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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Estes são os candidatos a ditadores da “mídia alternativa”


Ou:
Imprensa presta servilismo ético e estético a autoritários disfarçados de libertários


Por Reinaldo Azevedo

Vejam estas fotos.




Este rapaz que aparece ao lado de José Dirceu, Dilma Rousseff e Fernando Haddad é Pablo Capilé. Na terceira foto, a seu lado, está Bruno Torturra. Ambos são as principais referências da chamada “Mídia Ninja”. Os dois são os entrevistados de hoje do programa “Roda Viva”. Volto ao ponto mais tarde. Sigamos.

Prometi, no post anterior, que falaria um tantinho sobre o papel da imprensa, que certa delinquência chama da “mídia tradicional”, nos protestos de rua. E é o que passo a fazer agora. De maneira geral, os veículos de comunicação decidiram competir com a Internet, aderindo à estética, quando não à ética, dessa tal “Mídia Ninja”, um grupo que pode ser acusado de tudo, menos de ser ideologicamente neutro e de fazer jornalismo. Essa gente realiza uma suposta cobertura jornalística a partir de um ponto de vista: o dos manifestantes. Tente encontrar um só vídeo ou uma só abordagem que não caracterizem os manifestantes como anunciadores de uma nova era e os policiais como brucutus a serviço da repressão. Não há! Além da ideologia, há razões que poderíamos chamar, de algum modo, “de mercado”. A “Mídia Ninja” não quer trair o seu público… A palavra “NINJA” é uma sigla: significa “Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação”. Independente de quem ou do quê? As companhias frequentes parecem falar por si.

Não existe, de fato, isenção absoluta — não na boa imprensa ao menos, aquela que, ao longo dos anos, contribuiu para criar as sociedades mais democráticas e mais abertas do planeta. Mais do que contribuir: ela foi e tem sido um dos seus pilares.

Essa boa imprensa de que falo se torna ainda melhor a partir, justamente, do ponto em que deixa de ser isenta para assumir um lado. Qual lado? O dos valores democráticos! Isto mesmo: nas sociedades livres, o jornalismo não está comprometido apenas com a isenção no relato das partes em conflito. A depender dos atores, a depender do objeto que esteja em disputa, a depender da contenda, assumir um lado é um imperativo ético.

Que isenção pode haver, por exemplo, entre a ordem democrática e um grupo que tente solapá-la por intermédio de ações terroristas?. Ser “isento”, nesse caso, corresponde a uma forma covarde e não-assumida de alinhamento com o terrorismo. Peguemos o caso dos sedizentes anarquistas que estão nas ruas, que dizem atacar a propriedade privada como forma de ataque ao capitalismo. A imprensa que os vigaristas chamam “tradicional” estará cometendo algum adernamento condenável se defender, de maneira clara e inequívoca, a propriedade privada? Parece-me que não. Quando menos porque não se inventou ainda um sistema de liberdades públicas que não tivesse a defesa da dita-cuja como um de seus pilares.

Parece-me evidente que cumpre, sim, em respeito aos fundamentos da Constituição Brasileira, que tem um compromisso com os direitos fundamentais do homem, criticar a truculência e os exageros da Polícia. Mas calma lá! Há uma diferença enorme entre cobrar que essa polícia se comporte segundo as regras e simplesmente declarar, ainda que por vias oblíquas, como se tem feito, a sua ilegitimidade. E é, infelizmente, o que se vem verificando mesmo naqueles setores da imprensa cuja RAZÃO DE SER é a defesa da ordem democrática. Recorre-se a um sem-número de truques — não cabe outra palavra — que transformam em pacifistas os teóricos da violência e numa horda de truculentos os que detêm o monopólio do uso legítimo da força.

Ocorre, meus caros, que foram necessários alguns séculos até que esse monopólio pudesse ser garantido pela ordem democrática e regulamentado por leis. Não é coisa que se possa jogar fora assim, do nada, de repente. Sem isso, estamos de volta ao estado da natureza.

Por que é assim? Porque a imprensa está sob uma patrulha como nunca houve. A multiplicação de meios para vender versões nunca foi tão grande — e vai se expandir cada vez mais. É evidente que haverá na rede tantas versões interessadas quantos forem os manifestantes como uma câmera na mão e algumas ideias (ou titicas) na cabeça. As tais “mídias ninjas” das ruas estão tentando convencer alguns incautos de que eles são, sim, parte “dessa luta”, mas com isenção suficiente para passar uma versão crível dos fatos. Mentira! Então me digam onde estão as narrativas produzidas por essa gente que façam a apologia da ordem. De qual ordem? Da ordem fascista? Não! Da ordem do estado democrático e de direito. Não há!

Não estou aqui a acusar esses valentes de tentar usurpar um espaço que não lhes pertence. O seu papel é tentar ganhar adeptos. Não há nem mesmo ineditismo nisso. A dita imprensa alternativa é muito mais antiga do que essa gente. Não é a primeira vez que verdades parciais tentam se vender como o bem universal. Estou aqui a indagar — e dirijo a minha questão não a esses que se querem os arautos da nova ordem (mero papo-furado), mas àquela dita imprensa tradicional — é que “alternativa” é essa de que falam. Recoloco a questão: com quais valores?

Oficialismo de segunda geração

De que alternativa se cuida? Antes que responda, uma pequena digressão.

Vocês conhecem aquelas pessoas estranhas que se intitulam, como é mesmo?, adversárias do “Partido da Imprensa Golpista”. Já as classifiquei aqui de JEG (Jornalismo da Esgotosfera Governista). Esses caras, uns sem-vergonhas, vivem às custas do dinheiro público, especialmente das estatais, e se alinham escancaradamente com o PT. Os que têm ainda menos vergonha do que eles são petistas na esfera federal e podem ser tucanos, peemedebistas ou outra coisa qualquer nos Estados e capitais. Quem paga leva os elogios. Quem resiste ao achaque vira alvo. Fiquei sabendo que o negociador que falava em nome de certo governante gravou a conversa em que foi vítima da abordagem delinquente. Cedeu, mas gravou. Paga religiosamente a bolsa-elogio, mas guarda a prova para o caso de a relação azedar. Bandido não confia em bandido. É da tradição. Esses grandes moralistas se querem uma “alternativa” à dita “imprensa tradicional”. Faz parte da boa tradição do jornalismo deixar que o departamento comercial cuide do caixa. A redação é que cuida das notícias. Foi assim que a democracia avançou.

Muito bem. Leio no Globo que a tal “Mídia Ninja” já está de olho em financiamento público. Caso se investigue a rede de interesses a que essa gente está ligada, o capilé oficial já se faz presente por intermédio da ONG Fora do Eixo, que traz o logo oficial da Lei Rouanet. Reproduzo, em azul, trecho da excelente reportagem de Chico Otávio. Volto depois.

A reunião patinava, sem que os presentes se entendessem sobre o uso ou não de recursos públicos, até que um homem barbudo, de blusa molhada, interrompeu o recinto para anunciar: “Invadimos a Câmara Municipal!” Uma explosão de vivas e aplausos tirou o terceiro encontro da Mídia Ninja (de Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação) no campus da UFRJ, na Praia Vermelha, da encruzilhada do impasse.

A novidade, ao ser anunciada na primeira pessoa do plural, seria um escândalo em qualquer redação. Mais ou menos como se um repórter de Política soltasse um “ganhamos a eleição” ou o colega de Esportes festejasse um gol com algo como “vencemos o clássico”. Para os ninjas, porém, não há campo neutro. O movimento que saiu às ruas do país, registrando as manifestações de protesto com transmissões ao vivo, de celulares com acesso 3G (internet de alta velocidade), não esconde seu lado: “Fazemos uma cobertura ao vivo, em tempo real, chapa quente. Nossos atos de jornalismo são multifacetados, parciais, com impressões e avaliações de cada um”, sintetiza Pablo Capilé.

