relações Institucionais, foram esvaziadas.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, nem sabia da importação de médicos ─ uma ideia do chanceler Antônio Patriota (sim,ele as tem!)

Entretanto, como dialogar com médicos sem pisar no ministro da Saúde? Patriota é o pai da confusão, mas a burocracia o livra de pagar por ela.

Fio de bigode
Restaria, com prestígio oficial para negociar, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Mas às dez da manhã? Ele precisa de tempo, depois de acordar, para aparar com perfeição, fio a fio, aquele bigode que só falta encerar, e fazer cara de bravo (acreditem: longe de estranhos, ele é afável, até parece normal).

Só assim Mercadante se sente apto a aparecer em fotos, mais uma vez, perto da presidente.

Data-limite
E tudo tem de acabar até o dia 22, quando o papa Francisco chega ao Brasil.

Que mundo!
Chico Buarque, o profeta, dizia que não existe pecado do lado de baixo do Equador. Nem sempre os profetas acertam. Chico dizia também que boi voador não pode. Só que, agora, se o caro leitor imaginar que viu bois voando, é que viu mesmo.

Pois não é que índios entraram no STJ com ação criminal por calúnia e difamação contra seu maior defensor no Governo, o ministro Gilberto Carvalho?

Os mundurucus o processam por ter dito que alguns índios se dedicam ao garimpo ilegal de ouro. O mundo está tão esquisito que Carvalho pode até ter razão.

Olhos e ouvidos
Se o Governo brasileiro se surpreendeu com a ação da espionagem americana, está lamentavelmente atrasado. Um excelente livro de 1994, O Punho de Deus, de Frederick Forsyth, tem enredo de ficção, mas conta como funcionava, alguns anos antes, a espionagem dos EUA.

Descrevem-se os equipamentos da época e usa-se a seguinte frase, a respeito do Iraque de Saddam Hussein: “Se fosse dito, eles poderiam ouvir. Se se deslocasse, poderiam ver. E, se soubessem a respeito, poderiam destruir”.

O livro tem 19 anos e descreve o mundo de 23 anos atrás.


10/07/2013

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A trinca de conselheiros comprova que Dilma não entendeu a mensagem das multidões



 

Por Augusto Nunes

O jornalista Lauro Jardim informou que Gilberto Carvalho anda amuado por não ser consultado pela presidente Dilma Rousseff.

Essa é a notícia boa: pouco importa o que tem a dizer quem só diz besteira.

A notícia ruim é que, segundo o ex-seminarista que virou porteiro de bordel (além de secretário-geral da Presidência), a chefe agora ouve apenas ─ além das ordens de Lula ─ a trinca formada por Aloizio Mercadante, Fernando Pimentel e João Santana.

Ministro da Propaganda,João Santana costuma alternar lances espertos com ideias de jerico. Na campanha de 2010, por exemplo, o marqueteiro baiano acertou ao condecorar Dilma Rousseff com a medalha de Mãe do PAC.

A malandragem ajudou a fantasiar de supergerente a dona da lojinha que faliu em Porto Alegreio.

Em contrapartida, foi Santana quem convenceu a presidente a dar as caras na abertura da Copa das Confederações.

Teria uma recepção de rainha, apostou. Foi mais vaiada que um zagueiro que enterrou o time.

Seja qual for o cargo que ocupe, Aloizio Mercadante jamais perde uma chance de justificar o título de Herói da Rendição, obtido graças a notáveis demonstrações de falta de bravura em combate.

Especialista em retiradas e capitulações, inventou a revogação do irrevogável quando liderava a bancada do PT no Senado.

Agora no triplo papel de ministro da Educação, da Economia e de Crises Políticas, foi o primeiro a aconselhar Dilma Rousseff a entrar na batalha da Constituinte. E foi o primeiro a recomendar que se rendesse.

Disfarçado de ministro de Indústria, Comércio e Desenvolvimento, Fernando Pimentel é o Primeiro-Acompanhante e Melhor Amigo da presidente, com quem convive desde quando tentavam trocar a tiros a ditadura militar pela ditadura do proletariado.

A força do afeto manteve Pimentel no emprego mesmo depois da descoberta de que ganhou muito dinheiro usando as fantasias de “conferencista” e “consultor financeiro” .

O palestrante enriqueceu sem abrir a boca. O consultor precisou de meia dúzia de conselhos para levar à falência uma fábrica de tubaína.

Se estivesse disposta a combater a corrupção, Dilma já teria remetido Pimentel para a delegacia mais próxima.

Se quisesse mesmo reduzir a gastança federal, já teria mandado para casa Mercadante e João Santana.

Caso desejasse fazer as duas coisas com um único despejo, Gilberto Carvalho estaria procurando trabalho há muito tempo.

A demissão do secretário-geral reduziria a taxa de mediocridade do Planalto e talvez impedisse o engavetamento das investigações sobre o escândalo protagonizado pela segunda-dama Rosemary Noronha.

Dilma não fará nada disso, claro. Vai continuar ouvindo o coro dos áulicos, contando mentiras, desfiando promessas grisalhas e irritando milhões de brasileiros fartos de tapeação.

Até que as multidões percam a paciência de vez e acordem a presidente surda à mensagem das ruas com uma passeata debaixo da cama.

25/06/2013

terça-feira, 18 de junho de 2013

No pé de quem?

