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segunda-feira, 29 de julho de 2013

Pontífice fez declarações surpreendentes no voo de volta a Roma





Se a pessoa é gay, procura a Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?, disse o Papa Francisco 


O Globo
RIO - Numa das mais longas entrevistas já concedidas por um Papa (1h20min), sem perguntas pré-selecionadas, o Papa Francisco fez declarações surpreendentes que deixaram vaticanistas boquiabertos.

De pé na classe econômica, no voo de volta a Roma, indiferente às turbulências que chacoalhavam o avião, ele defendeu veementemente os homossexuais, dizendo que eles não devem ser discriminados e devem ser integrados na sociedade.

Ironizou ainda quem diz que tem gay no Vaticano, dizendo que esse não é o problema e que ainda não viu ninguém com carteira se identificando como tal. E perguntou: se uma pessoa é gay, procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, para julgá-la?.

A revista italiana LEspresso, em reportagem de capa, denunciou um lobby gay no Vaticano, isto é, grupos de pressão que estariam supostamente favorecendo homossexuais internamente.

A revista acusou monsenhor Battista Ricca - uma das primeiras nomeações do Papa, como membro do Ior, o banco do Vaticano - de estar no centro deste lobby.

Perguntado sobre isso, o Papa disse que o problema não é um lobby gay, mas simplesmente um lobby, seja de políticos, grupos nações ou outros. Ele partiu em defesa de Ricca, dizendo que uma investigação prévia no Vaticano mostrou que o monsenhor não cometeu nenhum crime.

Francisco considerou a viagem ao Brasil um sucesso e rasgou de elogios os brasileiros.

É corajosa a vida dos brasileiros. Tem um grande coração, este povo! disse. Mas reconheceu que o Brasil - um dos maiores países católicos do mundo - está perdendo fiéis. E contou que os bispos do país estão preocupados.

O Papa apontou a Renovação Carismática - um grupo dentro da Igreja que pratica rituais mais calorosos nos cultos - como um dos caminhos para evitar o êxodo de católicos para as igrejas concorrentes, como as pentecostais.

E contou que a primeira vez que viu esse movimento atuando, nos anos 70, não gostou e criticou, mas que depois se arrependeu.

Francisco, que assumiu o comando do Vaticano num momento crítico por conta de escândalos de pedofilia e corrupção disse que ainda não viu resistência interna às mudanças que pretende fazer na Igreja.

O Papa criou várias comissões para reformar não apenas a Cúria, como o banco do Vaticano. Numa mensagem aos que acham, dentro do Vaticano, que a palavra do Papa é inquestionável, ele avisou:

Eu gosto quando alguém me diz: eu não estou de acordo. Esse é um verdadeiro colaborador.


Introdução do Papa


Boa noite. Foi uma bela viagem. Espiritualmente me fez bem. Estou bastante cansado, mas me fez bem. Encontrar com as pessoas, me faz bem. O Senhor trabalha cada um de nós. Trabalha no nosso coração. A riqueza do Senhor é tão grande que temos de buscar as coisas nos outros. Isso me faz muito bem.

Esse foi um primeiro balanço. A bondade e o coração do povo brasileiro é muito grande. É um povo tão amável, que faz festa, que no sofrimento sempre vai achar um caminho para fazer o bem em alguma parte. Um povo alegre, um povo que sofreu tanto. É corajosa a vida dos brasileiros. Tem um grande coração, este povo.

Os organizadores, tanto da parte nossa, quanto dos brasileiros Eu vi que estava diante de um computador. Verdade, era tudo cronometrado, mas muito bonito. Depois tivemos problemas com hipótese de segurança.

Não teve um incidente em todo o Rio de Janeiro com estes jovens. Foi super espontâneo. Com menos segurança, eu pude estar com as pessoas, abracá-las, saudá-las, sem carro blindado. A segurança é a confiança de um povo.

Tem sempre perigo de um louco, mas para este (caso), temos o Senhor. Eu prefiro esta loucura, e ter o risco da loucura, que é uma aproximação.

A organização da Jornada, a parte artística, a parte religiosa, de música, foi muito bonita. Eles (os brasileiros) têm uma capacidade de se expressar! Ontem (sábado), por exemplo, fizeram coisas belíssimas.

Aparecida, para mim, foi uma experiência forte, maravilhosa. Eu me lembro durante a conferência, eu queria ter ir sozinho, escondido, mas não era possível. Rezamos.

O trabalho de vocês, não li os jornais, não vi teve, nada neste dia, mas me disseram que fizeram um trabalho muito bom. Eu agradeço a colaboração.

Depois, o número de jovens. Hoje (domingo) o governador falou de 3 milhões. Não posso acreditar. Isso é verdade, não sei se viram.

Do altar até o final, toda praia estava cheia, até la onde fazia a curva, havia tantos jovens. Me disse a vice-presidente que eram de 178 países. e isso é certo.


Nestes 4 meses, o senhor criou várias comissões. Que tipo de reforma tem em mente ? Quer suprimir o Ior (banco do Vaticano) ?

Os passos que eu fui dando nestes 4 meses e meio vão em duas vertentes. O conteúdo do que quero fazer vem das congregações dos cardeais. Me lembro que os cardeais pediam muitas coisas para o novo Papa, antes do conclave. Me lembro que tinha muita coisa.

Por exemplo, a comissão de oito cardeais, a importância de ter uma consulta de fora, e não apenas uma consulta interna. Isso vai na linha do amadurecimento da sinonalidade e do primado. Os vários episcopados do mundo vão se expressando.

Muitas propostas foram feitas, como a reforma da secretaria dos sínodos, que a comissão sinodal tenha uma forma de consultas, como o consistório cardinalício com temáticas específicas, como a canonização. A vertente dos conteúdos vem daí.

A segunda é a oportunidade. A formação da primeira comissão não me custou pouco mais de um mês. A parte econômica, pensava em tratar no ano que vem, porque não é a mais importante. Mas a agenda mudou devido a circunstâncias que vocês conhecem que é de domínio público.

O primeiro é o problema do Ior (banco do Vaticano): como encaminhá-lo, como reformá-lo, como sanear o que precisa ser sanado. E essa foi então a primeira comissão. Depois tivemos a comissão dos 15 cardeais que se ocupam dos assuntos econômicos da Santa Sé. E por isso decidimos fazer uma comissão para toda a economia da Santa Sé, uma única comissão de referência. Se notou que o problema econômico estava fora da agenda. Mas estas coisas atanem.

Quando estamos no governo, vamos por um lado, mas se chutam e fazem um golaço por outro lado, temos que atacar. A vida é assim. Eu não sei como o Ior vai ficar. Alguns acham melhor que seja um banco, outros que sejam um fundo, uma instituição de ajuda. Eu não sei. Eu confio no trabalho das pessoas que estão trabalhando sobre isso.

O presidente do Ior permanece, o tesoureiro também, enquanto o diretor e o vice-diretor pediram demissão. Não sei como vai terminar essa história. E isso é bom. Não somos máquinas. Temos que achar o melhor. A característica de, seja o que for, tem que ser transparência e honestidade.

Uma foto sua deu a volta ao mundo, quando o senhor desceu as escadas do helicóptero, carregando sua maleta preta. Artigos de todo o mundo comentaram o Papa que sai com sua proporia mala. Foram levantadas hipóteses também sobre o conteúdo. Porque saiu carregando a maleta preta e não seus colaboradores? Poderia dizer o que tinha dentro?