Oficialmente, a Mídia Ninja não tem uma voz de comando. Mas era para Capilé, um mato-grossense de 32 anos que considera o australiano Julian Assange, criador do WikiLeaks, a versão moderna de Jimmy Hendrix, que a atenção dos 80 ninjas presentes à reunião de quarta-feira estava voltada. Fundador da ONG paulista “Fora do Eixo”, de onde saiu a estrutura e a inspiração para o grupo, ele se valia da popularidade conquistada nas transmissões ao vivo para convencer os militantes da necessidade de disputar as verbas federais destinadas à área de Comunicação. Sua defesa, recheada de termos como “midia-livrismo”, “hackear”, “downloadear” e “espraiar”, não foi suficiente para remover desconfianças.

Polêmica entrevista com Paes

Com celulares que mobilizam manifestantes, os ninjas ecoam as vozes das ruas e caçam P2 (agentes secretos da Polícia Militar) nos protestos. Entendem-se como jornalistas. Porém, ao executar suas “pautas” com a paixão de um ativista, confundem-se com os personagens de suas histórias.

Em campo, aproximam seus celulares da ponta do nariz dos policiais e exigem deles respostas sobre o desfecho da manifestação, por exemplo. Quem assiste pela web sente que eles, muitas vezes, provocam a notícia — em vez de apenas revelá-la.

(…)

Retomo

É evidente que isso pode ser qualquer coisa — jornalismo não é. Jornalistas não comemoram invasão de prédios públicos, ainda que, intimamente, possam concordar com ela e até vibrar. Isenção e neutralidade absolutas, reitero, não existem porque, numa democracia, a imprensa livre é um dos esteios da democracia e está comprometida com os seus valores.

Não estou aqui a escrever um texto para tentar demonstrar que o tal Capilé e o tal Torturra não são lá de confiança… Cada um faça o juízo que achar melhor. Meu ponto, reitero, é outro: estou, isto sim, a afirmar que a ética e a estética perturbadas dessa gente estão contaminando o jornalismo que tem compromisso com os fatos, não com a militância; que tem compromisso — ou deveria ter — com os valores de uma sociedade democrática, não com a imposição da vontade de de um pequeno grupo na base do berro.

De volta ao Roda Viva

Mas lá estão os dois representantes da Mídia Ninja numa emissora pública de TV, que é expressão, salvo melhor juízo, daquele estado democrático que os tais ninjas não reconhecem — ou não comemorariam invasões…

As companhias do sr. Capilé, como se pode ver lá no alto, são bastante eloquentes, não é mesmo? Parece que a sua suposta independência se encaixa melhor no figurino petista.

Mas estará hoje no Roda Viva. Vamos ver se assistiremos a uma entrevista de fato. O seu companheiro de programa é o notório Torturra. Já é um conhecido de vocês. Ele ficou encarregado do Twitter quando o entrevistado era o médico Ronaldo Laranjeira, que coordena o programa do governo de São Paulo contra o crack. Torturra é simpatizante do grupo “Existe Amor em SP”, que ganhou um cargo na gestão do petista Fernando Haddad na Prefeitura de São Paulo. Enquanto o entrevistado defendia seus pontos de vista, o tuiteiro o difamava. Agora o rapaz ocupa o centro da roda…

Capilé tem, com efeito, algumas ideias muito interessantes sobre o que é mídia alternativa e coisa e tal. Vejam este textinho singelo postado no Facebook.



A exemplo de Lula e da turma do Foro de São Paulo, ele acha que o Brasil tem o que aprender com os bolivarianos da Venezuela.

Isso é que é ser… alternativo!

05/08/2013

Faz sentido...





Sob o signo da estupidez. Ou: Trata-se de escolher se vamos dizer “sim” ou “não” à violência





Num mundo em que triunfassem os valores dele, você seria mais livre ou menos?

Por Reinaldo Azevedo

            
Sabem os leitores que, desde as primeiras manifestações, quando ainda conduzidas pela meia dúzia de gatos-pingados do Movimento Passe Livre (o queridinho de alguns anarquistas velhuscos da “mídia tradicional”), repudio os atos de violência. Com a ajuda da imprensa — sim, a dita “tradicional” (existe alguma outra?), criou-se a farsa de que o confronto das ruas se dava entre manifestantes essencialmente pacíficos e uma polícia essencialmente violenta. Não se atentava, e não se atenta ainda, para o óbvio: impedir, ao bel-prazer dos donos do espaço público, o livre direito de ir e vir viola um direito constitucional. Pode parecer um direito besta, irrelevante, mas ele é o resultado de alguns séculos de luta em favor de prerrogativas individuais. Num estado democrático e de direito, a ágora é terra de todos; na barbárie, é terra de ninguém.
O Estadão de domingo traz uma reportagem de Bruno Paes Manso intitulada “Black Blocks já se articulam em 23 Estados do País”, vazada numa abordagem, como posso dizer?, benigna, para dizer pouco, com o movimento que faz a apologia da violência.
Embora se dê de barato que, para a turma, a “violência é uma intervenção simbólica que atinge o cerne do capitalismo: a propriedade privada”, não há a menor sombra de reprovação — ao contrário até — de tal escolha. Alguém poderia dizer: “A função do jornalismo não é julgar, mas apenas retratar…”.

É? Isso vale também para outros crimes (como corrupção, por exemplo), ou essa suposta neutralidade só é considerada obrigatória no caso dos ataques à “propriedade privada”? Deve-se, assim, supor que, a partir de agora, também para o Estadão, “toda propriedade é um roubo”?
Paes Manso resolveu ouvir “especialistas” nessa tática de violência. E aí nos damos conta da miséria intelectual que toma conta também da academia. Leiam isto:

“Muitos dos jovens que estão usando essa estratégia da violência nas manifestações vieram das periferias brasileiras. Eles já são vítimas da violência cotidiana por parte do Estado e por isso os protestos violentos passam a fazer sentido para eles”.


A afirmação e do professor Rafael Alcadipani Silveira, que é coordenador de pesquisas organizacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Segundo informa o texto, ele acompanha as discussões virtuais dos anarquistas e esteve nos últimos protestos.
Cadê os dados? Cadê os presos que violaram uma penca de leis? Cadê os estudos sobre o perfil de tais “jovens”? Ao contrário do que ele diz, os que ganharam alguma visibilidade são estudantes de classe média, que não precisam nem mesmo trabalhar para ganhar a vida. Podem depredar a propriedade alheia porque pais abastados se encarregam de cuidar de seu futuro patrimônio.
Outro “estudioso” ouvido por Manso é um notório extremista de esquerda chamado Pablo Ortellado. Já escrevi sobre ele neste blog. Uma rápida pesquisa na Internet dirá quem é o valente. Reproduzo mais um trecho da reportagem (em vermelho):
“Depois de Seattle, os movimentos sociais passaram a aceitar a violência como uma das estratégias políticas e a debater abertamente a questão”, explica o filósofo Pablo Ortellado, coautor do livro Estamos Vencendo! (Conrad), sobre os movimentos autonomistas no Brasil. Além da estratégia dos Black Blocs, há nos movimentos globais as ações lúdicas e festivas (chamadas de Pink Blocs), estratégias no Brasil representadas pelas Paradas Gays, Marchas da Maconha e das Vadias, e as pacifistas (White Blocs).
Notem que, então, a diferença entre o pacifismo e a violência não é de convicção; será ditada apenas pela necessidade. Assim, entende-se que os “pobres da periferia” do professor Alcadipani são participantes do “movimento global” do professor Ortellado… Ou Manso não encontrou ou não teve tempo de falar com “especialistas” que criticam a violência…

E por que não?
Porque a imprensa brasileira — com raras exceções —, na ânsia de competir com grupelhos da Internet, deixou que as redações fossem ocupadas NÃO PELO JORNALISMO, MAS PELA MILITÂNCIA POLÍTICA. Isso se verificou especialmente nas TVs, que pareciam tomadas por uma horda de adolescentes arruaceiros.
Conservadores equivocados


Muitos liberais e muitos conservadores se deixaram e se deixam ainda trair pelo que vai nas ruas. Por quê? Porque também o governo Dilma e as gestões petistas foram tragados pela voragem. A questão que sempre me pareceu pertinente — e que segue mais relevante do que nunca — é esta: esse movimento em favor, como direi?, da superação do petismo se dá pela esquerda ou pela direita? Essa pressão se exerce em favor de mais eficiência, de mais ordem e de um uso mais racional dos recursos, ou se dá em prejuízo da ordem democrática, dos canais institucionais de representação e da racionalidade mais comezinha? A resposta me parece óbvia.
Sei que o que vou dizer agora marcha na contramão do confortável descontentamento difuso “contra tudo o que está aí”, mas precisa ser dito. Apesar da sem-vergonhice que vigora no Brasil, a despeito de toda roubalheira, mesmo com uma das piores elites políticas do planeta, o fato é que, ora vejam!, os dados sobre mortalidade infantil e expectativa de vida recentemente divulgados indicam que o Brasil avançou bastante. “Mas não é o suficiente!” Ora, é claro que não é! Mas certamente não foi a anarquia que nos conduziu até aqui.
Eu quero conhecer a base de dados do professor Rafael Alcadipani Silveira — do tal Ortellado, nada me interessa porque eu o considero só um prosélito vulgar. Leio em seu currículo que Silveira ensina “disciplinas relacionadas com estudos organizacionais, métodos de pesquisa e perspectivas críticas em análise das organizações em cursos de graduação, mestrado, doutorado e educação executiva”. Parece ser coisa séria.