 
O ministro Gilberto Carvalho parece que estava adivinhando. Em meados de dezembro, há exatos seis meses, o secretário-geral da Presidência da República gravou em vídeo uma saudação de fim de ano ao PT convocando a militância a ir às ruas “assim que passarem as festas”.

Aconselhava os companheiros a “descansarem bem agora” porque “em 2013 o bicho vai pegar”. Demorou um pouquinho, mas não deu outra: o bicho pegou.


Por Dora Kramer

ESTADÃO



Em configuração diferente daquela pretendida pelo ministro na convocatória de dezembro. Lá a ideia era “a gente ir para as ruas” em defesa do governo federal, contra os “ataques sem limites ao nosso querido presidente Lula”.

Na concepção do ministro, em protesto a “eles”. Quem? “Os mafiosos midiáticos da oposição ao Brasil”, cujo objetivo único na versão natalina de Carvalho seria a destruição “do nosso projeto, do nosso governo, do nosso PT”.

Note-se a expressão “da oposição ao Brasil”. Refere-se a qualquer grupo, cidadão ou instituição que critique ou discorde do governo tornando-se, por isso, automaticamente inimigo do País.

O ministro atirou na imagem construída por devaneios persecutórios costumeiramente usados como armas de ataque disfarçadas em instrumentos de defesa, mas acertou em sentimentos distantes do alcance da vista.

Há exaustão, há revolta, há contrariedade. Mas não há por parte dos exaustos, dos revoltados, dos contrariados adesão a partido algum. Não que os manifestantes ou parte deles não tenham suas preferências, mas elas não se expressam na explosão da chama acesa pelo aumento das passagens de ônibus.

À exceção de grupos alojados em pequenas legendas cuja expressão é nenhuma, não há até agora a digital de partidos por trás dos protestos que pegaram o Brasil de surpresa.

De um modo geral os políticos têm evitado falar. Estão tentando entender o que se passa, antes de se pronunciar. Os poucos que o fizeram ou falaram bobagem ao repetir os velhos bordões sobre “orquestração” de adversários ou passaram ao largo da questão central: a discrepância entre a agenda do mundo política e as demandas de uma sociedade maltratada pelo Estado.

Seja ele representado por governantes do PT, PSDB, PMDB ou qualquer partido. Estão evidentemente à margem dessa mobilização popular. Além de não terem o menor interesse em transferir o jogo da política de espaços conhecidos (gabinetes, Congresso e tribunais) para o terreno desconhecido das ruas, são todos eles alvos da insatisfação.

Nessa altura quem aparecer para tentar capitalizar eleitoralmente a comoção provavelmente será repudiado. O levante também é motivado pelo descrédito na política. A desqualificação do Congresso, a preocupação exclusiva dos partidos com a disputa de votos, a discussão concentrada em eleição distante enquanto as condições objetivas da vida vão piorando dia a dia, não faz dos políticos aliados confiáveis.

Os “mafiosos midiáticos da oposição ao Brasil”, referidos pelo ministro Gilberto Carvalho para (des) qualificar os críticos, como se vê não são mafiosos, não são midiáticos, não são inimigos do País. Ao contrário, estão chamando atenção para a indiferença do poder público, independentemente do matiz partidário.

O bicho realmente está pegando. Resta saber, porém, no pé de quem exatamente. Em outras palavras: é de se conferir para onde caminhará essa insatisfação quando chegar a hora de a manifestação se expressar nas urnas.

No momento a única certeza é a de que não se direciona em favor de força político-partidária alguma. De um lado é bom porque não permite que nossos representantes enfrentem a questão debitando o custo na conta do vizinho. De outro há o risco de se deixar prosperar a semente para a pregação do voto nulo, ferindo gravemente a representação.

18/06/2013

segunda-feira, 18 de março de 2013

As interrogações de J. R. Guzzo enquadram os donatários do ‘Brasil para todos’

 
Por Augusto Nunes
A leitura do artigo de J. R. Guzzo na última página da edição de VEJA inquieta e, simultaneamente, lava a alma dos brasileiros decentes.
Volto no fim. (AN)

O BRASIL DA CHIBATA

Poderia a presidente Dilma Rousseff ter a bondade de explicar, com um mínimo de clareza, o que é “fazer o diabo”? Dilma disse há pouco que nas campanhas eleitorais é permitido fazer exatamente isso, “o diabo”, mas não deu nenhuma informação sobre os atos concretos que os candidatos, a começar por ela própria, estão autorizados a cometer. O que vale? O que não vale? Coisa do bem não deve ser. Nunca se ouviu dizer, por exemplo, que Madre Teresa de Calcutá fizesse “o diabo” em favor de suas obras de caridade. Pelo entendimento comum, fazer o diabo significa estar disposto a qualquer coisa, por pior que seja, para conseguir algo. É isso?

O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, acha que tem, sim ou não, o direito de chamar um cidadão de “palhaço” e mandá-lo “chafurdar na lama”? Coragem, ministro: sim ou não? Dizer essas coisas, em público, não é crime de injúria? Ou presidentes do STF estão desobrigados de obedecer ao artigo 140 do Código Penal Brasileiro?