Não tinha a chave da bomba atômica! Eu sempre fiz isso, Quando viajo, levo minhas coisas. E dentro o que tem? Um barbeador, um breviário (livro de liturgia), uma agenda, tinha um livro para ler, sobre Santa Terezinha. Sou devoto de Santa Terezinha. Eu sempre levei eu mesmo minha maleta. É normal. Nós temos que ser normais. É um pouco estranho isso que você me diz que a foto deu a volta ao mundo. Mas temos de nos habituar a sermos normais, à normalidade da vida.

Por que pede tanto para que rezem pelo senhor?

Não é habitual ouvir de um papa que peça que rezem por ele... Sempre pedi isso. Quanto era padre pedia, mas nem tanto e nem tao frequentemente. Comecei a pedir mais frequentemente quando passei a ser bispo. Porque eu sinto que se o senhor não ajuda nesse trabalho de ajudar aos outros, não se pode. Preciso da ajuda do senhor. Eu de verdade me sinto com tantos limites, tantos problemas, e também pecador. Peço a Nossa Senhora que reze por mim. É um hábito, mas que vem da necessidade. Eu sinto que devo pedir. Não sei.

O senhor disse que existem muitos santos que trabalham no Vaticano e outros um pouco menos santos. Enfrenta resistências a essa sua vontade de mudar as coisas no Vaticano? O senhor vive num ambiente muito austero, de Santa Marta. Os seus colaboradores também vivem na austeridade? Isso é algo apenas seu ou da comunidade?

As mudanças vêm de duas vertentes: do que pediram os cardeais e também o que vem da minha personalidade. Você falou que eu fico na Santa Marta. Eu não poderia viver sozinho do Palácio, que não é luxuoso. O apartamento pontifício é grande, mas não é luxuoso. Mas eu não posso viver sozinho. Preciso de gente, falar com gente, trabalhar com as pessoas.

Porque que quando os meninos da escola jesuíta me perguntaram se eu estava aqui pela austeridade e pobreza, eu respondi: não, não , não. (Estou) por motivos psiquiátricos. Psicologicamente, não posso. Cada um deve levar adiante sua vida, seguir seu modo de vida. Os cardeais que trabalham na Cúria não vivem como ricos. Tem apartamentos pequenos. São austeros. Os que eu conheço tem apartamentos pequenos. Cada um tem que viver como o senhor disse que tem que viver.

A austeridade é necessária para todos. Trabalhamos à serviço da Igreja. É verdade que há santos, sacerdotes, padres, gente que prega, que trabalha tanto, que vai aos pobres, se preocupam em dar de comer aos pobres. Tem santos na Cúria.

Também tem alguns que não são muitos santos. E são estes que fazem mais barulho. Faz mais barulho uma árvore que cai do que uma floresta que nasce. Isso me dói. Porque são alguns que causam escândalos. Temos o monsenhor na cadeia. Não esta na cadeia. São escândalos que fazem mal. Uma coisa que nunca disse : a Cúria deveria ter o nível que tinha das velhos Cúrias , pessoas que trabalham. Os velhos membros da Cúria. Precisamos deles. Precisamos o perfil da velho da Cúria.

Sobre resistência, se tem, eu ainda não vi. É verdade que aconteceram muitas coisas. Mas eu preciso dizer: eu encontrei ajuda, encontrei pessoas leais. Por exemplo, eu gosto quando alguém me diz : eu não estou de acordo. Isso eu encontrei e não estou de acordo. Esse é um verdadeiro colaborador. Mas quando vejo aqueles que dizem: ah, que belo, que belo, e depois dizem o contrário por trás, isso não ajuda. O mundo mudou, os jovens mudaram.

Temos no Brasil muitos jovens, mas o senhor não falou de aborto, sobre a posição do Vaticano sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo. No Brasil foram aprovadas leis que ampliam os direitos para estes casamentos em relação ao aborto. Por que o senhor não falou sobre isso?

A Igreja já se expressou perfeitamente sobre isso. Eu não queria voltar sobre isso. Não era necessário voltar sobre isso, como também não era necessário falar sobre outros assuntos. Eu também não falei sobre o roubo, sobre a mentira. Para isso, a Igreja tem um doutrina clara. Queria falar de uma coisa positiva, que abrem caminho aos jovens. Além disso, os jovens sabem perfeitamente qual a posição da Igreja.

E a do Papa?
É a da Igreja. Sou filho da Igreja.

O senhor teve sua primeira experiência com multidões no Rio. Como se sente como Papa? É um trabalho duro?

Quando o Senhor nos chama para ser bispo, é belo. O problema é quando um busca ter esse trabalho. Assim não é tão belo. Tem sempre o perigo e pecado de pensar com superioridade, como ser um príncipe. Mas o trabalho é belo. Ajudar o irmão a ir adiante. O bispo tem que indicar o caminho. Eu gosto de ser bispo. Em Buenos Aires, eu era tão feliz era feliz como bispo, isso me faz bem.

E ser papa?

Se você faz o que o Senhor quer, é feliz. Isso é meu sentimento. A igreja no Brasil está perdendo fiéis.

A Renovação Carismática é uma possibilidade para evitar que eles sigam para as igrejas pentecostais?

É verdade, as estatísticas mostram. Falamos sobre isso ontem com os bispos brasileiros. E isso é um problema que incomoda os bispos brasileiros. Eu vou dizer uma coisa: nos anos 1970, início dos 1980, eu não podia nem vê-los. Uma vez, falando sobre eles, disse a seguinte frase: eles confundem uma celebração musical com uma escola de samba.

Eu me arrependi. Vi que os movimentos bem assessorados trilharam um bom caminho.

Agora, vejo que esse movimento faz muito bem à igreja em geral. Em Buenos Aires, eu fazia uma missa com eles uma vez por ano, na catedral. Vi o bem que eles faziam. Neste momento da Igreja, creio que os movimentos são necessários. Esses movimentos são um graça para a igreja. A Renovação Carismática não serve apenas para evitar que alguns sigam os pentecostais. Eles são importantes para a própria igreja, a igreja que se renova.

A igreja sem a mulher perde a fecundidade? Quais as medidas concretas? O senhor disse que está cansado. Há algum tratamento especial neste voo?

Vamos começar pelo fim. Não há nenhum tratamento especial neste voo. Na frente, tem uma bela poltrona. Escrevi para dizer que não queria tratamento especial. Segundo, as mulheres. Uma igreja sem as mulheres é como o colégio apostólico sem Maria. O papal da mulher na igreja não é só maternidade, a mãe da família. É muito mais forte.

A mulher ajuda a igreja a crescer. E pensar que a Nossa Senhora é mais importante do que os apóstolos! A igreja é feminina, esposa, mãe. O Papel da mulher na Igreja não deve ser só o de mãe e com um trabalho limitado. Não, tem outra coisa.

O Papa Paulo 6° escreveu uma coisa belíssima sobre as mulheres. Creio que se deva ir adiante esse papel. Não se pode entender uma igreja sem uma mulher ativa. Um exemplo histórico: para mim, as mulheres paraguaias são as mais gloriosas da América Latina. Sobraram, depois da guerra (1864-1870), oito mulheres para cada homem. E essas mulheres fizeram uma escolha um pouco difícil. A escolha de ter filhos para salvar a pátria, a cultura, a fé, a língua.

Na igreja, se deve pensar nas mulheres sob essa perspectiva. Escolhas de risco, mas como mulher. Acredito que, até agora, não fizemos uma profunda teologia sobre a mulher. Somente um pouco aqui, um pouco lá. Tem a que faz a leitura, a presidente da Cáritas, mas há mais o que fazer. É necessário fazer uma profunda teologia da mulher. Isso é o que eu penso.

Queremos saber qual a sua relação de trabalho com Bento 16, não a amistosa, a descolaboração. Não houve antes uma circunstância assim. Os contatos são frequentes?