Suponho que tenha um sólido banco de informações demonstrando que são mesmo os pobres que estão botando pra quebrar nas ruas.
Meu currículo perto do dele é de dar pena. Por isso, humildemente, aguardo a sua pesquisa. Até onde acompanho — analiso comportamentos, fragmentos de significação como roupa, estilo, pele e até os dentes dos manifestantes (é um método mais próximo de Nelson Rodrigues) —, não só não há pobres nas manifestações como estes não estão quebrando é nada. O movimento Passe Livre tentou, por exemplo, organizar protestos na periferia de São Paulo.

Deu-se mal. Compareceram apenas algumas dezenas de manifestantes — a maioria oriunda de bairros ricos, que não tinham a menor noção do que era periferia. Imaginem se a Rocinha ou o Complexo do Alemão, no Rio, decidirem descer para o asfalto… Não dá para chamar de “povo” os vermelhos do Leblon, Copacabana e Ipanema, né?
A mesma lógica do terror

Atenção! Ainda que fosse verdade — e não é! — que os vândalos que estão nas ruas apenas reagem a um histórico de violências de que teriam sido vítimas, cumpriria indagar: deveria, por isso, a sociedade aceitar essa forma de expressão política (notem que nem me refiro a, sei lá, “método de solução de conflitos”)?

A resposta, claro!, é negativa. Essa é, sem tirar nem pôr, a lógica que justifica o terrorismo: recorre-se, então, à violência indiscriminada porque, de algum modo, os potenciais alvos da barbárie seriam os verdadeiros responsáveis pelos males que passam a afligi-los.
Os black blocs e outros são mesmo “anarquistas”, como informa a reportagem de Manso, e atacam a propriedade privada porque julgam que, assim, estão a fragilizar o capitalismo? De que anarquismo se cuida? Alguma referência teórica há de haver.

São partidários, por exemplo, de Bakunin ou apenas se aproveitam de um momento em que a imprensa, temerosa de perder a batalha para a informalidade da Internet, decidiu aderir à onda demencial, demonizando os fundamentos da ordem democrática, de que fazem parte, sim, as polícias?
Notem que as Polícias Militares do Brasil inteiro estão inermes. A chamada mídia tradicional resolveu dar as mãos à tal “Mídia Ninja” — como ninguém se alimenta de maná, é o caso de saber quem financia essa gente — e passou a selecionar, de maneira meticulosa, imagens que caracterizam os policiais como truculentos, violentos, autoritários etc. Já aqueles que, de modo deliberado, vão para as ruas para quebrar e para impor a sua vontade na porrada surgem como anunciadores de uma nova ordem.
Assim, tanto a “mídia tradicional” como aquela que se quer alternativa passam a ser cúmplices e promotoras, voluntárias ou não, da violência. Por que aquela gente está de rosto coberto? Por que não pode expor a cara no estado democrático e de direito? A resposta é óbvia: porque está ocupando o espaço público para, deliberadamente, impor a sua vontade por intermédio da pancadaria. O nome disso é banditismo.
Pessoas eventualmente flagradas quebrando o que encontram pela frente são detidas pela polícia e postas em liberdade em seguida — afinal, estavam, como é mesmo?, apenas combatendo o capitalismo por intermédio da agressão “à propriedade privada”. E, como a gente pode ler, o Ministério Público e as Defensorias Públicas logo se mobilizam para pôr na rua esses partidários da truculência.

A impunidade conduz à reincidência e convida outros a agir de igual modo. Assim, a violência passa a ser admitida como uma forma aceitável e eficiente de expressão de uma contrariedade.
Caminhando para a conclusão

Vou caminhando para a conclusão deste texto, mas volto ao assunto. O papel da dita “imprensa tradicional” precisa ser visto com mais cuidado. O jornalismo, meus caros, tem obrigações que vão muito além da isenção, palavra que também requer algumas considerações.
Entre a depredação da ordem democrática e essa própria ordem, a isenção se chama “flerte com o terror” — quando não se trata mesmo de uma forma velada de apologia da barbárie.

Metrô de SP: vazamento de informações do caso confirma ação ilegal do Cade em prol do PT

Golpe baixo



Advogado que é, o ministro José Eduardo Martins Cardozo, da Justiça, está colocando a perder a reputação da escola onde estudou Direito, se é que o fez com o devido afinco. Que políticos são tendenciosos todos sabem, mas Cardozo abusa da leviandade ao defender a atuação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) no caso do Metrô de São Paulo, que por enquanto está na fase investigatória. E sob investigação está a possível formação de cartel, não um eventual superfaturamento.

Tomar como certo e definitivo o depoimento do presidente da Siemens, que isoladamente afirma que o governo paulista concordou com a formação de cartel, prova que o Palácio do Planalto age de forma irresponsável, apenas e tão somente para salvar o combalido Partido dos Trabalhadores, que caiu na areia movediça da própria incompetência.

O PT transformou o governo federal em instrumento partidário e com ele faz o que bem entende, não importando o que determina a legislação. Sob a presidência de Vinícius Marques de Carvalho, sobrinho do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, o Cade tem vazado para a imprensa, de forma seletiva e sistemática, assuntos relacionados ao caso que ainda estão sendo investigados.

O PT enfrenta uma grave e profunda crise política, turbinada pela crise econômica, o que explica esse jogo rasteiro e imundo, preâmbulo do plano de tomar de assalto o governo do mais importante estado brasileiro, São Paulo. O objetivo dessas ações criminosas, previamente estudadas, é fazer com que o PSDB, principal adversário político da quadrilha em se transformou o PT, caia em desgraça junto à opinião pública.

Se a Polícia Federal chegar à conclusão de que houve formação de cartel, o máximo que se pode afirmar é que o estado de São Paulo é vítima. Porém, caso a PF prove que existiu superfaturamento, que os culpados sejam punidos com o rigor da lei, sem qualquer privilégio a qualquer dos responsáveis. Até lá, o vazamento de informações sobre o caso é banditismo político.

A estratégia petista é tão sórdida e desleal, que os tucanos de São Paulo já são considerados culpados em um caso que ainda está sob investigação, enquanto os mensaleiros são inocentes, mesmo depois de condenados pelo Supremo Tribunal Federal.

Parcialidade quadrilheira

Não é novidade o conjunto de armações com a chancela do PT para derrubar adversários políticos. O caso da investigação do Metrô de São Paulo, que passa pelo de Brasília apenas para dar um ar de veracidade ao jogo imundo, pode ser lançado ao vento como sendo a maior de todas as verdades, ao passo que o escândalo envolvendo Carlinhos Cachoeira e Fernando Cavendish, dono da Delta Construção, foi devidamente abafado para poupar Lula e Dilma de um escândalo sem precedentes.

Essa falsa retidão que move o PT, até então ignorada pela população por causa da pirotecnia palaciana, faz com que o Brasil avance diariamente na direção de uma ditadura comunista disfarçada, nos moldes da existente na Venezuela e que levou o vizinho país à decadência, a ponto de enfrentar um apagão de papel higiênico.

