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sábado, 13 de março de 2010

A FIGURA DE LULA SE DESMANCHA NO MUNDO. OU: DE ESQUERDAS CARNÍVORAS E HERBÍVORAS

A FIGURA DE LULA SE DESMANCHA NO MUNDO. OU: DE ESQUERDAS CARNÍVORAS E HERBÍVORAS


Preparados para um viagem um tanto longa?

Acho que vocês vão gostar.

Há um poema do português Mário de Sá-Carneiro, contemporâneo de Fernando Pessoa, de que gosto muito. Chama-se "Quase".

Nada tem de político.

Trata-se de uma abordagem puramente existencial, intimista e pessimista da vida. Sentei-me aqui para escrever, ainda enojado com os disparates que Lula disse sobre os presos políticos cubanos, e uma estrofe de "Quase" veio à minha lembrança:

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…


Lembrar de Sá-Carneiro ao abordar as opiniões políticas de Lula?

É que sou fascinado por aquela metáfora da "política como construção civil", de Elio Gspari: aquele negócio de "andar de cima/andar de baixo"… É eu pensar em Lula, e logo corro para o "andar de cima"… da civilização.

É como se eu me refugiasse num aparelho clandestino, entendem?, impermeável à boçalidade do petismo; onde não posso ouvir o silêncio miserável da esquerda acadêmica, que fechou o bico diante da fala politicamente criminosa de seu líder, de seu Tirano de Siracusa que hoje anda de braços dados com outros reis-filósofos, como José Sarney e Fernando Collor.



Durante alguns anos, a despeito de todas as evidências em contrário, chegou-se a pensar que Lula era realmente uma liderança surgida no antigo Terceiro Mundo, no "andar de baixo" (na acepção gaspariana) das nações, pronta a reler a realidade.

Ele falaria em nome de todos os princípios universais da democracia, mas obrigaria os ricos a rever suas contradições e a fazer concessões aos mais pobres, que então fortaleceriam a democracia etc.

As coisas não paravam por aí. A retórica de Lula tinha lá seus laivos de antiamericanismo, de esquerdismo chulo, mas seria só uma concessão que ele fazia ao atraso; na prática, tratava-se uma liderança alternativa à boçalidade de um Hugo Chávez, por exemplo. Não, não esqueci do "Quase".

Vão acompanhando…

Passado

Lula falava, sim, em nome do "andar de baixo", mas não na acepção gaspariana, e sim na reinaldiana: o andar de baixo da civilização!



Aqui sempre se disse que Lula não é o líder de uma ditadura de modelo chavista PORQUE NÃO PODE, PORQUE AS INSTITUIÇÕES NÃO DEIXAM.

Se pudesse, seria.

E onde estava aberta a vereda para a delinqüência política a mais escancarada?

Na política externa.

Aquela que venho tratando a porrete desde 2003 — durante uns bons cinco anos, fui voz quase isolada na imprensa. Celso Amorim chegou a ser escolhido pelos meus colegas jornalistas "o melhor ministro" de Lula…
Procurem na Internet para ver.

Um postezinho de 2006


Quando Lula foi reeleito, escrevi aqui em 31 de outubro de 2006 o que segue em azul:

terça-feira, 31 de outubro de 2006 | 16:21

O ditador venezuelano Hugo Chávez parabenizou Lula pela vitória. Até aí, tudo bem.

George Bush, presidente dos EUA, fez o mesmo.

A diferença está nos termos. "Ofereceremos aplausos a Lula e parabenizamos o povo do Brasil pela sábia decisão de reeleger, com outros 60% de votos, este grande irmão, amigo, companheiro socialista e líder operário.

Aqui se dizia que estava por vir a Era da Área de Livre Comércio da América, mas hoje ocorre o oposto. Como disse Lula ontem à noite, agora ninguém mais fala sobre a Alca, apenas no Mercosul e na união do sul.