Colocar um fotógrafo do Instituto Lula, entidade privada, a bordo do avião presidencial que levou Dilma Rousseff (e o próprio Lula) aos funerais do coronel Hugo Chávez na Venezuela, e apresentar o rapaz como “intérprete” da comitiva, não é um delito de falsificação? Intérprete ele não é; como acaba de informar em VEJA o redator-chefe Lauro Jardim, sua ocupação é tirar fotos para a coleção pessoal do ex-presidente. Há outras dúvidas. Será que Dilma não entende nada de espanhol? Não há nenhum intérprete de verdade entre mais de 1 milhão de funcionários do governo federal? Privatizar assentos a bordo do Aerodilma, para o Instituto Lula economizar um dinheirinho, já é um ato permitido pela doutrina de “fazer o diabo”?

O que o dr. Gilberto Carvalho, que tem no seu cartão de visita o título de “ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República”, quer dizer quando afirma, como fez há pouco, que “o bicho vai pegar”? Que bicho é esse? Pertence ao Patrimônio da União? Ele vai pegar quem? Já foi solto, por exemplo, contra a blogueira cubana Yoani Sánchez, que bandos de delinquentes a serviço do governo atacaram em sua recente passagem pelo Brasil? Tem cabimento o ministro-chefe (a propósito: haveria algum ministro que não é chefe?) usar em público linguagem de bandido? Por que será que tanta história esquisita (a de Yoani é apenas a última de uma longa série) começa, passa ou termina na sala do dr. Gilberto?

Quais os nomes da “meia dúzia de famílias poderosas” que, segundo o presidente do PT, deputado Rui Falcão, decidem “o que o nosso povo pode ler, ouvir e assistir”? Daria para o deputado, por cortesia, informar de onde ele tirou este número, “meia dúzia”, num país que tem no momento quase 10 000 estações de rádio, mais de 500 emissoras de televisão, cerca de 5 500 revistas e 2 700 jornais? Estaria ele reprovando o fato de que há veículos com audiência e circulação muito maiores que os demais, porque o público, por sua livre e espontânea vontade, prefere ver, ouvir e ler mais uns do que outros? Que culpa têm os veículos que fazem mais sucesso, ou que ilegalidade cometem por serem os preferidos ela maioria do público?

Por que o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, não guardou um tostão dos bilhões de reais que seu estado recebeu em royalties de petróleo nos últimos anos? Desde 2007, quando assumiu o governo, até 2012, mais de 130 bilhões de reais foram arrecadados das empresas exploradoras de petróleo, e a parte do leão dessa montanha de dinheiro ficou com o Rio e seus municípios. Agora, com as perdas trazidas pela mudança na lei dos royalties, o governador se vinga atirando nos cidadãos do seu próprio estado: suspendeu pagamentos a fornecedores, ameaça criar mais impostos, fala em corte de serviços. Se não guardou nada do que recebeu, o que fez de útil com o dinheiro gasto?

O que há de comum entre essa gente toda é a convicção de que mandam — e quem manda não precisa explicar nada a quem está embaixo. Falam em banda larga e pré-sal, mas continuam agindo como se vivessem no Brasil dos engenhos, dos capitães do mato e da chibata. São os senhores do “Brasil para todos”.

Perfeito. Mas não custa acrescentar a pergunta de que Lula foge há quase quatro meses: quando é que o ex-presidente vai tentar explicar-se sobre o escândalo em que se meteu ao lado da gatuna Rosemary Noronha?

17/03/2013

domingo, 4 de novembro de 2012

Chegou a hora de esclarecer de vez o assassinato do prefeito Celso Daniel






Por Augusto Nunes
“Os executores de Celso Daniel começaram a ser castigados.

Chegou a hora de identificar e punir os mandantes do assassinato”, informa o título do post de 18 de novembro de de 2010.

Passados dois anos, as ameaças de Marcos Valério exigem a republicação do texto.

Ao escapar da merecidíssima punição pela quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, o ex-ministro Antonio Palocci inventou o estupro sem estuprador.

Quase 11 anos depois da morte do prefeito de Santo André, gente que se acha muito esperta continua tentando inventar o crime encomendado sem mandante.

Com o silencioso aval da oposição e o endosso explícito do governo, o PT decidiu que o assassinato de Celso Daniel foi um crime comum. Esqueceram de combinar com a imprensa, que continuou investigando o caso, com a família da vítima, que desafiou as pressões dos interessados em enterrar a história, e sobretudo com o Ministério Público, comprovou em novembro de 2010 o julgamento de Marcos Roberto Bispo dos Santos no foro de Itapecerica da Serra.

O promotor Francisco Cembranelli provou que o crime foi político e acusou o réu de participação no sequestro seguido de assassinato encomendado pela quadrilha de políticos corruptos que agia na prefeitura de Santo André.

Os jurados avalizaram a argumentação de Cembranelli e condenaram Bispo dos Santos, foragido, a 18 anos de reclusão em regime fechado. O Ministério Público não está sob o controle do Executivo, reiteraram o destemor e a objetividade de Cembranelli.

Não são poucos os brasileiros capazes de enxergar as coisas como as coisas são, reafirmou a decisão do júri. E ainda há juízes no Brasil, mostrou Antonio Augusto Galvão de França Hristov, que determinou a duração do castigo imposto ao homicida.

O país que presta espera que seja só o começo. Bispo dos Santos foi o motorista de um dos dois carros mobilizados para a captura de Celso Daniel. Faltam os outros integrantes da milícia formada por assassinos de aluguel. E faltam os mandantes.

Por enquanto, o único formalmente acusado de figurar entre os autores da encomenda é Sérgio Gomes da Silva, vulgo Sombra, ex-assessor e segurança do prefeito executado, que aguarda o julgamento em liberdade.