É preciso que os brasileiros fiquem atentos, pois casos como o do Metrô paulistano deve surgir aos montes até as eleições de 2014, até porque é a única saída que o PT encontrou para escapar de uma crise corrosiva que não dá trégua à legenda um só segundo.

Obsessão por superfaturamento

Encontrar o que não existe tornou-se uma das expertises do Partido dos Trabalhadores, somente quando na alça de mira estão os adversários. Então deputado federal pelo PT paulista, José Eduardo Martins Cardozo (atual ministro da Justiça) assumiu, em 2005, a sub-relatoria de contratos da CPMI dos Correios, que investigou o Mensalão.

À época, cumprindo ordens superiores para identificar em meio aos documentos eventuais escândalos que pudessem livrar o PT do furacão, Cardozo decidiu criar caso com os contratos entre as empresas aéreas de carga e os Correios.

Sem se valer da capacidade interpretativa de qualquer advogado minimamente competente, José Eduardo Cardozo insistiu na tese de que os aviões que transportavam a carga dos Correios deveriam ser remunerados pelo peso transportado. Uma visão propositalmente obtusa, pois uma aeronave fica à disposição dos Correios o tempo todo, sem poder carregar nenhuma mercadoria alheia à empresa. Ou seja, não importa se a aeronave, a mando dos Correios, carrega dois parafusos ou um trator, pois o valor cobrado pelo transporte será idêntico. Para que fique mais claro e compreensível, é o mesmo que contratar uma festa para mil pessoas e ao final querer pagar menos do que o combinado porque apenas cem convidados compareceram.

Isonomia deveria prevalecer

Quando o assunto é corrupção ou qualquer outro delito correlato, a postura do Estado deve ser firme e única, independentemente do partido ou corrente ideológica do investigado. Não importa se PT ou PSDB, ou qualquer das muitas legendas existentes no País, ninguém pode ficar impune ou ser condenado por causa de interesses escusos de governantes.

No Brasil atual, a grande questão é que petistas quando flagrados em alguma transgressão acionam a cantilena do golpe das elites, como se os próprios não fossem elitistas com todas as letras. No contraponto, quando um adversário é acusado de alguma irregularidade, o mundo desaba para favorecer o PT, partido que está anos-luz da possibilidade de ser um amontoado de monges.

Encarando a verdade

Os políticos brasileiros precisam deixar de lado o falso moralismo e a hipocrisia, porque os custos de qualquer campanha eleitoral superam o bom senso e remetem a inevitáveis casos de corrupção. E não há na política nacional quem desconheça essa realidade.

Uma campanha presidencial com chance de vitória não sai por menos de US$ 400 milhões, que equivale a R$ 900 milhões. Ninguém despeja uma fortuna dessas em qualquer campanha por patriotismo ou caridade. Quem o faz exigirá, em algum momento, a devida contrapartida, que muitas vezes torna-se viável por meio do superfaturamento.

Há alguns mais afoitos e endinheirados que embarcam em duas campanhas, sempre as mais importantes e com chances de vitória. Não importa quem vença, a contrapartida a ser paga mais adiante será dobrada para compensar o dinheiro investido na campanha derrotada.
05/08/2013

A agonia de Cuba



EDITORIAL

O Estado de S.Paulo

Por mais que se diga que houve avanços e mudanças importantes nos últimos tempos, Cuba continua a ser Cuba.

Meio século de feroz ditadura comunista deveria ser suficiente para acabar com qualquer ilusão de flexibilização voluntária de um regime como o dos irmãos Castro.

Somente os incautos, ou aqueles que ainda nutrem simpatias ideológicas por uma tirania que um dia foi apresentada como a "libertação da América Latina", são capazes de ver, na "transição" promovida por Raúl Castro, sinais de avanço democrático e de racionalidade econômica.

Cuba é, na verdade, um país que agoniza, e as "mudanças" nada mais são do que uma demão de tinta na carcomida muralha erguida para esconder as verdadeiras condições dessa Ilha da Fantasia.

Enquanto os gerontocratas castristas vão encenando sua farsa, milhares de cubanos abandonaram o país nos últimos tempos, no maior êxodo em 20 anos.

Dados do Escritório Nacional de Estatística e Informação de Cuba, publicados pelo jornal O Globo (1/8), indicam que 46.662 cubanos saíram definitivamente do país somente no ano passado.

É o maior número desde a chamada "crise dos balseros" de 1994, quando Fidel Castro abriu as fronteiras de Cuba para revidar as medidas tomadas pelo governo americano contra a entrada de imigrantes ilegais cubanos.

Na ocasião, cerca de 47 mil cubanos fugiram para os Estados Unidos, a maioria em frágeis balsas improvisadas.

O movimento verificado agora, no entanto, é cada vez menos atípico. Segundo o próprio órgão cubano, 39 mil cidadãos deixaram anualmente o país, em média, nos últimos cinco anos, fluxo que só encontra paralelo com os primeiros anos da revolução - com exceção de 1980, quando mais de 140 mil cubanos fugiram para os Estados Unidos em meio a uma grave crise econômica.



Um dos motivos para o aumento do êxodo é a redução das restrições de viagens para os cubanos.

Agora, se tiverem dinheiro e visto de entrada no país de destino, os cubanos podem ficar até 24 meses no exterior sem necessidade de permissão de saída - e os Estados Unidos, após negociação com Cuba, anunciaram que a vigência do visto de turista para cubanos foi estendida de seis meses para cinco anos.

Essas novidades, no entanto, não atenuam o fato de que Cuba segue sendo uma ditadura e, portanto, cidadãos cubanos cuja presença na ilha seja considerada de "interesse nacional" continuam sem poder emigrar.

É a maneira castrista de impedir a fuga de cérebros ou a saída de dissidentes.

O movimento migratório, no entanto, parece irresistível, acentuando uma crise demográfica que ameaça o futuro imediato da ilha. A maior parte dos migrantes dos últimos anos é formada por jovens, segundo sugere o próprio escritório cubano de estatísticas, conforme publicou o jornal oficial Granma.

Com eufemismos característicos das ditaduras, o órgão alerta para o acelerado envelhecimento da população, causado, entre outros fatores, pelo incremento da "migração externa", ressaltando que a "maior tendência" é o êxodo "entre os jovens".

O governo cubano, diz o Granma, estima que essa situação irá perdurar ao menos até 2020, com consequências dramáticas.

No atual ritmo, em 20 anos Cuba terá 31% de sua população com mais de 60 anos, tornando-se o país mais envelhecido da América Latina, algo que trará problemas adicionais para a pobre economia da ilha, principalmente em relação à Previdência e à saúde.

O crescimento da população cubana no ano passado foi negativo em 1,5%, graças a uma importante redução da taxa de fecundidade, queda que tende a se acentuar com a crescente falta de jovens no país.

Enquanto isso, o ditador Raúl Castro tenta seduzir os jovens dizendo que, um dia, o poder será deles, para "manter no alto as bandeiras da revolução e o socialismo".

O problema é que os jovens a que Raúl se refere estão deixando Cuba aos milhares, ano após ano, justamente porque não suportam mais viver a mentira do "paraíso socialista", que encobre a falta de liberdade e a ruína econômica.


05 de agosto de 2013

O caso Siemens à luz de Kafka. Ou: O vídeo em que o Carvalho do Cade se mostra muito grato ao Carvalho de Lula. Ou ainda: Teoria conspiratória uma ova!




Por Reinaldo Azevedo

“Por que não fala sobre a Siemens?”, esgoela-se a petralhada. E logo vem a suposição, que a súcia pretende seja uma resposta: “Só porque, desta vez, envolve o PSDB?”.

Ora, ora… Os tucanos, e com razão, são sempre os primeiros a negar o parentesco entre o que eles pensam e o que eu penso. Já afirmei aqui umas 300 vezes, e posso repetir outras tantas, que — para fazer uma blague influente, nestes dias — o PSDB não me representa.

Mas votarei, sim, em Geraldo Alckmin em 2014 — e não vejo por que alguém deva supor algo diferente disso. Ou me imaginam escolhendo, deixem-me ver, Alexandre Padilha, do PT, ou Paulo Skaf, do PMDB?