A Venezuela está no coração desse projeto, com Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai e outros países, cada vez mais, para integrar a América Latina e o Caribe".
As polianas de plantão, como sempre, vão dizer que isso é pura retórica; que Chávez está pegando carona na vitória de Lula.

Com efeito, o bufão não tem uma presença popular, reconhecida, no Brasil.

Mas é óbvio que ele lidera hoje o grupo acima.

O efeito prático dessa liderança já se fez sentir na tungada que a Petrobrás levou na Bolívia. Essa palhaçada de dizer que o Brasil e a Venezuela impediram a Alca é de chorar.

Os EUA não querem mais saber da área de livre comércio. Preferem os acordos bilaterais.

Aliás, é por meio de um deles que compra o petróleo venezuelano, enchendo os cofres do ditador de dólares para que ele continue a financiar o proselitismo antiamericano.

Mercosul?

Comunidade Sul-Americana?

Trata-se hoje de duas ficções. Fez-se a opção preferencial pelo atraso. É Lula de novo, com a culpa do povo.

Qualquer mané no Brasil é antiamericano desde criacinha.
É uma manifestação do complexo de vira-lata transformado em altivez.

Nas classes médias, esse sentimento é ainda mais forte. Na sessão em que eu estava, aplaudiram Fahrenheit 11 de Setembro, do delinqüente intelectual Michael Moore. Tive de sair correndo para tomar um café - ou vomitaria no corredor.

Chávez está certo. A eleição de Lula foi mesmo uma vitória do seu grupo. Mas o Departamento de Estado dos EUA não percebe isso. O governo republicano consegue entender menos o que acontece na América Latina do que o democrata, de Bill Clinton.
Isso tem uma explicação:
ninguém no mundo dá bola para nós.

Sob certo aspecto, a África acaba sendo mais importante, ainda que infinitamente mais pobre.

Estamos condenados.

Voltei
Agora volto ao poema.

"Quase", senhores!

Quase surge uma liderança latino-americana com capacidade para sacudir o cenário mundial. Mas não foi desta vez. Não foi porque Lula não poderia negar a sua própria natureza.

Como aponta o intelectual cubano Carlos Alberto Montaner em artigo publicado hoje no Estadão, a imagem internacional de Lula está se desmanchando.

Afinal, ele não pode negar a sua própria natureza.

Montaner aponta o óbvio: quando caiu o Muro de Berlim, Lula e Fidel Castro sentiram a necessidade de criar uma alternativa para as ditaduras de esquerda e suas organizações criminosas. E fundaram o Fórum de São Paulo — cuja existência a imprensa brasileira se negava a admitir.

Para Lula ser o líder do "andar de baixo" na acepção gaspariana, faltou um "golpe d'asas".

E esse "golpe d'asas" se chama "democracia".


Lula e o PT jamais a reconheceram, de fato, como um valor universal. Ontem como agora, sua adesão aos pressupostos democráticos é não mais do que tática.

Se, no ambiente interno, o "líder" é obrigado a se manter nos limites institucionais — embora não se conforme com eles, como deixou claro ontem à noite de novo, ao atacar a imprensa —, no externo, pôde aplicar sem receio as suas convicções mais profundas.

E isso significa colocar-se ao lado de toda e qualquer ditadura — sem exceção — que seja considerada, de algum modo, hostil aos EUA.
Engano

Muita gente boa se enganou, mesmo os críticos mais duros. Até mesmo Montaner. Ele chegou a fazer uma distinção entre o que seria a "esquerda carnívora" da América Latina — Chávez, Evo Morales, Rafael Correa — e a "vegetariana": Lula.

Nos dias 13 de janeiro e 18 de dezembro do ANO RETRASADO, escrevi aqui que essa distinção era uma bobagem. Vale a pena recuperar os textos. Vocês terão a impressão de que eu estava escrevendo sobre o Lula que acaba de comparar os dissidentes cubanos a bandidos.