Em janeiro de 2002, os supostos amigos voltavam do jantar num restaurante em São Paulo quando ─ segundo o relato de Sombra ─ um grupo de bandidos interceptou o carro blindado que dirigia e arrancou Celso Daniel do banco ao lado.

Horas depois, o corpo foi encontrado numa estrada de terra no município de Itapecerica da Serra, desfigurado por marcas de tortura e inúmeras perfurações a bala.

O depoimento de Sombra na delegacia deixou intrigada a mais crédula das carmelitas descalças. Ele diz que não tentou escapar porque o câmbio hidramático emperrou. O fabricante do veículo desmontou a versão malandra.

Nem o depoente nem os policiais que o interrogaram decifraram outro enigma: por que os sequestradores permitiram que uma testemunha ocular sobrevivesse ─ e para contar uma história muito mal contada?

Por que Sombra e Celso Daniel, por exemplo, não permaneceram no interior do carro blindado?

Como foi destravada a porta do passageiro, que só poderia abrir por dentro?

Por que Sombra não pediu socorro assim que os bandidos se afastaram?

Se aquilo não passara de um assalto, por que nenhum dinheiro, nada de valioso foi levado?

Por que Celso Daniel foi torturado antes da morte?

O que os torturadores desejavam saber?

O que procuravam?

Logo se juntaram as peças do mosaico. Na segunda metade dos anos 90, empresários da área de transportes e pelo menos um secretário municipal, todos vinculados ao PT, haviam forjado em Santo André o embrião do esquema do mensalão.

Recorrendo a extorsões ou desvios de dinheiro público, a quadrilha infiltrada na administração municipal garantia parte da gastança com as campanhas do partido.

A multiplicação das boladas aguçou a cobiça de alguns quadrilheiros, que começaram a embolsar quantias de bom tamanho.

Escolhido para o papel de coordenador da candidatura de Lula na disputa presidencial de 2002, Celso Daniel achou melhor desativar o esquema criminoso. Foi punido com a morte.

Em julho de 2005, a TV Bandeirantes divulgou o escabroso conteúdo de conversas telefônicas entre Sombra, Gilberto Carvalho, secretário particular de Lula, e o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, encarregado pelo PT de impedir que as investigações avançassem.

Feitas por solicitação do Ministério Público, as gravações pilharam o trio em tratativas destinadas a enterrar a história de vez.

Na hipótese menos inquietante, comprovam que Altos Companheiros tentaram obstruir a ação da polícia e da Justiça quando o cadáver do prefeito de Santo André ainda esfriava na sepultura.

Numa das fitas, Gilberto Carvalho procura amainar a inquietação de Sombra. “Marcamos às três horas na casa do José Dirceu”, informa o secretário do presidente da República.

“Vamos conversar um pouco sobre nossa tática da semana, né?

Porque nós temos que ir para a contra-ofensiva”.

A voz de Sombra revela que o suspeito ficou menos intranquilo ao saber da movimentação fraternal.

“Vou falar com meus advogados amanhã, nossa ideia é colocar essa investigação sob suspeição”.

Carvalho concorda com a manobra: “Acho que é um bom caminho”.

Em outra conversa, a inquietação de Sombra fora berrada ao parceiro Klinger Oliveira, secretário de Assuntos Municipais de Santo André.

“Fala com o Gilberto aí, tem que armar alguma coisa!”, exalta-se o último companheiro a ver o prefeito vivo.

“Só quero que as coisas sejam resolvidas!”

Além do nervosismo de Sombra, causava preocupação à equipe especializada em socorrer suspeitos o comportamento do médico João Francisco Daniel, irmão do assassinado.

Como o caçula Bruno, João Francisco sempre afirmou que Celso se condenou à morte ao resolver desmontar a máquina de fazer dinheiro que ajudara a instalar nos porões da prefeitura.

Ao notar que fora longe demais, Celso contou ao irmão que decidira entregar a dirigentes do PT um dossiê que detalhava as patifarias.

E transformou o irmão numa testemunha de alto risco para os padrinhos de Sombra.

Como neutralizar o homem-bomba?

A interrogação aquece uma das conversas entre Gilberto Carvalho e Greenhalgh.

“Está chegando a hora do João Francisco ir depor!”, alerta o advogado do PT.

“Antes do depoimento preciso falar com você para ele não destilar ressentimentos lá!”.

Gilberto se alarma com o perigo iminente.

“Pelo amor de Deus, isso vai ser fundamental! Tem que preparar bem isso aí, cara, porque esse cara vai… Tudo bem”.

Os donos das vozes nas fitas recitam desde 2002 que houve um crime comum.

Se foi assim, por que tirou o sono de tantos figurões da política brasileira?

O promotor Francisco Cembranelli provou que Celso Daniel foi vítima de uma conspiração tramada por bandidos vinculados ao PT de Santo André e consumada por um grupo de matadores profissionais.

O Brasil quer ver esclarecidas tanto a eliminação de Celso Daniel quanto a sequência de mortes misteriosas que silenciou oito testemunhas.

E quer ver na cadeia todos os culpados ─ incluídos os mandantes. As gravações podem ajudar a identificá-los.

As conversas entre Sombra, Greenhalgh e Carvalho não se limitam a escancarar uma mobilização política.

Documentam a movimentação de comparsas.

Crimes que envolvem muita gente sempre são esclarecidos.