Falo, sim, sobre o caso Siemens, um troço que guarda mais parentesco com uma novela de Kafka do que com um processo conduzido num país em que vige um estado democrático e de direito.

Vamos ver.

Se alguém cometeu alguma safadeza nas licitações do metrô, que seja punido. Por que haveria de ser diferente?

Mas é evidente que não dá para ignorar os absurdos que envolvem essa denúncia.

Vejamos.


O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), uma autarquia subordinada ao Ministério da Justiça — cujo titular é o notório José Eduardo Cardozo —, conduz uma, atenção!, “INVESTIGAÇÃO PRELIMINAR” para apurar se houve uma espécie de formação de cartel, com combinação de preços, que teria resultado em prejuízos aos cofres do estado — fala-se de irregularidades em São Paulo e no Distrito Federal.

Primeira dúvida: nos demais estados, a Siemens agiria de modo diferente? Por quê? E quando negocia com o governo federal?

Adiante.

Ficamos sabendo que existe o chamado “Acordo de Leniência”, por meio do qual executivos da Siemens — a empresa nega que seja a fonte de informação — teriam revelado as irregularidades, sustentando que o governo de São Paulo (no caso, o de Mário Covas) teria ciência das irregularidades, compactuando com elas.

Contratos renovados nos governos seguintes carregariam, então, o mal de origem. Essas informações, ou suposições, vieram a público em reportagens da Folha e do Estadão.
Notem que, obviamente, não estou aqui a negar que tenha havido safadeza. Como poderia? Não conheço o processo. Não tenho os dados em mãos.

Ocorre que há uma coisa espantosa: o governo de São Paulo, o principal interessado nessa história, também não tem. Assim, o ente “governo do estado” está sendo acusado na imprensa de ter compactuado com uma tramoia, mas — e eis o dado kafkiano — não tem acesso à investigação porque, afinal de contas, ela está resguardada pelo sigilo de Justiça.

Então vamos ver se a gente consegue entender direito: jornalistas, como resta evidente, tiveram acesso a pelo menos parte da investigação que está no Cade. O principal acusado, no entanto, está a chupar o dedo.

NÃO TEM COMO SE DEFENDER PORQUE NÃO SABE DIREITO DO QUE É ACUSADO. A justificativa do Cade é que o papelório está protegido por sigilo de Justiça.

Leio na Folha:

“O procurador-geral do Estado de São Paulo, Elival da Silva Ramos, disse que a lei permite ao CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) fornecer à administração paulista documentos da investigação sobre a suposta formação de cartel em licitações de trens em São Paulo, independentemente de autorização judicial.

O CADE, órgão federal de combate às práticas empresariais prejudiciais à livre concorrência, sustenta que só pode fornecer os papéis após decisão da Justiça. Segundo Ramos, a recusa de entrega de dados atrasa eventuais ações de reparação de danos a serem iniciadas pelo Estado caso haja provas de conluio nas concorrências.

A Procuradoria-Geral do Estado, órgão responsável pela defesa jurídica do Executivo paulista, afirma que foi obrigada a preparar um mandado de segurança para pedir ao Judiciário o acesso às informações da investigação.”


Retomo


Não se trata de exercitar teoria conspiratória, não! Estamos diante de uma matéria de fato. Há uma investigação preliminar no Cade; dados dessa apuração chegam à imprensa em tom acusatório — com um genérico “o governo sabia de tudo” —, mas não se sabe que “tudo” é esse, quais as pessoas envolvidas e que irregularidade foi cometida.

Pode até ser que o escândalo tenha mesmo acontecido — e, se assim foi, cadeia para a turma. No momento, o único escândalo incontroverso é esse vazamento seletivo de dados de uma investigação sem que o principal acusado consiga ter acesso aos autos. Esse é um procedimento muito comum, hoje em dia, nas ditas repúblicas bolivarianas. Chávez (e agora Nicolás Maduro), Rafael Correa e Evo Morales costumam recorrer a acusações de corrupção para se livrar de seus adversários políticos.

Falas suspeitas

Ademais, não dá para ignorar certas falas, não é? O site “Implicante” levou ao ar o vídeo que registra a solenidade de posse de Vinícius Marques de Carvalho, presidente do Cade.

Prestem atenção:
           

Notem a sua verdadeira devoção a um outro Carvalho, o Gilberto. A proximidade é de tal sorte que, rompendo com o protocolo, trata o ministro como “você”.

Trata-se, mesmo, de uma relação de profunda amizade; se os “Carvalhos” do sobrenome traduzem parentesco, isso não sei. Há quem diga que sim. Pouco importa. Por que um chefe do Cade recorre a esse tom laudatório para se referir ao “engajamento” de um ministro?

“O que você está querendo dizer com isso, Reinaldo?” Nada de muito misterioso: um órgão técnico como o Cade não poderia, parece-me, estar sujeito a esse tipo de sotaque político. Não é preciso ser um gênio da raça para que se perceba a óbvia influência de Carvalho, o Gilberto — braço operante de Lula no Planalto —, na autarquia.

Mais: o Cade pertence ao Ministério da Justiça. Dos ministros de Dilma, Cardozo tem sido o mais dedicado à tarefa de criar dificuldades para a gestão do PSDB em São Paulo.

Teoria conspiratória?

Não! Mais uma vez, matéria de fato.

O ministro está na raiz da crise que resultou na demissão de Ferreira Pinto, ex-secretário de Segurança do estado. O ministro tentou tirar uma casquinha dos protestos em São Paulo. Escrevi vários textos a respeito.

É evidente que o vazamento obedece a um propósito político. Sem que a investigação seja tornada pública, a coisa fica como o PT e o diabo gostam, não é mesmo? A suspeita recai genericamente sobre os “tucanos” e suas sucessivas gestões no estado.

Nestes dias em que qualquer grupinho de 20 para a Paulista, o objetivo é fornecer combustível aos protestos de rua em São Paulo. E justamente na área que está a origem das mobilizações de rua: transporte público.

Concluo

A turma não brinca em serviço. E olhem que o jogo mal começou.


05/08/2013


A banalidade de Dilma



Por Fernando Gabeira
Estadão


Ao sair do filme Hannah Arendt, a filósofa judia descrita na tela por Margarethe von Trotta, muitas ideias me vieram à mente.

Lembranças da ditadura, meu depoimento no Tribunal Bertrand Russel, em Roma, onde também defendi a presença da banalidade do mal entre torturadores brasileiros, quase todos dedicados pais de família, operosos funcionários do governo.

A experiência de Hannah Arendt, que cobriu o julgamento de Adolf Eichmann para a revista New Yorker, causou verdadeira comoção.

Não só por questionar o papel de alguns líderes judeus, mas por afirmar que Eichmann não era um monstro.

O enigma, para ela, era a contradição entre a mediocridade de alguns homens e a dimensão da tragédia que provocaram.

O nazismo passou, também passou a ditadura militar no Brasil. Mas existem elementos no discurso de Hannah, em especial o que faz para seus alunos no auge da polêmica sobre o artigo na New Yorker, que merecem ser retomados à luz da conjuntura brasileira.

Eichmann declarou que punha os judeus nos trens cumprindo ordens. Não se importava com o que aconteceria com eles porque, uma vez nos trens, seu destino pertencia a outras repartições que não a dele.

Hannah observa que Eichmann renunciou a pensar e essa era a raiz de sua desumanização.

A renúncia a pensar não é privilégio das pessoas medíocres, mas é muito mais frequente entre elas.

Na semana em que vi o filme acompanhei pela TV a cobertura da visita do papa e o discurso da presidente Dilma Rousseff saudando Francisco. A sensação que tenho é que ela se recusou a pensar ao aceitar ler esse texto. Foi uma tarefa de militante. Cumpriu sua missão sem se importar muito com as consequências, pois fez um discurso de propaganda de seu governo precisamente no Rio, onde as pessoas estão fartas dessas farsas grotescas e gritam nas ruas pela saída de Sérgio Cabral. E diante de um papa sem grandes ilusões sobre os políticos existentes.

Dilma convidou a Igreja Católica a fazer uma parceria com o governo do PT na luta contra a miséria. Como se a Igreja não tivesse já suas estratégias nesse campo. E como se precisasse do PT para se implantá-las mundialmente. Isso não é apenas falta de modéstia.