Não, caras e caros, não lembro estes textos para bater no peito: "Viram? Sempre estive certo?"

Faço-o para demonstrar que a leitura que eu e alguns poucos fizemos de Lula não estava amparada num jogo de impressões; não se deixava seduzir por seu discurso.

Era uma leitura informada pela teoria política, coisa de que o jornalismo se esqueceu.

Os perfeitos idiotas - Herbívoros e carnívoros


quinta-feira, 18 de dezembro de 2008 | 5:37

Conheço o complexo de hotéis da Costa do Sauípe, na Bahia, onde se deu a tal Cúpula da América Latina e do Caribe. Há áreas com extensos gramados. Depois será preciso verificar o estado das gramíneas.

É possível que boa parte tenha sido consumida até a terra nua.

As palavras "perfeito idiota" que abrem o título deste post estão no livro "Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano", de Álvaro Vargas Llosa (filho do romancista peruano), Plinio Apuleyo Mendonza e Carlos Alberto Montaner.

No Brasil, foi publicado há 11 anos, antes ainda da tal "onda vermelha" na América Latina.

Trata-se de uma crítica severa às esquerdas do continente, que centravam a sua política no ataque "ao imperialismo" - com forte sotaque, como não poderia deixar de ser, antiamericano.

Pois é… Boa parte delas chegou ao poder.

E agora explico a referência à grama.

Llosa chegou a criar uma distinção entre as esquerdas latino-americanas: haveria a "carnívora", como a dos irmãos homicidas Fidel e Raúl Castro e do bandoleiro Hugo Chávez, e a "vegetariana", do Estimado Apedeuta, entre outros.



Jorge Castañeda, intelectual mexicano, ex-esquerdista, hoje moderado (ajudou Vicente Fox a derrotar o PRI no México e foi seu chanceler), também vê as diferenças entre a "boa" e a "má" esquerdas latino-americanas.

Lamento.

Tanto o conservador como o ex-esquerdista estão errados neste particular. E, no dia 13 de janeiro, expliquei por quê.
*
Esquerda vegetariana?

Data venia, isso não passa de besteira. Até porque a esquerda lulista, se for o caso, deve ser chamada de "herbívora". E do tipo ruminante.



A diferença não é ideológica ou de essência. A diferença está na história. Explico-me.

Os "carnívoros" de Llosa - ou "esquerda má", na definição de Castañeda - chegaram ao poder à esteira de severas crises institucionais em seus respectivos países.

A "esquerda boa" (dita "vegetariana") assumiu o poder num quadro de estabilidade institucional. Foi assim com Bachelet, no Chile, e com Lula no Brasil.

Para ficar no exemplo doméstico, note-se que Lula não é Chávez porque não pode, não porque não queira.

Quem o impede são as instituições fortalecidas, que herdou de FHC e que não conseguiu, embora tenha tentado, enfraquecer.

Basta lembrar quantas vezes essa gente tentou botar canga na imprensa. Observe-se, também, que Lula tem sido, sim, um aliado incondicional - INCONDICIONAL, repito - de Hugo Chávez e Evo Morales.

No ambiente internacional, a agenda brasileira é, sem tirar nem pôr, a da esquerda.

O que estou dizendo é que essas diferenças a que aludem tanto Castañeda como Llosa são absolutamente irrelevantes. Lula leva o desprestígio das instituições, no Brasil, até onde é possível levar. Se mais não faz, é porque mais não pode.

Tirania cubana




Pois é… Vejam que a "esquerda vegetariana" - NA VERDADE, HERBÍVORA - acaba de incluir Cuba na tal Cúpula da América Latina e do Caribe (CALC).

E que exigência se fez àquela tirania?

Nenhuma!
Ao contrário: Raúl Castro, com 95 mil mortos nas costas, foi tratado como herói e resistente. Sob o comando de Lula, o encontro pediu o fim do embargo americano à ilha (irrelevante, insisto, para a miséria em que vive o povo). E, de novo, sem quaisquer condicionantes.