Até Marcos Valério acabou entrando na história.

Chegou a hora de esclarecer de vez o caso insepulto.

04/11/2012

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Eis o homem de Gilberto Carvalho, a sua “pérola”. Se ele ganhar, diz o ministro, Dilma manda dinheiro; se perder, a presidente vai punir o povo!


 
Gilberto Carvalho (à dir.) e Kiko, a sua “pérola”: ministro faz chantagem eleitoral usando o nome da presidente. Se continua no cargo…

Por Reinaldo Azevedo

A presidente Dilma Rousseff tem investido na imagem da governante sóbria, que gosta de se portar como magistrada — aliás, é esse o seu papel institucional, como chefe de um Poder — e não se mete em rinhas eleitorais. Atuou para que o PT tivesse um candidato próprio à Prefeitura em Belo Horizonte e fez movimentos para garantir sustentação a Fernando Haddad em São Paulo. Até aí, vá lá. Entendi que são ações que se encaixam no perfil de quem é, também, filiada a um partido político. O que não pode é imitar seu antecessor nos defeitos e mobilizar o estado a serviço de interesses partidários. Por essa razão, deveria chamar o senhor Gilberto Carvalho, o braço operativo de Luiz Inácio Lula da Silva em seu governo, e lhe entregar a carta de demissão. Não o fará, sei disso. E, ao não fazê-lo, falseia a imagem que tenta plasmar de governante equidistante das disputas eleitorais.

Reportagem publicada ontem pela Folha demonstra por que o Brasil ainda está longe de ser uma república corriqueiramente democrática, dessas em que os cidadãos e, sobretudo, os homens públicos defendem e cumprem as leis. No último dia 19, informa o jornal, Carvalho participou do comício do candidato do PT à Prefeitura de Franco da Rocha, o Kiko.

O ministro parece ter por Kiko uma admiração irrestrita.
O ministro parece ter por Kiko um entusiasmo grande mesmo!
O ministro parece ter por Kiko frêmitos de devoção.
Se Kiko ganhar, Gilberto Carvalho promete fazer como o imperador Adriano (o romano, não o da Vila Cruzeiro…) e lhe erguer uma cidade! Quem sabe imite aquele governante e até lhe dedique alguns versos…

Mas o que disse Carvalho? Informa a Folha:
“Se hoje o investimento que a cidade consegue fazer é de R$ 5 milhões ao ano [R$ 20 milhões em quatro anos], eu quero garantir que, com Kiko prefeito, com a nossa parceria, faremos nestes quatro anos um investimento de pelo menos R$ 100 milhões”.
E aí Carvalho ameaçou os eleitores da cidade:
“Se Kiko for eleito prefeito de Franco da Rocha, a presidenta Dilma terá confiança de enviar para cá todos os recursos que nós precisamos para transformar efetivamente esta cidade”.

Entenderam? Se o Kiko não for eleito, deve-se entender que Dilma vai deixar a população chupando o dedo. Quem estava a dizer essa enormidade? Ora, aquele que é nada menos do que secretário-geral da Presidência da República e um dos dois homens verdadeiramente fortes no PT — vocês sabem quem é o outro.

NA HIERARQUIA INFORMAL DO PARTIDO, CARVALHO É QUE É CHEFE DE DILMA, NÃO O CONTRÁRIO.
O ministro citou a presidente três vezes no discurso: “Não adianta a gente ter uma presidenta tão forte, tão eficiente como a Dilma [Rousseff], e ter gestores fracos, corrompidos”. E PENSAR QUE O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL FAZ O MAIOR JULGAMENTO DA SUA HISTÓRIA E TEM COMO RÉUS JUSTAMENTE A CÚPULA DO PETISMO! Abordo em outro post (sobre o Distrito Federal) a competência do PT para governar e os efeitos da parceria com o governo federal…

A fala de Carvalho é indecorosa. Se age desse modo para eleger o prefeito de Franco da Rocha, a gente pode imaginar do que não é capaz essa turma para fazer valer a sua vontade. A propósito: ninguém precisa imaginar nada! Sabemos, sim, até onde pode chegar, como provam os escândalos do mensalão, dos aloprados e da violação de sigilo e feitura de dossiês.

Nunca soube se comportar
Gilberto Carvalho nunca soube se comportar. Boa parte dos jornalistas o trata com lhaneza porque ele é mestre em produzir embargos e fofocas auriculares. Gosta de bater papinhos informais com colunistas, quando se comporta como eficaz hortelão. Invariavelmente, e todos sabem disso, é para atingir governos e figuras da oposição. Lembro que foi este senhor que tentou armar, lá de Brasília, a “resistência” à desocupação da área conhecida como Pinheirinho, em São Paulo. Um assessor seu chegou a se dizer atingido por uma bala de borracha, mas se negou a fazer exame de corpo de delito. Ações de policiais militares em estados governados por PT e aliados cegaram três pessoas naquele mesmo período. Carvalho não disse um “a”. Não é um homem de estado. É um petista aparelhando o estado a serviço de seu partido — e de sua corrente dentro desse partido.

Em Franco da Rocha, como resta claro, falou em nome de Dilma Rousseff. Para defender a sua “pérola”, não hesitou em exercitar claramente a linguagem da chantagem.

Imaginem se um enviado do governador Geraldo Alckmin repetisse discurso parecido em alguma cidade do interior de São Paulo: “Se Fulano ganhar, o governador manda mais dinheiro pra cá; se não ganhar…”. O mundo viria abaixo.