Dilma é obrigada a repetir diariamente que as pessoas foram às ruas em junho não por causa dos erros do governo, mas dos acertos.

Quanto mais as pessoas têm, mais querem, dizem os petistas. Uma vez que jamais admitem um erro, a única explicação para a revolta popular é a sucessão de seus acertos…

Como uma força política pode chegar a esse ponto sem trazer consigo traços de totalitarismo? Nesse caminho, o primeiro passo fundamental surge ao admitir que a realidade não importa, e sim a versão dos fatos.

Um momento típico dessa tragédia moderna foi a ida de Colin Powell à ONU para demonstrar com algumas imagens vagas que o Iraque dispunha de armas de destruição massiva.

Um segundo momento, entretanto, se desdobra: os militantes dispõem-se a repetir mecanicamente as teses que vêm da cúpula partidária. E ao constatar que são frágeis tentam salvá-las com seu entusiasmo e, naturalmente, com a raiva contra quem discorda.

Por que se recusam a pensar, se esse é um dos fatores que distinguem o ser humano?

Não creio que a recusa se deva só ao deslumbramento com a engrenagem ou mesmo à ilusão de que nunca cometa erros.

Há um fator pavloviano nessas organizações rigidamente hierarquizadas: recompensa e punição. Os descontentes vão para uma gelada Sibéria que, ao longo do processo histórico, toma inúmeras formas: uma subsecretaria, um cargo de fiscal do Ibama na fronteira com a Colômbia.

Um terceiro componente que deve ser levado em conta é a constante repetição da importância da engrenagem sobre indivíduos, substituíveis. Esse componente é importante para analisar o espantoso caso de Dilma.

Como ela poderia chegar a presidente do Brasil se é incapaz de, por si própria, se eleger vereadora numa grande cidade? Seus méritos estavam ancorados não na capacidade política, mas nos talentos de gestora.

E o que antes havia gerido com sucesso?

Se ao menos esse traço fosse verdadeiro, ela teria alguma moeda de troca nas transações com a máquina burocrática.

Dilma foi posta na Presidência pela engrenagem partidária, com o apoio dos grandes empresários que florescem à sombra de um governo devasso, e injetando milhões de reais no esquema de marketing.

Ingenuamente, ou não, grandes setores da imprensa quiseram mostrar que ela era diferente, separá-la de Lula e do PT, vislumbrando uma ponta de decência em suas decisões sobre corrupção no governo.

Quem conhece um pouco os meandros da política da esquerda sabia que isso era uma ilusão. Dilma jamais deixaria seu porto seguro para cair nos braços dos adversários do PT. Há muitos exemplos de quem salta no escuro e se esborracha, perdendo a base de origem e sendo desprezado por seus novos aliados.

A interpretação que o PT fez da crise de 2008 é vital para compreendermos o caminho que seguiu. Em quase todas as nossas análises no século passado começávamos assim: o capitalismo está em crise no mundo e isso abre caminho para o avanço do socialismo em todo o planeta.

Desde os anos 1930, foi a primeira vez que o capitalismo realmente entrou em crise. Os velhos reflexos, empilhados no fundo da consciência, saltaram como molas comprimidas.

Dilma não tinha condições de enfrentar a máquina, muito menos de questionar um script da História em que o socialismo sucede ao capitalismo. Era hora de fortalecer o papel do Estado na economia.

Algumas fortunas se fizeram entre empresários amigos, outras foram para o espaço, como a de Eike Batista. Como não poderia deixar de ser, o governo estimulava as empresas campeãs porque, afinal, era também um governo de campeões.

Uma sucessão de equívocos é possível porque a pessoa deixa de pensar, mas também tem medo de ser engolida pela engrenagem, cujo combustível é a obediência canina.

Nessa atmosfera rarefeita, a passagem do papa foi uma lufada de ar fresco.


 03/08/2013

domingo, 4 de agosto de 2013

"Cartas na mesa"





"É melhor ter cautela e reconhecer que, uma vez visto o rei nu, sua magia se desfaz..."


Fernando Henrique CardosoO
Estado de S.Paulo


Saí do Brasil depois que as manifestações populares haviam provocado uma tsunami na avaliação dos principais dirigentes políticos. Na Europa, o noticiário repercute a recidiva da crise egípcia, a volta da incerteza na Tunísia, a continuidade trágica da guerra civil síria, os atentados sem fim no Paquistão e no Afeganistão, enfim, uma rotina de tragédias preanunciadas que, vistas de longe, parecem “coisas do Terceiro Mundo”.

Enquanto isso, a China vai encolhendo sua economia, os Estados Unidos confiam na recuperação, e a Europa se contorce em ajustes sem fim. Do Brasil ecoam apenas os passos do Papa, por vezes tocando o solo lamacento dos ermos para onde o levam em sua pregação.

De nossas aflições financeiras, os mercados externos só eventualmente tratam, mas delas sempre se cuidam, retirando suas aplicações ao primeiro sinal de alarme. Do desabamento político, poucas referências há.

Embora nenhuma crise de legitimidade tenha sido o gatilho do torvelinho popular, este terminou por mostrar que existe algo parecido com ela. Se de nossa politica a mídia ocidental cuidasse, talvez visse que nem só na África e no Oriente Médio há um desencontro entre o poder e o povo.

Há algo que não está funcionando direito na política, mesmo nas partes mais longínquas do Ocidente, como a América do Sul. Há um elo nesse desarranjo: as sociedades urbanas de massas, agora hiperconectadas pela internet, sentem-se mal representadas pelos que as comandam.

Isso vale tanto para nós como para a Itália, a Espanha, a Grécia ou Portugal, assim como valeu para a Islândia ou pode vir a valer para outras regiões onde, além da crise de legitimidade política, choques culturais e religiosos acrescentem outra crise à de identidade.

Em nosso caso, como nos demais países ocidentais, o fator geral mais evidente que condiciona e possibilita o surgimento do mal-estar político deriva da grande crise financeira de 2007/8. Mas seria enganoso pensar que basta retomar o ritmo do crescimento da economia, e tudo se arranja.

É melhor ter cautela e reconhecer que, uma vez visto o rei nu, sua magia se desfaz ou engana a menos incautos. As novas formas de sociabilidade criadas pelos meios diretos de informação e comunicação estão a requerer revisão profunda no modo de se fazer política e nas instituições nas quais o poder se exerce.

A desconfiança em relação a partidos e dos políticos é generalizada, embora não atinja o mesmo grau em todos os países, nem as instituições desabem ou sejam incapazes de se aprimorarem.

Até agora os efeitos construtivos da pressão popular sobre as instituições — salvo na Islândia — estão por ver-se. Mas basta haver eleições para que os governos (de esquerda, de direita ou o que mais sejam) caiam, como cairia o nosso se as eleições fossem em breve.

A questão é complexa, e há responsáveis políticos, em maior ou menor grau. Para começar, o governo Lula zombou da crise: era uma “marolinha”, e seguiu funcionando, fagueiro, como se nada precisasse ser feito para ajustar o rumo. Houve, portanto, uma avaliação errada da conjuntura. Mas houve outras barbeiragens.

O lulo-petismo, arrogante, colocou a lanterna na popa do barco e, rumando ao passado, retomou as políticas dos tempos militares geiselianos como se avançasse intrépido para o futuro.

Tome subsídios para pobres e ricos, mais para estes do que para aqueles, mais sem razão ao ajudar os ricos do que os pobres. Perceberam tarde que o cobertor era curto, faltaria dinheiro. Se há problemas, tome maquiagem: o Tesouro se endivida, empresta dinheiro no mercado, repassa-o ao BNDES, que fornece os mesmos recursos aos empresários amigos do Rei.

Toma-se dinheiro a, digamos, dez por cento e se concede a cinco. Quem paga a farra: eu, você, os contribuintes todos e os consumidores, porque algo dessa mágica desemboca em inflação.

A maquiagem fiscal já não engana: mesmo o governo dizendo que sua dívida líquida não aumenta, os que sabem ler balanços veem que a dívida bruta aumenta, e os que investem ou emprestam, nacionais ou estrangeiros, aprenderam muito bem a ler as contas.