A última vez que houve dois ou três Papas, eles não se falavam. Estavam brigando entre si, para ver quem era o verdadeiro. Eu fiquei muito feliz quando se tornou Papa. Também, quando renunciou, foi, pra mim, um exemplo muito grande. É um homem de Deus, de reza. Hoje, ele mora no Vaticano.

Alguns me perguntam: como dois Papas podem viver no Vaticano? Eu achei uma frase para explicar isso. É como ter um avô em casa. Um avô sábio. Na família, um avô é amado, admirado. Ele é um homem com prudência. Eu o convidei para vir comigo em algumas ocasiões. Ele prefere ficar reservado. Se eu tenho alguma dificuldade, não entendo alguma coisa, posso ir até ele.

Sobre o problema grave do Vatileaks (vazamento de documentos secretos), ele me disse tudo com simplicidade. Tem uma coisa que não sei se vocês sabem: Em 8 de fevereiro, no discurso, ele falou: Entre vocês está o próximo papa. Eu prometo obediência. Isso é grande.

O senhor falou com os bispos brasileiros sobre a participação das mulheres na igreja. Gostaria de entender melhor como deve ser essa participação. O que sr. pensa sobre a ordenação das mulheres?

Sobre a participação das mulheres na igreja, não se pode limitar a alguns cargos: a catequista, a presidente da Cáritas. Deve ser mais, muito mais. Sobre a ordenação, a igreja já falou e disse que não. João Paulo Segundo disse com uma formulação definitiva. Essa porta está fechada. Nossa senhora, Maria, é mais importante que os apóstolos. A mulher na igreja é mais importante que os bispos e os padres. Acredito que falte uma especificação teológica.

Nesta viagem, o senhor falou de misericórdia. Sobre o acesso aos sacramentos dos divorciados, existe a possibilidade de mudar alguma coisa na disciplina da Igreja?

Essa é uma pergunta que sempre se faz. A misericórdia é maior do que o exemplo que você deu. Essa mudança de época e também tantos problemas na igreja, como alguns testemunhos de alguns padres, problemas de corrupção, do clericalismo A igreja é mãe. Ela cura os feridos. Ela não se cansa de perdoar. Os divorciados podem fazer a comunhão. Não podem quando estão na segunda união.

Esse problema deve ser estudado pela pastoral matrimonial. Há 15 dias, esteve comigo o secretário do sínodo dos bispos, para discutir o tema do próximo sínodo. E posso dizer que estamos a caminho de uma pastoral matrimonial mais profunda.

O cardeal Guarantino disse ao meu antecessor que a metade dos matrimônios é nula. Porque as pessoas se casam sem maturidade ou porque socialmente devem se casar. Isso também entra na Pastoral do Matrimônio. A questão da anulação do casamento deve ser revisada. É complexa a questão pastoral do matrimônio.

Qual sua relação de trabalho com Bento XVI , se têm contatos frequentes?

Tem algo que o qualifica. Fiquei tão feliz quando ele foi eleito. Alguns me dizem: mas ele não faz a revolução contra? Eu tenho uma: é como ter o avô em casa, numa família, o avô é venerado. Para mim, é como um avô em casa, o meu pai. Quando tenho uma . Quando fui a ele para falar do problema do Vatileaks, ele falou Entre vocês, um se o próximo Papa, eu prometo obediência.

Como Papa, o senhor ainda pensa é um jesuíta?

É uma pergunta teológica. Os jesuítas fazem votos de obedecer ao Papa. Mas se o Papa se torna um jesuíta, talvez devem fazer votos gerais dos jesuítas. Eu me sinto jesuíta na minha espiritualidade, a que tenho no coração. Dentro de três dias vou festejar com os jesuítas Santo Inácio, numa missa. Não mudei de espiritualidade. Sou Francisco franciscano. Me sinto jesuíta e penso como jesuíta.

Em quatro meses de Pontificado, pode nos fazer um pequeno balance e dizer o que foi o pior e o melhor de ser Papa ? O que mais o surpreendeu neste período?

Não sei como responder isso, de verdade. Coisas ruins, ruins, não aconteceram. Coisas belas, sim. Por exemplo, o encontro com os bispos italianos, que foi tão bonito. Como Bispo da capital da Itália, me senti em casa com eles. Uma coisa dolorosa foi a visita a Lampeduse, me fez chorar.

Quando chegam estes barcos (com imigrantes), e que os deixam a algumas milhas de distância da costa e eles têm que chegar (à costa) sozinhos, isso me dói porque penso que estas pessoas são vítimas do sistema socioeconômico mundial.

Mas a coisa pior é uma ciática, é verdade, tive isso no primeiro mês. É verdade! Para uma entrevista, tive que me acomodar numa poltrona e isso me fez mal, era dolorosíssimo, não desejo isso a ninguém.

O encontro com os seminaristas religiosos foi belíssimo. Também o encontro com os alunos do colégio jesuítas foi belíssimo. As pessoas, conheci tantas pessoas boas no Vaticano. Isso é verdade, eu faço justiça. Tantas pessoas boas, mas boas, boas, boas.

O senhor se assustou quando viu o informe sobre o Valileaks?

Não. Vou contar uma anedota sobre o informe do Vatileaks. Quando fui ver o Papa Bento, ele disse: aqui está uma caixa com tudo o que disseram as testemunhas. Mas não, não me assustei. São problemas grandes, mas não me assustei.

Tem a esperança de que esta viagem ao Brasil contribua para trazer de volta os fiéis? Os argentinos se perguntam: não sente falta de estar em Buenos Aires, pegar um ônibus?

Uma viagem Papal sempre faz bem. E creio que a viagem ao Brasil fará bem, não apenas a presença do Papa. Esta Jornada da Juventude, eles (os brasileiros) se mobilizaram e vão ajudar muito a Igreja. Tantos fiéis que foram se sentem felizes (por terem ido). Acho que vai ser positivo não só pela viagem, mas pela Jornada, que foi um evento maravilhoso. Buenos Aires, sim, sinto falta. Mas é uma saudade serena.

O que o senhor pretende fazer em relação ao monsenhor Ricca e como o senhor pretende enfrentar toda esta questão do lobby gay?

Sobre monsenhor Ricca, fiz o que o direito canônico manda fazer, que é a investigação prévia. E nesta investigação, não tem nada do que o acusam. Não achamos nada. É a minha resposta. Mas quero acrescentar uma coisa a mais sobre isso.

Tenho visto que muitas vezes na Igreja se busca os pecados de juventude, por exemplo. E se publica. Abuso de menores é diferente. Mas, se uma pessoa, seja laica ou padre ou freira, pecou e esconde, o Senhor perdoa. Quando o senhor perdoa, o senhor esquece. E isso é importante para a nossa vida.

Quando vamos confessar e nós dizemos que pecamos, o senhor esquece e nós não temos o direito de não esquecer. Isso é um perigo.

O que é importante é uma teologia do pecado. Tantas vezes penso em São Pedro, que cometeu tantos pecados e venerava Cristo. E este pecador foi transformado em Papa. Neste caso, nós tivemos uma rápida investigação e não encontramos nada.

Vocês vêm muita coisa escrita sobre o gay lobby. Eu ainda não vi ninguém no Vaticano com uma carteira de identidade do Vaticano dizendo que é gay. Dizem que há alguns. Acho que quando alguém se vê com uma pessoa assim, devemos distinguir entre o fato de que uma pessoa é gay e fazer um lobby gay, porque todos os lobbys não são bons. Isso é o que é ruim.

Se uma pessoa é gay, procura a Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, para julgá-la?

O catecismo da igreja católica explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser discriminados por causa disso, mas devem ser integrados na sociedade.