Sim, senhores! A tarefa do Supremo Tribunal Federal é mesmo gigantesca. “O que tem uma coisa a ver com outra, Reinaldo?” Ou os ministros que têm vergonha na cara, e espero que seja a expressiva maioria, dizem que essa gente não pode fazer o que lhe dá na telha, ao arrepio da lei, ou o país vai mesmo à breca porque entenderá que a sujeira passa a ser admitida como parte do jogo. Se assim é lá em cima, por que não poderia ser cá embaixo?

Se Dilma não desmentir Gilberto Carvalho, então se deve entender que ele falou mesmo em nome dela.

Então se deve entender que ela regulará os investimentos federais nas cidades a depender de quem seja o prefeito. Dada essa perspectiva, só petistas deveriam ser eleitos para o bem dos munícipes país afora.

O mensalão demonstra o tamanho da competência e da honorabilidade dessa gente.

E também prova a sua dedicação à causa do povo.


 29/08/2012


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Por que Gilberto Carvalho ficou tão feliz com o desempenho da viúva militante, que reservou a Sombra a compaixão e a ternura negadas ao marido assassinado?




 
Por Augusto Nunes

Às 23 horas de 17 de janeiro de 2002, depois de assistirem a um filme na TV, Ivone Santana e Celso Daniel foram dormir juntos pela última vez. Na noite seguinte, a socióloga de 38 anos soube que o homem a quem estava ligada afetivamente desde 1996 fora sequestrado ao voltar de um restaurante em São Paulo na Pajero blindada dirigida por Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, ex-segurança, ex-assessor e empresário. Ela jura que passou o dia 19 à espera do pedido de resgate. Em 20 de janeiro, o cadáver do prefeito de Santo André foi encontrado numa estrada de terra. Além de 11 perfurações a bala, a autópsia encontrou numerosas evidências de que, antes de executá-lo, os assassinos haviam submetido Celso Daniel a sessões de tortura.

Surpreendida por tamanha tragédia, uma viúva de Nelson Rodrigues atravessaria o velório assombrando os presentes com saltos ornamentais sobre o caixão, berreiros de acordar qualquer defunto, imprecações tremendas contra culpados ou inocentes ─ e colecionaria desmaios sucessivos até a missa de 30° dia. Mesmo a mais contida das mulheres não demoraria menos de um mês para recordar o que ocorrera sem que a emoção interrompesse o relato de cinco em cinco minutos. O caso Celso Daniel precipitou a aparição de outra maravilha da fauna do PT: a viúva militante. Essa mutação não sabe o que é luto. Discorre sobre uma perda recentíssima com a placidez de quem narra um torneio de golfe. E precisa de apenas uma semana para preencher uma página de jornal com palavrórios abjetos na forma e suspeitíssimos no conteúdo.

Ela chorou duas vezes, garante o repórter que assina a entrevista publicada pela Folha de S. Paulo em 28 de janeiro de 2002. Pode ter sido algum cisco no olho, sugerem as respostas. O crime poderia ter tido motivações políticas?, começa a conversa. “O Celso não possuía inimigos políticos que pudessem chegar ao ponto de sequestrá-lo e matá-lo”, encerra o assunto a depoente sem dúvidas. “Foi um crime urbano”. Nessa hipótese, por que Sombra foi poupado pelos bandidos? “O Sérgio é moreno”, ensina, deixando claro que prefere o prenome ao apelido revelador. E decola rumo à estratosfera: “Nosso racismo cordial deve ter falado mais alto, e os caras acharam melhor pegar o Celso”. Tradução: o erro do prefeito foi ter nascido branco.

Por que os sequestradores não pediram resgate? “Os caras foram atrás porque acharam que era um empresário com grana. Mas aí descobriram que pegaram o sujeito errado. Com todo aquele cerco, aquele barulho da imprensa, os caras devem ter se apavorado e achado que não podiam ficar com ele, que tinham de se livrar dele”. Não viu nada de estranho no comportamento de Sombra, primeiro colocado no ranking dos suspeitos? “Delírio puro”, irrita-se Ivone. “Celso saiu para jantar com um amigo, que é da família. Não foi o prefeito que saiu para jantar com um empresário. Será que as pessoas não entendem a diferença? Conheço Sérgio desde 1988. É um amigo”. O entrevistador lembra que peritos haviam desmontado a versão de que a Pajero fora imobilizada por defeitos mecânicos. “Se o carro é da Mitsubishi e chamam um sujeito da Mitsubishi para dar pareceres…”, retruca Ivone. “Tenha dó, não é?”

A doçura do tratamento dispensado ao possível mandante do crime contrasta com a ausência de alusões carinhosas ao assassinado. Como Miriam Belchior, que viveu 10 anos com Celso Daniel, Ivone Santana negou-lhe até mesmo palavras compassivas. O prefeito que ocuparia na campanha de Lula o posto que acabou confiado a Antonio Palocci não foi chorado pelas duas companheiras. Somadas, as lágrimas da dupla de viúvas não bastam para encher três tampinhas de garrafa de cerveja.