Castañeda e Llosa não se davam conta, então, que a dita esquerda "vegetariana" (herbívora) era só uma espécie de veículo da esquerda "carnívora".

Alguém poderia perguntar: "Mas que mal tem isso, Reinaldo?" O avanço de regimes que flertam abertamente com a ditadura, como se dá na Venezuela, no Equador e na Bolívia, e a admissão de uma ditadura descarada no grupo dos países respeitáveis - segundo Lula, essa foi a maior conquista da reunião na Costa do Sauípe.

A confusão é gigantesca. Alexei Barrionuevo, do The New York Times, escreve sobre a cúpula: "Apesar de toda a popularidade do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, aliado dos EUA, o Brasil não conseguiu impedir os líderes de celebrar a inclusão do presidente cubano, Raúl Castro, nesse encontro.

Lula também não pôde impedir que os outros presidentes aproveitassem a ocasião para atacar os Estados Unidos e a Europa por seu papel na crise econômica global, que também afeta a região."

Viram só?

Barrionuevo, coitado!, não entendeu nada.

Em primeiro lugar, não sei por que a popularidade de Lula teria alguma interferência numa reunião de chefes de estado.

Em segundo, notem que, para ele, o brasileiro estaria algo contrariado com a "celebração" a Raúl Castro e com os discursos antiamericanos.


Epa! Calma lá!

Ele foi o chefe da torcida - não tão caricato quanto um Chávez ou um Evo Morales. Mas é fato que pôs o indiscutível peso do Brasil na região a serviço de um discurso jurássico.

Ou como ler o que publica hoje o Estadão?

"Lula afirmou ontem no encerramento da CALC que, para enfrentar a crise financeira internacional, os países da região devem reforçar a intervenção do Estado na economia. Lula também recomendou que as economias regionais evitem optar pelo ajuste fiscal. "O Estado, que não valia nada, passou a ser o salvador da pátria", afirmou Lula, referindo-se às medidas adotadas pelos países desenvolvidos e por nações latino-americanas, que vêm investindo dinheiro do governo em bancos privados e no setor produtivo."

Num daqueles momentos em que a sua retórica assombra o mundo, o brasileiro mandou ver:

"Éramos um continente de surdos, que não nos enxergávamos"
.

Não entendi se a cegueira se juntava à surdez ou se o Apedeuta citava, indiretamente, Elias Canetti e prometia escrever o seu "Uma Luz em Meu Ouvido"…



Mais compatível com a reunião, lembrei-me também da figura dos três macaquinhos, mas com uma diferença: a América Latina até podia tapar os olhos e os ouvidos, ser cega e surda, mas tinha e tem uma língua imensa, fala pelos cotovelos - e sempre culpando terceiros pelos seus próprios desastres.

Sei…

Há muita gente entusiasmada com tudo isso etc e tal.

Bom divertimento.

Da formidável jornada de Lula no que pretendem seja a nova política externa brasileira, já podemos colher alguns resultados.

Quando o Apedeuta assumiu, o país respondia por 1,1% do comércio mundial. Antes da crise, já estava em 1,1%… Antes de ele assumir, o Brasil guardava prudente distância de ditadores de qualquer viés. Hoje em dia, avançamos muito: já aprendemos a tratar bem os ditadores e candidatos a tanto.

Um avanço espetacular.


Ontem, a Câmara aprovou o ingresso da Venezuela no Mercosul - que também TINHA a "democracia" como critério de inclusão (e de exclusão). Ora, Lula já afirmou que o país do bandoleiro é democrático até demais…

Quem disse que não pode haver harmonia entre herbívoros e carnívoros?

De volta a 12 de março de 2010

É por isso que vocês gostam de ler este blog.

É por isso que eu gosto de fazê-lo.

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