O problema não é ter essa tendência. Não! Devemos ser como irmãos. O problema é fazer lobby, o lobby dos avaros, o lobby dos políticos, o lobby dos nações, tantos lobbys. Esse é o pior problema.
29/07/2013


Papa critica 'ideologização' da mensagem do Evangelho em discurso para bispos

  • Pontífice condena também tentação do 'funcionalismo paralisante', que reduz a realidade da Igreja à estrutura de uma ONG
  • Francisco diz que posição do missionário não deve ser de centro, mas de periferias
  • Francisco fez menção ao diálogo com o mundo atual, pois as alegrias, tristezas e angústias dos homens do nosso tempo são as dos discípulos de Cristo


Deborah Berlinck
O Globo



Papa em discurso para bispos da América Latina no Sumaré
Foto: Reprodução GloboNews TV



Papa em discurso para bispos da América Latina no Sumaré Reprodução GloboNews TV


RIO - No discurso para bispos do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), no Centro de Estudos do Sumaré, o Papa Francisco criticou o que chamou de "ideologização" da mensagem evangélica. Isto é, interpretações do Evangelho que podem ir de um extremo ideológico a outro. Isso, que ele chamou de "Igreja tentada" (Igreja da tentação), foi visto por alguns como uma referência velada aos movimentos controversos da Igreja, como o Opus Dei, de extrema-direita, ou a Teologia da Libertação, de extrema-esquerda.