Deixam de acreditar no governo. Mais ainda quando observam suas ginásticas para fingir que é austero e mantém o superávit primário.


Não é só.

Em vez de preparar o Brasil para um futuro mais eficiente e decente, com regras claras e competitivas que incentivassem a produtividade, o “modelo” retrocedeu ao clientelismo, ao protecionismo governamental e à ingerência crescente do poder político na vida das pessoas e das empresas.


E não apenas graças a características pessoais da presidenta: a visão petista descrê da sociedade civil, atrela-a ao governo e ao partido, e transforma o Estado na mola exclusiva da economia.

Pior e inevitável, a corrupção, independentemente dos desejos de quem esteja no ápice, vem junto. Tal sistema não é novo, foi coroado lá atrás, ainda no primeiro mandato de Lula, quando se armou o mensalão. Também neste caso há responsáveis políticos, e nem todos estão na lista dos condenados pelo Supremo.

Com ou sem consciência de seus erros, o petismo é responsável por muito do que aí está.

Não por acaso seu líder supremo, depois de longo silêncio, ao falar foi claro: se identificou com as instituições que as ruas criticam e, como Macunaíma, aconselhou a presidenta a fazer oposição a si mesma, como se governo não fosse...


Se as oposições pretenderem sobreviver ao cataclismo, a hora é agora. O Brasil quer e precisa mudar. Chegou o momento de as vozes oposicionistas se comprometerem com um novo estilo de política e de assim procederem. Escutando e interpretando o significado do protesto popular. Sendo diretas e sinceras. Basta de corrupção e de falsas manias de grandeza.

Enfrentemos o essencial da vida cotidiana, dos transportes à saúde, à educação e à segurança, não para prometer o milagre da solução imediata, mas a transparência das contas, das dificuldades e dos propósitos.

E não nos enganemos mais: ou nos capacitamos para participar e concorrer num mundo global áspero e em crise ou nos condenaremos à irrelevância.

Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, é ex-presidente da República.


04.08.2013

Dilma estuda antecipar reforma ministerial - e acirra a briga no PT


Reportagem de VEJA desta semana revela que esboço de reforma solicitado à Casa Civil é o motivo da conspirata armada por Mercadante contra Mantega

VEJA
Robson Bonin e Rodrigo Rangel
INTRIGAS - A investida do ministro Mercadante contra o colega Guido Mantega irritou a presidente Dilma
(Andre Coelho/ Ag. Globo e Didas Sampaio/Estadão Conteúdo)

Na edição passada, VEJA revelou uma iniciativa insólita do ministro da Educação, Aloizio Mercadante: o petista propôs ao vice-presidente da República, Michel Temer, que convencesse a presidente Dilma Rousseff a demitir o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

A natureza da conversa causou espanto. Primeiro, porque não é comum um ministro recorrer ao vice-presidente para tramar a queda de um colega - menos ainda quando esse colega comanda uma área sensível como a econômica.

Segundo, porque Dilma resiste desde o início de seu mandato a exonerar Mantega, blindando-o das críticas recorrentes de parlamentares aliados, empresários e sindicalistas. Protagonista de uma conspiração clássica, Mercadante provocou um imenso mal-estar no governo.

O ministro confirmou a reunião com Temer, mas se apressou em negar que esteja trabalhando pela demissão do companheiro. Já Mantega disse, protocolarmente, não acreditar que estivesse na mira de Mercadante, seu amigo há mais de trinta anos.

E Dilma fez saber que não gostou nem um pouco da intriga e se mostrou insatisfeita com o movimento de Mercadante, ironicamente um dos auxiliares que ela mais tem ouvido.

Conhecida a conspirata, restou a dúvida sobre a razão do empenho e da ousadia de Mercadante na queda de Mantega.

A resposta é simples: diante da possibilidade de não ser nomeado para a Casa Civil, ele passou a trabalhar para assumir a Fazenda, mantendo aceso o bom e velho fogo amigo petista.

Com os programas do governo emperrados, o desempenho pífio da economia e a base aliada conflagrada no Congresso, auxiliares da presidente defendem a realização imediata de uma reforma ministerial como forma de recomeçar o governo.

Dilma resiste à pressão. Ela alega que reduzir o número de ministérios, por exemplo, não resultará nem mesmo em economia significativa de despesas. Com a sucessão de protestos nas ruas e a queda de popularidade pesquisa após pesquisa, a presidente, no entanto, encomendou à Casa Civil um esboço de reforma administrativa.

A iniciativa, se posta em prática, pode resultar no corte de ministérios e em mudanças em seus comandos. Foi essa discussão que mexeu com os brios do ministro da Educação.

Uma das ideias em estudo prevê o remanejamento dos ministros Paulo Bernardo e Miriam Belchior.
03/08/2013


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Lula decide que o “poste” Padilha será o candidato do PT ao governo de SP. Ou: Disputa no estado está na raiz do transe que fez de Dilma, por enquanto, a principal vítima



Luiz Inácio Lula da Silva bateu o martelo

O candidato do partido ao governo de São Paulo será mesmo Alexandre Padilha, ministro da Saúde



Por Reinaldo Azevedo

É o que informa reportagem de Natuza Nery, na Folha. Nenhuma novidade.

Quem toma as decisões relevantes no dito “único partido de massas” no Brasil é um homem só: Lula.

Ele acredita que poderá repetir com sucesso a fórmula que resultou na eleição de Fernando Haddad para a Prefeitura de São Paulo. O titular da Saúde, há tempos, era o seu preferido.

Os critérios adotados por Lula já na disputa de 2012, na capital paulista, afastavam, de saída, os dois pré-candidatos a 2014 mais conhecidos: Aloizio Mercadante e Marta Suplicy. São nomes considerados “velhos demais” e excessivamente identificados com o PT. Ao escolher Padilha, o Apedeuta pretende apresentar o velho como o novo. Há um viés cínico na escolha. Explico.

O núcleo duro do PT, Lula incluído, detesta São Paulo. Seus “inteliquituais”, a exemplo de Marilena Chaui, consideram que o estado reúne a nata do reacionarismo nacional. Marta e Mercadante, por exemplo, que trazem na testa a marca petista, tenderiam a despertar de imediato um forte sentimento de rejeição. Essas considerações já eram feitas antes mesmo das “Jornadas de Junho”. Depois delas, Lula reforçou a convicção de que o partido precisa apresentar um nome mais “neutro”, com um perfil mais supostamente “técnico”. Padilha é um virtual desconhecido do grande eleitorado. O seu grande ativo seria a baixa rejeição.

É uma estratégia de risco? É, sim! E isso só revela as dificuldades do partido. Um dos motes das manifestações de rua é “hospitais padrão Fifa”. A penúria em que vive o setor — mais por falta de competência do que de dinheiro — responde, certamente, em grande parte, pelo apoio popular aos protestos.

Lula quer que o ministro de uma área que se tornou foco especial de atenção vá para uma disputa eleitoral. O senso comum — e até o bom senso — recomendaria que se fizesse outra escolha. Mas, para tanto, forçoso seria que houvesse alternativas. Não há. A aposta, informa a reportagem, é que o tal programa de importação de médicos estrangeiros produza efeitos nas urnas. Vamos ver.

Confirmado o nome de Padilha, o marketing petista certamente tentará opor o “novo” Padilha ao “velho” Alckmin. Pode não ser assim tão fácil. As “Jornadas de Junho” foram muito mais cruéis com a reputação do prefeito Fernando Haddad, por exemplo, do que com a do governador. Haddad passou a ser visto como uma espécie de emblema do embuste petista. A sua gestão, que deveria ser exemplar, funciona mais como uma advertência sobre os perigos da inexperiência administrativa.
Cardozo fora
Tudo bem pensado, a eleição em São Paulo está na origem do transe vivido pela política brasileira. Nunca se esqueçam: os ditos protestos começaram na capital paulista, com meia dúzia de gatos-pingados, que adotaram, desde o início, a tática da violência.

Eram todos aliados tradicionais do petismo, que ajudaram a eleger Fernando Haddad. Até aquele momento, os petistas eram os principais beneficiários da “política fora dos partidos”; da “política como movimento da rua”; da “política fora dos espaços tradicionais de representação”.