Se não tivesse batido em retirada, Gilberto Carvalho teria de caçar explicações, na segunda metade da entrevista, tanto para o espetáculo da frieza protagonizado por Miriam e Ivone quanto para outras interrogações agrupadas nos tópicos seguintes:

1. Numa das conversas registradas em 42 fitas, um interlocutor não identificado cumprimenta Ivone Santana pela entrevista concedida à Folha e a estimula a aceitar o convite para brilhar no programa de Hebe Camargo. Por que parecia conveniente ao grupo a exposição de uma mulher afetada por um drama recentíssimo? Em outro diálogo por telefone com Ivone, Gilberto Carvalho diz que a entrevista “pode mudar o rumo das investigações”. Ivone foi festejada pelo que disse, pelo que deixou de dizer ou por ambas as coisas? Sobre as investigações, que rumo deveria ser alterado? Que direção deveria tomar o inquérito?

2. Numa das fitas que desapareceram, Luiz Eduardo Greenhalgh, em tom zombeteiro, elogia a competência de Miriam Belchior no papel de viúva. Se havia papéis, houve um script. Qual era? E que desfecho previa?

3. Em nenhuma gravação as viúvas ouvem palavras de consolo ou solidariedade. Não ficaram abaladas com o episódio? Por que nenhum dos participantes das conversas se mostra indignado com o assassinato? Por que ninguém exige a identificação e a condenação dos responsáveis? Por que ninguém lamenta a perda do companheiro já escolhido para ocupar, na campanha de Lula, o posto que acabou confiado a Antonio Palocci?

4. Gilberto Carvalho assumiu a secretaria de Comunicação da prefeitura de Santo André em 1997 e era secretário de Governo em janeiro de 2001. Nunca ouviu comentários sobre a existência de um esquema de arrecadação de dinheiro sujo para financiar campanhas do PT?

5. Em março de 2003, em São Bernardo, Lula ouviu de Mara Gabrilli, filha de um empresário do setor de transportes, um relato circunstanciado sobre as pressões movidas contra a Expresso Guarará pelo grupo de que faziam parte o secretário de Serviços Municipais, Klinger de Oliveira, o empresário Ronan Maria Pinto, hoje dono do Diário do Grande ABC, e por Sombra. No dia do encontro entre Lula e Mara, Gilberto Carvalho já era secretário-particular de Lula. O que o chefe lhe contou? Acreditou no que ouvira? Tentou confirmar as denúncias?

6. Em 2005, Rosângela Gabrilli, irmã de Mara, reiterou as acusações na CPI dos Bingos e provou, com documentos, que a empresa de seu pai foi obrigada meses a fio a entregar à quadrilha R$ 40 mil mensais, em dinheiro vivo, repassados imediatamente ao caixa 2 do PT. Por que Gilberto Carvalho jamais se manifestou sobre o depoimento de Rosângela?

7. Em 2010, Marcos Bispo dos Santos, acusado pelo Ministério Público de integrar o grupo de oito executores, foi condenado a 18 anos de prisão. Durante o julgamento, o promotor Francisco Cembranelli endossou a tese do crime político. Gilberto Carvalho achou incorreta a argumentação do promotor? Considerou injusta a decisão do tribunal do júri?

8. Sérgio Gomes da Silva, que ficou preso oito meses, será julgado ainda neste ano por um corpo de jurados. Gilberto Carvalho está disposto a depor como testemunha de defesa?

É improvável que se arrisque a tanto. Desde a descoberta das gravações, o sacristão de cordão carnavalesco guarda distância também dos antigos parceiros de Santo André. Acampado no Planalto, terá de reaprender orações esquecidas e rezar para que Sombra, caso se sinta em perigo, não resolva afundar atirando. Se optar pelo abraço do afogado, o réu contará o caso como o caso foi. Na segunda metade dos anos 90, empresários da área de transportes e pelo menos um secretário municipal, todos vinculados ao PT, forjaram na prefeitura de Santo André o embrião do esquema do mensalão. Recorrendo a extorsões, a quadrilha infiltrada na administração municipal ajudou a patrocinar a gastança eleitoral do partido. Ao saber que parte das boladas começara a ser desviada para os contas bancárias dos delinquentes, Celso Daniel resolveu impedir que os ladrões lesassem o PT. Foi punido com a morte.

Na entrevista que não houve, ficaria claro que Gilberto Carvalho e seus comparsas conspiraram para impedir o prosseguimento de investigações que inevitavelmente levariam às catacumbas da roubalheira. Decididos a manter o partido vivo, consumaram a segunda morte de Celso Daniel. Tentam assassinar a verdade desde 2002. Não conseguirão.

07/02/2012


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Governantes fazem de conta que são obrigados a nos tolerar; é o contrário: nós é que os toleramos




G
ilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, homem dado a juízos um tanto inusitados — imaginem: ele é até cristão e marxista ao mesmo tempo, que é, assim, como ser um corintiano palmeirense ou um flamenguista vascaíno… —, afirmou que a presidente Dilma Rousseff quer decidir com calma o que vai fazer no Ministério do Esporte, sem se deixar influenciar pela “histeria” da mídia. Ai, ai…
Que coisa, né, gente?

O Brasil precisa se livrar logo dessa “mídia” que fica apontado os malfeitos dos homens públicos e escolher logo os malfeitores.

Essa imprensa que fica denunciando corrupção é muito histérica.
Boa é aquela que se dedica ao elogio cotidiano do governo, financiada com dinheiro público.

Cristina Kirchner, a candidata a Hugo Chávez de saias, está tentando resolver isso à sua maneira.