O Papa também falou que a posição do missionário não deve ser de centro, mas sim de periferias e que os bispos, portanto, deve ser pastores, "próximos das pessoas, pais e irmãos, com grande mansidão: pacientes e misecordiosos".
- Homens que amem a pobreza, quer a pobreza interior como verdades diante do Senhor, quer a pobreza exterior, como simplicidade e austeridade de vida. Homens que não tenham "psicologia de príncipes". Homens que não sejam ambiciosos e que sejam esposos de uma Igreja sem viver na expectativa de outra.
Neste momento, o Papa Francisco deixou o discurso de lado e brincou que os pastores têm que lembrar que são casados com a Igreja e que não podem ser polígamos.
Francisco também fez menção ao diálogo com o mundo atual, pois as alegrias, tristezas e angústias dos homens do nosso tempo são as dos discípulos de Cristo:
- A resposta às questões existenciais do homem de hoje, especialmente das novas gerações, atendendo à sua linguagem, entranha uma mudança fecunda que devemos realizar com a ajuda do Evangelho, do Magistério e da Doutrina Social da Igreja. Os cenários e areópagos são os mais variados. Por exemplo, em uma mesma cidade, existem vários imaginários coletivos que configuram “diferentes cidades”. Se continuarmos apenas com os parâmetros da “cultura de sempre”, fundamentalmente uma cultura de base rural, o resultado acabará anulando a força do Espírito Santo.
Interrogações necessárias
O Pontífice disse que é necessário que, como pastores, os bispos se interroguem sobre o andamento das Igrejas a quem presidem. E enumerou perguntas a serem feitas. Entre elas:
- Procuramos que o nosso trabalho e o de nossos presbíteros seja mais pastoral que administrativo? - perguntou.
Ele também indagou:
- Temos como critério habitual o discernimento pastoral, servindo-nos dos Conselhos Diocesanos? Tanto estes como os conselhos paroquiais de pastoral e de assuntos econômicos são espaços reais para a participação laical na consulta, organização e planejamento pastoral? O bom funcionamento dos Conselhos é determinante. Acho que estamos muito atrasados nisso.
Propostas ideológicas
O Papa listou propostas ideológicas que "aparecem" na América Latina e no Caribe. A primeira da lista foi:
- O reducionismo socializante, que é a ideologização mais fácil de descobrir. Em alguns momentos, foi muito forte. Trata-se de uma pretensão interpretativa com base em uma hermenêutica de acordo com as ciências sociais. Engloba os campos mais variados, desde o liberalismo de mercado até a categorização marxista - disse o Papa.
Outra tentação, disse, é a "ideologização psicológica", que, segundo ele, é frequente em cursos de espiritualidade, retiros espirituais e outros do gênero. Ou seja, uma interpretação "elitista, que, em última análise, reduz o encontro com Jesus Cristo e seu sucessivo desenvolvimento a uma dinâmica de autoconhecimento".
Tem ainda, continua o Papa, a "proposta gnóstica". Isto é:
- Grupos de elites com uma proposta de espiritualidade superior, bastante descarnada.
Confira abaixo a íntegra do discurso do Papa:
“Agradeço ao Senhor por esta oportunidade de poder falar com vocês, Irmãos Bispos responsáveis do Celam no quadriênio 2011-2015. Há 57 anos que o Celam serve as 22 Conferências Episcopais da América Latina e do Caribe, colaborando solidária e subsidiariamente para promover, incentivar e dinamizar a colegialidade episcopal e a comunhão entre as Igrejas da Região e seus Pastores. Como vocês, também eu sou testemunha do forte impulso do Espírito na V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, em Aparecida no mês de maio de 2007, que continua animando os trabalhos do Celam para a anelada renovação das Igrejas particulares. Em boa parte delas, essa renovação já está em andamento. Gostaria de centrar esta conversação no patrimônio herdado daquele encontro fraterno e que todos batizamos como Missão Continental.
Características peculiares de Aparecida
Existem quatro características típicas da referida V Conferência. Constituem como que quatro colunas do desenvolvimento de Aparecida que lhe dão a sua originalidade.
1) Início sem documento
Medelín, Puebla e Santo Domingo começaram os seus trabalhos com um caminho preparatório que culminou em uma espécie de Instrumentum laboris, com base no qual se desenrolou a discussão, a reflexão e a aprovação do documento final. Em vez disso, Aparecida promoveu a participação das Igrejas particulares como caminho de preparação que culminou em um documento de síntese. Este documento, embora tenha sido ponto de referência durante a V Conferência Geral, não foi assumido como documento de partida. O trabalho inicial foi pôr em comum as preocupações dos Pastores perante a mudança de época e a necessidade de recuperar a vida de discípulo e missionário com que Cristo fundou a Igreja.
2) Ambiente de oração com o Povo de Deus
É importante lembrar o ambiente de oração gerado pela partilha diária da Eucaristia e de outros momentos litúrgicos, tendo sido sempre acompanhados pelo Povo de Deus. Além disso, realizando-se os trabalhos na cripta do santuário, a “música de fundo” que os acompanhava era constituída pelos cânticos e as orações dos fiéis.
3) Documento que se prolonga em compromisso, com a Missão Continental
Neste contexto de oração e vivência de fé, surgiu o desejo de um novo Pentecostes para a Igreja e o compromisso da Missão Continental. Aparecida não termina com um documento, mas prolonga-se na Missão Continental.
4) A presença de Nossa Senhora, Mãe da América
É a primeira Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe que se realiza em um Santuário mariano.
Dimensões da Missão Continental
A Missão Continental está projetada em duas dimensões: programática e paradigmática. A missão programática, como o próprio nome indica, consiste na realização de atos de índole missionária. A missão paradigmática, por sua vez, implica colocar em chave missionária a atividade habitual das Igrejas particulares. Em consequência disso, evidentemente, verifica-se toda uma dinâmica de reforma das estruturas eclesiais. A “mudança de estruturas” (de caducas a novas) não é fruto de um estudo de organização do organograma funcional eclesiástico, de que resultaria uma reorganização estática, mas é consequência da dinâmica da missão. O que derruba as estruturas caducas, o que leva a mudar os corações dos cristãos é justamente a missionariedade. Daqui a importância da missão paradigmática.
A Missão Continental, tanto programática como paradigmática, exige gerar a consciência de uma Igreja que se organiza para servir a todos os batizados e homens de boa vontade. O discípulo de Cristo não é uma pessoa isolada em uma espiritualidade intimista, mas uma pessoa em comunidade para se dar aos outros. Portanto, a Missão Continental implica pertença eclesial.
Uma posição como esta, que começa pelo discipulado missionário e implica entender a identidade do cristão como pertença eclesial, pede que explicitemos quais são os desafios vigentes da missionariedade discipular. Me limito a assinalar dois: a renovação interna da Igreja e o diálogo com o mundo atual.
Renovação interna da Igreja
Aparecida propôs como necessária a Conversão Pastoral. Esta conversão implica acreditar na Boa Nova, acreditar em Jesus Cristo portador do Reino de Deus, em sua irrupção no mundo, em sua presença vitoriosa sobre o mal; acreditar na assistência e guia do Espírito Santo; acreditar na Igreja, Corpo de Cristo e prolongamento do dinamismo da Encarnação.
Neste sentido, é necessário que nos interroguemos, como Pastores, sobre o andamento das Igrejas a que presidimos. Estas perguntas servem de guia para examinar o estado das dioceses quanto à adoção do espírito de Aparecida, e são perguntas que é conveniente pôr-nos, muitas vezes, como exame de consciência.
1. Procuramos que o nosso trabalho e o de nossos presbíteros seja mais pastoral que administrativo? Quem é o principal beneficiário do trabalho eclesial, a Igreja como organização ou o Povo de Deus na sua totalidade?
2. Superamos a tentação de tratar de forma reativa os problemas complexos que surgem? Criamos um hábito proativo? Promovemos espaços e ocasiões para manifestar a misericórdia de Deus? Estamos conscientes da responsabilidade de repensar as atitudes pastorais e o funcionamento das estruturas eclesiais, buscando o bem dos fiéis e da sociedade?
3. Na prática, fazemos os fiéis leigos participantes da Missão? Oferecemos a Palavra de Deus e os Sacramentos com consciência e convicção claras de que o Espírito se manifesta neles?
4. Temos como critério habitual o discernimento pastoral, servindo-nos dos Conselhos Diocesanos? Tanto estes como os Conselhos paroquiais de Pastoral e de Assuntos Econômicos são espaços reais para a participação laical na consulta, organização e planejamento pastoral? O bom funcionamento dos Conselhos é determinante. Acho que estamos muito atrasados nisso.
5. Nós, pastores bispos e presbíteros, temos consciência e convicção da missão dos fiéis e lhes damos a liberdade para irem discernindo, de acordo com o seu processo de discípulos, a missão que o Senhor lhes confia? Apoiamo-los e acompanhamos, superando qualquer tentação de manipulação ou indevida submissão? Estamos sempre abertos para nos deixarmos interpelar pela busca do bem da Igreja e da sua missão no mundo?
6. Os agentes de pastoral e os fiéis em geral sentem-se parte da Igreja, identificam-se com ela e aproximam-na dos batizados indiferentes e afastados?
Como se pode ver, aqui estão em jogo atitudes. A Conversão Pastoral diz respeito, principalmente, às atitudes e a uma reforma de vida. Uma mudança de atitudes é necessariamente dinâmica: “entra em processo” e só é possível moderá-lo acompanhando-o e discernindo-o. É importante ter sempre presente que a bússola, para não se perder nesse caminho, é a identidade católica concebida como pertença eclesial.
Diálogo com o mundo atual
Faz-nos bem lembrar estas palavras do Concílio Vaticano II: As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e atribulados, são também alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo (cf. GS, 1). Aqui reside o fundamento do diálogo com o mundo atual.
A resposta às questões existenciais do homem de hoje, especialmente das novas gerações, atendendo à sua linguagem, entranha uma mudança fecunda que devemos realizar com a ajuda do Evangelho, do Magistério e da Doutrina Social da Igreja. Os cenários e areópagos são os mais variados. Por exemplo, em uma mesma cidade, existem vários imaginários coletivos que configuram “diferentes cidades”. Se continuarmos apenas com os parâmetros da “cultura de sempre”, fundamentalmente uma cultura de base rural, o resultado acabará anulando a força do Espírito Santo. Deus está em toda a parte: há que saber descobri-lo para poder anunciá-lo no idioma dessa cultura; e cada realidade, cada idioma tem um ritmo diferente.