Uma ligeira pesquisa no noticiário político de 2010 e 2012 (eleições, respectivamente, de Dilma e Haddad) vai indicar a mobilização, em favor dos petistas, dos ditos “coletivos” — esse nome de sotaque saborosamente soviético para designar movimentos supostamente espontâneos, mas que sempre votavam com “o partido”.

Quando a baderna de extrema esquerda — e era disso que se tratava — enfrentou a reação mais forte da polícia, amplos setores da imprensa (a mesma que os petistas adoram demonizar) compraram a causa dos manifestantes, que passaram a ser tratados como heróis da cidadania.

Os petistas tentaram, imediatamente, “liderar as massas” e jogá-las contra o governo de São Paulo. Quem não se lembra de José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, a tirar uma casquinha dos confrontos? Chegou a oferecer “ajuda federal” a Alckmin por intermédio da imprensa. Cuidava, isto sim, de sua própria pré-candidatura ao governo do Estado.

Menos de duas semanas depois, o governo federal demonstrava que não conseguia responder pela imposição da ordem nem em Brasília. O processo de demonização das Polícias Militares, que ainda está em curso, resultou numa espécie de “ocupe a rua que está dentro de você”.

Todas as insatisfações se juntaram e resolveram ganhar o espaço público. De fato, não era mais “pelos 20 centavos”. Começava-se a assistir a uma jornada contra a política e contra os políticos. Como os petistas estão no poder, sofreram o maior desgaste.

A popularidade de Dilma, mais do que a de Alckmin (alvo inicial da súcia), despencou. O tiro saiu pela culatra de maneira espetacular.

E a pré-candidatura de Cardozo — aquele que resolveu fazer proselitismo em meio à pancadaria — foi para o brejo. Ele já contava com um adversário poderoso: Lula o detesta e nunca o quis como o nome do partido na disputa pelo governo do estado. Era o preferido de Dilma — talvez uma boa forma de se livrar de sua incompetência…

Lula volta a seu plano original, ao tempo em que ele dizia que, “de poste em poste”, iria “iluminar todo o país”.

O poste da hora é Padilha.

Ocorre que a má consciência do PT acabou gerando um curto-circuito na política.

Ninguém entendeu muito bem o que está em curso, mas os mais perplexos são mesmo os petistas.

Não deixa de ser divertido assistir ao desespero da turma.

02/08/2013  

 

Perfil do vândalo: arruaceiro médio, segundo a polícia, faz parte da elite


vandalismo 


Fábio Augusto Morales Soares é mestre e doutor em em História Social pela USP. Tem 30 anos de idade, é solteiro e dá aulas como professor substituto na PUC de Campinas.

A rigor, seu invejável curriculum não tem pontos de intersecção com o da massoterapeuta Diana Parisi Dias de Moraes, 28 anos, uma ativista social cujo perfil no Facebook é utilizado para a convocação à participação em atos de hostilidade à mídia convencional e em apoio aos moradores da Favela do Moinho, na Barra Funda, em São Paulo.

É possível que Natini Pérola de Barros Oliveira, uma estudante de 24 anos de idade, não conheça o professor Fábio Augusto nem a massoterapeuta Diana Parisi.

Mas é certo que se relacione com Jorge Eduardo Hechert, 27 anos de idade, também estudante, igualmente solteiro, com quem divide um apartamento no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo.

Mas todos eles estavam no mesmo lugar, na mesma hora e, segundo a Polícia Militar, fazendo a mesma coisa: depredando concessionárias de veículos, agências bancárias, pichando prédios e ônibus, apedrejando policiais na Avenida Rebouças.

Os nomes dos quatro constam do boletim de ocorrência lavrado na noite do último dia 30 pelo Décimo-quarto Distrito Policial, em Pinheiros, São Paulo. Juntamente com os de 16 outras pessoas flagradas pela PM ‘vandalizando’ tudo o que estava ao alcance de suas mãos, martelos, pedras e latas de spray de tinta.

O grupo era estimado em cerca de 200 pessoas por observadores da polícia. Os manifestantes atendiam a uma convocação da página do Black Bloc, que se autointitula uma estratégia anarquista que não dá suporte a nenhum tipo de bandeira política.

Mas tem servido para a arregimentação de vândalos que migraram das redes sociais para as ruas, pagando carona nas manifestações.

A lista dos que depredaram patrimônio público e privado — e foram liberados depois de fichados — é composta por 15 nomes e permite construir um perfil médio desse novo persoangem.

A primeira constatação possível é a de que não se tratam de alienados políticos, não se enquadram na categoria marxista do lumpemproletariado e bem poderiam ser classificados como “eites”– na acepção lulopetista do termo.

O arruaceiro médio tem 23 anos de idade, é branco, mora em um bairro central e, na maioria dos casos, já passou por alguma universidade. Todos se declaram solteiros — apenas o companheiro de Natini se diz “convivente”. Apenas dois declararam ter a pele parda. Nenhum é negro.

A maior parte do grupo de supostos vândalos é formada por estudantes sem qualquer outro tipo de atuação profissional. São seis casos entre os 15 detidos que foram autuados em flagrante e liberados em seguida.

Mas há dois professores, um bancário, um empresário, um editor, um estoquista, um operador de telemarketing, a massoterapeuta e outro que não declarou em que trabalha.

Três dos 15 acusados de vandalismo têm curso superior completo. Outros nove declaram não ter ainda terminado o ensino superior. Os que já passaram por alguma faculdade, portanto, representam 75% dos que foram presos em flagrante.

E metade mora em bairros ricos da cidade de São Paulo. Na relação de endereços fornecidos há bairros como a Vila Madalena, Vila Mariana e o Centro.

Quanto aos meios utilizados para a depredação, o personagem proeminente é justamente a massoterapueta Diana Parisi. Com ela foram apreendidos um martelo, um cabo de madeira, um rolo de fita adesiva e peças automotivas. A PM também apreendeu toucas ninjas, bandanas e latas de spray.

O blog tentou falar com as pessoas citadas neste post. O professor Fábio Augusto Soares e Diana Parisi não atenderam. Natini afirmou que não iria fazer comentários. O companheiro dela, Jorge Hechert, ligou em seguida. Ele confirmou ter participado do protesto e disse que foi vítima de uma arbitrariedade, pois não esteve em nenhum ato violento.

Abaixo, você vai encontrar a relação de nomes e a qualificação dos indiciados. O Blog não vai divulgar a fac-símile do boletim de ocorrência para não devassar os endereços e telefones dos acusados, que constam do documento.
Nome Idade Estado civil Profissão Bairro cor da pele instrução
Antero Augusto Martins Filho 18 solteiro Estudante Tremembé branca segundo grau completo
Bruno Dias Ferreira 24 solteiro
Vila Nova Cachoeirinha parda superior incompleto
Diana Parisi Dias de Moraes 28 solteiro masso-terapueta Belém branca superior completo
Diego Gonçalves da Silva 24 solteiro bancário Moóca parda superior incompleto
Fábio Augusto Morales Soares 30 solteiro Professor Parque das Uiversidades – Campinas branca superior completo
Fernando Correa de Sá 24 solteiro empresário Vila Dom Pedro branca superior incompleto
Guilherme Magalhães Chelles 18 solteiro Estudante Vila Galvão branca superior incompleto
Henrique Montezano Lopes 18 solteiro Estudante Jardim dos Bichinhos branca segundo grau completo
Jorge Eduardo Hechert 27 convivente Estudante Largo do Paissandu branca superior incompleto
Natini Pérola de Barros Oliveira 24 solteiro Estudante Largo do Paissandu branca superior incompleto
Raael Loureço de Albuquerque 19 solteiro estoquista Itaquera pardo primeiro grau completo
Rodrigo Ferreira Viana 20 solteiro Estudante Ermelino Matarazzo branca superior incompleto
Thiago Rosa Vignoto 23 solteiro Editor Vila Invernada branca superior incompleto
Victor Leite de Oliveira 21 solteiro Professor Vila Mariana branca superior incompleto
Wilson Fernandes Raposo 26 solteiro Operador de telemarketing Jardim Londrina branca superior completo