Eu entendo Carvalho: não fosse a “histeria” da mídia, mensaleiros, aloprados, vagabundos que fabricam dossiês, ladrões do Dnit, do turismo, dos esportes, dda agricultura…

Toda essa gente, em suma, estaria por aí, dando a sua contribuição ao Brasil.


Os governantes fazem de conta, às vezes, que são eles que nos toleram por bondade. Não! É o contrário: é sempre o povo que tolera o governo. O Estado é que é fruto de uma concessão da sociedade, não o contrário.

A razão é óbvia: nós trabalhamos para que eles gastem.

Governos não geram dinheiro.

Nós garantimos o circo.

O palhaço tem de trabalhar a sério.


De resto, quem quer punir ladrão não é histérico; é apenas uma pessoa séria.

Do contrário, ou se é ladrão também ou se é amigo de ladrões.

Alguém consegue imaginar uma categoria intermediária?


24/10/2011

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O bando de testemunhas de defesa merece ser incluído entre as provas contra Palocci

Emudecido pela descoberta do milagre da multiplicação do patrimônio, que fez de um médico sanitarista o mais próspero especialista em operações de emergência, Antonio Palocci está completando nesta segunda-feira oito dias de estrepitoso silêncio. Não precisou dar um pio para ser absolvido pela Comissão de Ética Pública da Presidência da República. Bastaram explicações por escrito. Não precisou sequer telefonar para congressistas para conseguir a solidariedade da base alugada (e de oposicionistas estrelados). Bastou o recado do assessor Thomaz Traumann lembrando que o chefe fez o que meio mundo faz.

A cada 15 anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos 15 anos anteriores, constatou o jornalista Ivan Lessa. Esse prazo valia para o século passado. Neste, ficou bem mais curto. As coisas andam mais velozes. Falta espaço no noticiário e na memória dos brasileiros para armazenar por muito tempo tantos escândalos, roubalheiras, pilantragens e sem-vergonhices envolvendo corruptos poderosos. Hoje, nos cálculos do governo, o país esquece a cada 15 dias o que aconteceu nos 15 dias anteriores.

Foi esse o prazo estabelecido pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, para que o chefe da Casa Civil apresente as explicações solicitadas pelo DEM e pelo PPS. Ambos estão justificadamente intrigados com o assombroso surto de enriquecimento que acometeu o ministro, e que se tornou especialmente agudo depois da vitória de Dilma Rousseff. Até aí, nada demais, apressou-se a esclarecer Gurgel antes mesmo de repassar a Palocci as interrogações formuladas pelos partidos. “Exercício de consultoria não é crime”, pontificou. (Em princípio, não é crime exercer ofício nenhum, desde que o profissional não se valha dos instrumentos de trabalho para cometer delinquências).

“O procurador-geral só atua nas encrencas mesmo, só atua quando há crime”, enfatizou. “A prestação de consultoria pode ser reprovável em aspectos éticos, mas, em princípio, não constitui crime e, se não constitui crime, não justifica a atuação do Ministério Público”. Não é conversa de quem espera explicações para decidir o que fará, com a seriedade que se exige do chefe de uma das raras instituições respeitáveis do país. É conversa de quem espera que passem com mais rapidez as duas semanas que precedem o esquecimento.

A montanha de indícios veementes berra que Gurgel só não vê nada de estranho porque foi contaminado pela miopia conveniente que grassa no Planalto. Em 2006, o governo enxergou uma “movimentação financeira atípica” num depósito de R$ 35 mil na conta do caseiro Francenildo Costa. Em novembro e dezembro de 2010, Palocci movimentou pelo menos R$ 10 milhões ─ 285 vezes mais que Francenildo. O dinheiro que o consultor embolsou equivale a 18.348 salários mínimos. É suficiente para comprar 416 carros populares.O que fez Palocci em troca dessas quantias de espantar banqueiro americano? As autoridades financeiras taparam as narinas para o fortíssimo odor de tráfico de influência. E o procurador-geral não avistou nenhum sinal de “encrenca mesmo”.

Em países sérios, aliás, o Ministério Público nem precisaria dessas cifras estarrecedoras para entrar em ação. Bastaria a contemplação do cortejo de aliados dispostos a atestar “a lisura”, “o excelente caráter” ou “a integridade” do suspeito. Entre outros destaques, desfilaram em homenagem a Palocci figuras como Paulo Maluf, José Sarney, Romero Jucá, Renan Calheiros, Luiz Gushiken, Miriam Belchior, Ideli Salvatti, Gilberto Carvalho, Rui Falcão, Cândido Vaccarezza e Edison Lobão. Caso a história acabasse num tribunal, todos poderiam ser arrolados como testemunhas de defesa. Se comparecessem juntos à mesma audiência e tropeçassem num homem da lei, dificilmente escapariam de um processo por formação de quadrilha ou bando. Quem é absolvido por uma turma dessas fez mais que o suficiente para ser condenado.

O governo acredita que faltam seis dias para que expire o prazo de validade do escândalo. Pode descobrir que o país ficou menos desmemoriado e que os descontentes são mais numerosos do que imagina. É improvável que Palocci consiga escapar pelo atalho da mudez. A hora das explicações chegará. Se for convincente, merece o Ministério da Fazenda: esse é o lugar de quem consegue ficar milionário em quatro anos com uma empresa de um homem só. Se continuar mentindo, será devolvido à planície de onde nunca deveria ter saído.

23/05/2011