Algumas tentações contra o discipulado missionário
A opção pela missionariedade do discípulo sofrerá tentações. É importante saber por onde entra o espírito mau, para nos ajudar no discernimento. Não se trata de sair à caça de demônios, mas simplesmente de lucidez e prudência evangélicas. Limito-me a mencionar algumas atitudes que configuram uma Igreja “tentada”. Trata-se de conhecer determinadas propostas atuais que podem mimetizar-se em a dinâmica do discipulado missionário e deter, até fazê-lo fracassar, o processo de Conversão Pastoral.
1. A ideologização da mensagem evangélica. É uma tentação que se verificou na Igreja desde o início: procurar uma hermenêutica de interpretação evangélica fora da própria mensagem do Evangelho e fora da Igreja. Um exemplo: a dado momento, Aparecida sofreu essa tentação sob a forma de assepsia. Foi usado, e está bem, o método de “ver, julgar, agir” (cf. n.º 19). A tentação se encontraria em optar por um "ver" totalmente asséptico, um “ver” neutro, o que não é viável. O ver está sempre condicionado pelo olhar. Não há uma hermenêutica asséptica. Então a pergunta era: Com que olhar vamos ver a realidade? Aparecida respondeu: Com o olhar de discípulo. Assim se entendem os números 20 a 32. Existem outras maneiras de ideologização da mensagem e, atualmente, aparecem na América Latina e no Caribe propostas desta índole.
Menciono apenas algumas:
a) O reducionismo socializante. É a ideologização mais fácil de descobrir. Em alguns momentos, foi muito forte. Trata-se de uma pretensão interpretativa com base em uma hermenêutica de acordo com as ciências sociais. Engloba os campos mais variados, desde o liberalismo de mercado até à categorização marxista.
b) A ideologização psicológica. Trata-se de uma hermenêutica elitista que, em última análise, reduz o “encontro com Jesus Cristo” e seu sucessivo desenvolvimento a uma dinâmica de autoconhecimento. Costuma verificar-se principalmente em cursos de espiritualidade, retiros espirituais, etc. Acaba por resultar numa posição imanente auto-referencial. Não tem sabor de transcendência, nem portanto de missionariedade.
c) A proposta gnóstica. Muito ligada à tentação anterior. Costuma ocorrer em grupos de elites com uma proposta de espiritualidade superior, bastante desencarnada, que acaba por desembocar em posições pastorais de “quaestiones disputatae”. Foi o primeiro desvio da comunidade primitiva e reaparece, ao longo da história da Igreja, em edições corrigidas e renovadas. Vulgarmente são denominados “católicos iluminados” (por serem atualmente herdeiros do Iluminismo).
d) A proposta pelagiana. Aparece fundamentalmente sob a forma de restauracionismo. Perante os males da Igreja, busca-se uma solução apenas na disciplina, na restauração de condutas e formas superadas que, mesmo culturalmente, não possuem capacidade significativa. Na América Latina, costuma verificar-se em pequenos grupos, em algumas novas Congregações Religiosas, em tendências para a “segurança” doutrinal ou disciplinar. Fundamentalmente é estática, embora possa prometer uma dinâmica para dentro: regride. Procura “recuperar” o passado perdido.
2. O funcionalismo. A sua ação na Igreja é paralisante. Mais do que com a rota, se entusiasma com o “roteiro”. A concepção funcionalista não tolera o mistério, aposta na eficácia. Reduz a realidade da Igreja à estrutura de uma ONG. O que vale é o resultado palpável e as estatísticas. A partir disso, chega-se a todas as modalidades empresariais de Igreja. Constitui uma espécie de “teologia da prosperidade” no organograma da pastoral.
3. O clericalismo é também uma tentação muito atual na América Latina. Curiosamente, na maioria dos casos, trata-se de uma cumplicidade viciosa: o sacerdote clericaliza e o leigo lhe pede por favor que o clericalize, porque, no fundo, lhe resulta mais cômodo. O fenômeno do clericalismo explica, em grande parte, a falta de maturidade adulta e de liberdade cristã em boa parte do laicato da América Latina: ou não cresce (a maioria), ou se abriga sob coberturas de ideologizações como as indicadas, ou ainda em pertenças parciais e limitadas. Em nossas terras, existe uma forma de liberdade laical através de experiências de povo: o católico como povo. Aqui vê-se uma maior autonomia, geralmente sadia, que se expressa fundamentalmente na piedade popular. O capítulo de Aparecida sobre a piedade popular descreve, em profundidade, essa dimensão. A proposta dos grupos bíblicos, das comunidades eclesiais de base e dos Conselhos pastorais está na linha de superação do clericalismo e de um crescimento da responsabilidade laical.
Poderíamos continuar descrevendo outras tentações contra o discipulado missionário, mas acho que estas são as mais importantes e com maior força neste momento da América Latina e do Caribe.
Algumas orientações eclesiológicas
1. O discipulado-missionário que Aparecida propôs às Igrejas da América Latina e do Caribe é o caminho que Deus quer para “hoje”. Toda a projeção utópica (para o futuro) ou restauracionista (para o passado) não é do espírito bom. Deus é real e se manifesta no “hoje”. A sua presença, no passado, se nos oferece como “memória” da saga de salvação realizada quer em seu povo quer em cada um de nós; no futuro, se nos oferece como “promessa” e esperança. No passado, Deus esteve lá e deixou sua marca: a memória nos ajuda encontrá-lo; no futuro, é apenas promessa... e não está nos mil e um “futuríveis”. O “hoje” é o que mais se parece com a eternidade; mais ainda: o “hoje” é uma centelha de eternidade. No “hoje”, se joga a vida eterna.
O discipulado missionário é vocação: chamada e convite. Acontece em um “hoje”, mas “em tensão”. Não existe o discipulado missionário estático. O discípulo missionário não pode possuir-se a si mesmo; a sua imanência está em tensão para a transcendência do discipulado e para a transcendência da missão. Não admite a auto-referencialidade: ou refere-se a Jesus Cristo ou refere-se às pessoas a quem deve levar o anúncio dele. Sujeito que se transcende. Sujeito projetado para o encontro: o encontro com o Mestre (que nos unge discípulos) e o encontro com os homens que esperam o anúncio.
Por isso, gosto de dizer que a posição do discípulo missionário não é uma posição de centro, mas de periferias: vive em tensão para as periferias... incluindo as da eternidade no encontro com Jesus Cristo. No anúncio evangélico, falar de “periferias existenciais” descentraliza e, habitualmente, temos medo de sair do centro. O discípulo-missionário é um descentrado: o centro é Jesus Cristo, que convoca e envia. O discípulo é enviado para as periferias existenciais.
2. A Igreja é instituição, mas, quando se erige em “centro”, se funcionaliza e, pouco a pouco, se transforma em uma ONG. Então, a Igreja pretende ter luz própria e deixa de ser aquele “mysterium lunae” de que nos falavam os Santos Padres. Torna-se cada vez mais auto-referencial, e se enfraquece a sua necessidade de ser missionária. De “Instituição” se transforma em “Obra”. Deixa de ser Esposa, para acabar sendo Administradora; de Servidora se transforma em “Controladora”. Aparecida quer uma Igreja Esposa, Mãe, Servidora, facilitadora da fé e não controladora da fé.
3. Em Aparecida, verificam-se de forma relevante duas categorias pastorais, que surgem da própria originalidade do Evangelho e nos podem também servir de orientação para avaliar o modo como vivemos eclesialmente o discipulado missionário: a proximidade e o encontro. Nenhuma das duas é nova, antes configuram a maneira como Deus se revelou na história. É o “Deus próximo” do seu povo, proximidade que chega ao máximo quando Ele encarna. É o Deus que sai ao encontro do seu povo. Na América Latina e no Caribe, existem pastorais “distantes”, pastorais disciplinares que privilegiam os princípios, as condutas, os procedimentos organizacionais... obviamente sem proximidade, sem ternura, nem carinho. Ignora-se a "revolução da ternura", que provocou a encarnação do Verbo. Há pastorais posicionadas com tal dose de distância que são incapazes de conseguir o encontro: encontro com Jesus Cristo, encontro com os irmãos. Este tipo de pastoral pode, no máximo, prometer uma dimensão de proselitismo, mas nunca chegam a conseguir inserção nem pertença eclesial. A proximidade cria comunhão e pertença, dá lugar ao encontro. A proximidade toma forma de diálogo e cria uma cultura do encontro. Uma pedra de toque para aferir a proximidade e a capacidade de encontro de uma pastoral é a homilia. Como são as nossas homilias? Estão próximas do exemplo de Nosso Senhor, que “falava como quem tem autoridade”, ou são meramente prescritivas, distantes, abstratas?
4. Quem guia a pastoral, a Missão Continental (seja programática seja paradigmática), é o Bispo. Ele deve guiar, que não é o mesmo que comandar. Além de assinalar as grandes figuras do episcopado latino-americano que todos nós conhecemos, gostaria de acrescentar aqui algumas linhas sobre o perfil do Bispo, que já disse aos Núncios na reunião que tivemos em Roma. Os Bispos devem ser Pastores, próximos das pessoas, pais e irmãos, com grande mansidão: pacientes e misericordiosos. Homens que amem a pobreza, quer a pobreza interior como liberdade diante do Senhor, quer a pobreza exterior como simplicidade e austeridade de vida. Homens que não tenham “psicologia de príncipes”. Homens que não sejam ambiciosos e que sejam esposos de uma Igreja sem viver na expectativa de outra. Homens capazes de vigiar sobre o rebanho que lhes foi confiado e cuidando de tudo aquilo que o mantém unido: vigiar sobre o seu povo, atento a eventuais perigos que o ameacem, mas sobretudo para cuidar da esperança: que haja sol e luz nos corações. Homens capazes de sustentar com amor e paciência os passos de Deus em seu povo. E o lugar onde o Bispo pode estar com o seu povo é triplo: ou à frente para indicar o caminho, ou no meio para mantê-lo unido e neutralizar as debandadas, ou então atrás para evitar que alguém se desgarre mas também, e fundamentalmente, porque o próprio rebanho tem o seu olfato para encontrar novos caminhos.
Não quero juntar mais detalhes sobre a pessoa do Bispo, mas simplesmente acrescentar, incluindo-me a mim mesmo nesta afirmação, que estamos um pouco atrasados no que a Conversão Pastoral indica. Convém que nos ajudemos um pouco mais a dar os passos que o Senhor quer que cumpramos neste “hoje” da América Latina e do Caribe. E seria bom começar por aqui.
Agradeço-lhes a paciência de me ouvirem. Desculpem a desordem do discurso e lhes peço, por favor, para tomarmos a sério a nossa vocação de servidores do povo santo e fiel de Deus, porque é nisso que se exerce e mostra a autoridade: na capacidade de serviço. Muito obrigado!"

28/07/13

domingo, 28 de julho de 2013

Reynaldo-BH: A visita de Francisco foi marcada por contrastes e redescobertas




REYNALDO ROCHA

Tempo de contrastes. Dias de redescobertas. Assim vi a passagem de Francisco pelo Brasil.

Nada mais chocante ─ pelo impacto do contraste ─ do que ver Dilma, Evo e Cristina na missa de Copacabana. Nada falaram, o que merece nossos agradecimentos. Foi suficiente a visão da Viúva Eterna, do índio de araque e da surreal presidente que não assumiu ainda. Sem contar a presença de Sérgio Cabral, a salvo de manifestações, preocupado apenas com o helicóptero (e com o Juquinha).



A presidente que temia pela segurança do Papa promoveu reuniões infindáveis com os responsáveis pelos aparatos de segurança. A preocupação com o clima de insatisfação popular visível nas ruas foi estendida à visita de Francisco. Mais uma cortina de fumaça. Previsível como qualquer ação oriunda dos militontos do PT.

O Brasil ─ em especial o Rio de Janeiro ─ mostrou de modo insofismável contra quem é a revolta que explodiu nas ruas.

Não, presidente, não é contra tudo e todos! É contra o que você e seus asseclas representam. Duvida? Dê um passeio pela Avenida Presidente Vargas num carro com os vidros abertos. E reze para não ficar presa num engarrafamento.

A segurança oferecida era desnecessária. Um tal de “povo” sabe cuidar da segurança de quem admira. Sabe distinguir perfeitamente mensageiros de boas-novas de apóstatas que pregam a mentira.

Mais que a religião católica ou a fé de cada um, Francisco representou o retorno e resgate de alguém que fala a verdade. Não oculta nem reescreve uma história. Não encobre erros, não demoniza quem discorda, não diz coisas incompreensíveis.

Isso Dilma jamais entenderá. Na entrevista à Folha de S. Paulo, ela insiste em descrever um país de fantasia, inventa números, quer ser inteligente (e soa somente vulgar).

De novo, senhora copresidente, faça um teste! Tente reunir mil pessoas em Copacabana para ouvir sua mensagem. Qualquer uma. Se entenderem, vão vaiar. Se não entenderem, vão viras as costas.

Ficarão somente os apaniguados, a gritar histericamente que Lula é o Senhor e Dilma a nova Senhora! (Eles berram qualquer coisa. Basta ter emprego, sanduíche de mortadela e tubaína).

Mais uma diferença. As pessoas que participaram dos eventos protagonizados pelo papa Francisco estavam pagando ─ do próprio bolso ─ para lá estarem. Só como exercício matemático: para colocar 3 milhões numa praia qualquer do país, o PT gastaria módicos R$ 210.000.000,00 (a R$ 70,00 por cabeça, o preço de um “manifestante” pró-governo). É caro, ainda mais sem o apoio da dupla José Dirceu e Marcos Valério.

Já vimos a redescoberta da força das ruas. Agora constatamos, entusiasmados, que podemos ouvir mensagens inteligentes (e inteligíveis) no Brasil real. Quase esquecemos que era possível.

Não é o caso de concordar ou não com o que Francisco disse nestes dias memoráveis. Trata-se de compreender que, mesmo discordando, não seremos demonizados.

Entre o papa Francisco e Dilma, numa estranha inversão, quem se preocupa mais com o capeta é ela.

Embora o papa tenha opositores, não se ouviu uma só comparação entre a fé que Francisco professa e outra qualquer. Na entrevista de Dilma à Folha, há um elogio (??) a Lula e cinco comparações com Fernando Henrique.

Francisco enxerga o futuro. E agradece o passado, no que ele pode dar de contribuição para hoje. Dilma dirige de olho no retrovisor. E amaldiçoa quem lhe permitiu ser o que é.

É um contraste. Mais um.

Dizem os antigos que o diabo não fala. Só age.

Dilma é ou não especialista no coisa-ruim?
28/07/2013

 

Dilma: ‘Lula não vai voltar porque não saiu’


Festa do PT, com Dilma e Lula, passou por BH em abril: defesa de “conquistas do povo”

 Mantega fica na Fazenda

O Globo

A presidente Dilma Rousseff afirmou, em entrevista exclusiva à “Folha de S. Paulo” que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva "não vai voltar porque ele não saiu". Na edição que vai às bancas neste domingo, a presidente afirma que não se incomoda “nem um pouquinho” com comparações a Lula.

Dilma afirmou também que o ministro Guido Mantega vai permanecer à frente do Ministério da Fazenda e que a inflação está sob controle.

A presidente negou estar pensando em diminuir o número de ministérios, pois acredita que isso não vai significar redução de custos para a União.

Para Dilma, a reforma política é um pedido “de todo mundo”. Na opinião dela, o plebiscito que ela sugeriu traria mais legitimidade às mudanças políticas.

A presidente disse, ainda, que não é centralizadora ou autoritária, como alguns dizem e que acompanha de perto o que considera prioritário em seu governo.

“Não, eu não sou isso, não. Agora, eu sei, como toda mulher, que, se você não acompanha as coisas prioritárias, tem um risco grande de elas não saírem.

É que nem filho. Você ajuda até um momento, depois deixa voar”.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O recado do papa aos corruptos da terra e a pesquisa que consumou a capitulação dos fabricantes de recordes de popularidade


Por Augusto Nunes

Nesta quinta-feira, durante a visita à Favela da Varginha, o papa Francisco disse o seguinte:

“Aqui, como em todo o Brasil, há muitos jovens. Vocês, queridos jovens, possuem uma sensibilidade especial frente às injustiças, mas muitas vezes se desiludem com notícias que falam de corrupção, com pessoas que, em vez de buscar o bem comum, procuram o seu próprio benefício. (…) Não deixem que se apague a esperança”.

Embora o recado não tenha mencionado expressamente políticos ou partidos, todo mundo deduziu que o papa resolvera cutucar o governo do PT e seus parceiros. Faz sentido: depois das manifestações de protesto que implodiram a farsa do Brasil Maravilha, ficou claro que a corrupção impune anda de mãos dadas com a seita lulopetista.

Lula acha que isso é preconceito. Tem razão. O país que presta sempre foi preconceituoso com assaltantes de cofres públicos, empresários liberados para transformar canteiros de obras em plantações de maracutaias, gatunos com imunidade parlamentar e outras vertentes da grande família dos corruptos. Neste inverno, o Brasil decente mostrou que é muito maior do que imaginavam os embusteiros no poder.

E não para de crescer, vão admitindo um a um os institutos de pesquisas que, se não tivessem colidido com a revolta da rua, já estariam atribuindo a Dilma Rousseff 100% de popularidade (ou 103%, se a margem de erro oscilasse para cima). Há poucas horas, consumou-se a capitulação do Ibope. A colecionadora de recordes agora patina nos arredores dos 30% historicamente reservados a qualquer poste do PT.

Durante vários anos, o Ibope confinou em índices inferiores a 8% os brasileiros que acham ruim ou péssimo o desempenho do governo federal. Subitamente, a taxa de descontentamento decolou. Acaba de bater em 31% — e continuará subindo. Se apenas tivessem fulminado a desfaçatez dos fabricantes de porcentagens, as manifestações de protesto iniciadas em 6 de junho já teriam valido a pena. Mas as mudanças foram muito além do comércio de estatísticas.

Os destinatários do recado do papa querem acreditar que, configurado o naufrágio de Dilma, bastará lançar a candidatura de Lula para que a festa siga seu curso. Logo saberão que lidam com um país que mudou. As multidões inconformadas com o elogio do cinismo sabem que foi o ex-presidente quem instalou no Planalto o que até recentemente qualificava de “um poste que ilumina o Brasil”. Se tentar um terceiro mandato, vai descobrir que cometeu um erro semelhante ao do amigo Paulo Maluf.

Dilma Rousseff é o Celso Pitta do Lula.
26/07/2013


Gonçalo Osório: Francisco repete no Brasil a lição de João Paulo II na Polônia de 1979






Augusto Nunes


Interessantes são as comparações feitas entre a viagem de Francisco ao Brasil e a de João Paulo II a Varsóvia, em 1979, pouco depois de ter sido escolhido (outubro de 78).

Claro que temos uma democracia enquanto a Polônia, naquela época, era parte da órbita do império soviético, com o comunismo mantido pelo Exército Vermelho.

Portanto, tinha um regime ditatorial. Mas a comparação que quero fazer é outra.

Em ambos os casos, trata-se de Papas com uma mensagem de valores frente a governantes cínicos, mentirosos, corruptos e desmoralizados. Nós, no Brasil, podemos dizer isto que o governo lulopetista é: um embuste promovido por canalhas. Os poloneses não podiam chamar o próprio regime pelo nome — e assim aqui estaríamos, não fossem as regras do regime democrático que o PT sempre combateu (e continua tentando subverter).


Mas voltemos aos dois Papas: eles disseram na cara dos governantes aquilo que de fato são os governantes de hoje, no Brasil, e eram os governantes de então, na Polônia: enganadores que não enganam mais. Wojtyla na Praça da Vitória, em Varsóvia, naquele inesquecível verão de 79, expôs as mazelas de um regime já condenado, podre por dentro, composto apenas de aparências. Bergoglio na Favela da Varginha deu o mesmo recado: o que os Cabral e as Dilmas e os Lulas chamam de “justiça social” nada mais é do que marketing político da pior espécie.

As mazelas da sociedade brasileira são mais profundas e se localizam naquilo que nossos governantes (como os governantes da Polônia) sempre desprezaram: valores democráticos, pluralistas, genuínos. Não sou religioso nem pertenço a qualquer das denominações de fé.

Mas sinto, quando vejo esse Papa, aquela satisfação de ver o trabalho inteligente e intelectual de quem, preservando todas as formas e aparências, põe o dedo na cara desse bando de cínicos, desses medíocres que nos governam, desses canalhas que pensam que ainda nos enganam, desses corruptos safados e sem vergonha, dessa presidente incompetente e pequena — e os chama pelo que são: seres desprezíveis.
Ninguém mais lembra, hoje, quem foram os governantes da Polônia de 79.

Caíram no lixo da História.

É para onde irão Lula, Dilma e o lulopetismo.


26/07/2013


Charge





Chico Caruso

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Aprovação do governo Dilma cai para 31%, revela pesquisa especial CNI-Ibope



Aumenta o número de brasileiros que desaprovam a maneira da presidente governar e dos que confiam em Dilma.

As áreas com as piores avaliações são saúde, segurança pública e educação


A inflação e as manifestações populares derrubaram a popularidade do governo Dilma Rousseff.

O percentual de pessoas que consideram o governo como ótimo ou bom caiu de 55% em junho para 31% neste mês, informa a Edição Especial da Pesquisa CNI-Ibope, divulgada nesta quinta-feira, 26 de julho, pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

O número de brasileiros que avaliam o governo como ruim ou péssimo também é de 31%.

A popularidade do governo é melhor na Região Nordeste, onde 43% dos entrevistados consideram o governo ótimo ou bom. Na Região Sudeste, esse percentual cai para 24%.


O levantamento, feito com 2.002 pessoas entre 9 e 12 de julho, mostra que a aprovação dos brasileiros em relação à maneira de governar da presidente também caiu de 71% em junho para 45% em julho.

O número de entrevistados que desaprovam a maneira da presidente governar alcançou 49% e supera o percentual de aprovação.


Além disso, a pesquisa revela que o percentual da população que confia na presidente Dilma caiu 22 pontos percentuais em relação a junho e ficou em 45% em julho, menor do que os 50% que disseram não confiar na presidente.

“A queda na popularidade da presidente também se refletiu na comparação entre seu governo e o do ex-presidente Lula”, avalia a CNI-Ibope.

Entre os entrevistados, 46% consideram o governo Dilma pior do que o de Lula e 42% acham que os dois governos são iguais. Apenas 10% consideram o governo Dilma melhor que o de Lula.


ÁREAS DE ATUAÇÃO - Na avaliação dos brasileiros, as áreas em que o governo federal tem a pior atuação são saúde (71%), segurança pública (40%) e educação (37%). As três áreas em que o governo apresenta melhor desempenho são: habitação e moradia (28%), fome e miséria (23%) e capacitação profissional (22%).

A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais.


25 de julho de 2013



quarta-feira, 24 de julho de 2013

Ciro Gomes: ‘Dilma pilota uma aliança assentada na putaria’






O Globo
Em entrevista a rádio, ex-ministro chama ainda presidente de ‘arrogante’ e ‘inexperiente’

RIO - O ex-ministro Ciro Gomes (PSB-CE) optou, na manhã desta terça-feira, por usar termos chulos para atacar adversários políticos. Depois de já ter dito que o PMDB era um “ajuntamento de assaltantes”, ele voltou à carga.

Desta vez, Ciro disse, em entrevista ao programa da rádio Verdinha AM, do Ceará, que a presidente Dilma Rousseff “pilota uma aliança assentada na putaria”.

Além de criticar a base aliada, Ciro fez duras críticas à presidente. Ciro chega a chamá-la de “arrogante” e “inexperiente”.


- Incrível a Dilma convocar uma rede de televisão e falar quase dez minutos para não dizer absolutamente nada. Inventar uma lambança de uma Constituinte exclusiva para fazer uma reforma política. Nenhum cartaz na rua pedindo reforma política, embora seja uma agenda emergente (...) Depois trocar os pés pelas mãos nesse negócio dos médicos (programa Mais Médicos) - dispara.

Ciro diz ainda que a presidente tem que fazer uma “reforma profunda do ministério” e cortar pastas da administração.

- A Dilma não é uma má pessoa. É uma pessoa decente, trabalhadora. Ela é meio arrogante e muito inexperiente. Muito, muito, muito inexperiente. Ou seja: isso já tava dito. Eu cansei de falar muitas vezes... e cercada de gente de quinta categoria. Esse é o grande problema. Pilotando uma aliança que é assentada na base da putaria - diz ele.
                       23/07/13


O papa e o palanque de Dilma



Fiel à ideia, por ela mesma proclamada, de que em campanha eleitoral é permitido fazer "o diabo", a presidente Dilma Rousseff transformou seu encontro protocolar com o papa Francisco num ato de palanque
O Estado de S.Paulo

Esse comportamento condiz perfeitamente com um governo fundado em artimanhas marqueteiras e disposto a fazer de tudo para recuperar a popularidade perdida.

Em lugar de dirigir algumas palavras de boas-vindas ao papa e desejar-lhe sucesso na Jornada Mundial da Juventude, Dilma fez um discurso mais longo que o do próprio pontífice, o que já foi, em si, um despropósito. Em seu pronunciamento, a presidente Dilma Rousseff empenhou-se não em recepcionar o papa, mas em explorar a figura do pontífice para fazer o elogio dos governos lulopetistas e reafirmar sua missão quase mística de salvar os miseráveis de todo o mundo.

"O Brasil muito se orgulha de ter alcançado extraordinários resultados nos últimos dez anos na redução da pobreza, na superação da miséria e na garantia da segurança alimentar à nossa população", discursou Dilma, reafirmando o evangelho petista segundo o qual só houve avanços sociais "nos últimos dez anos" e que, antes disso, só havia trevas.

Investida da condição de missionária, Dilma destacou também que seu governo "tem buscado apoiar a disseminação das experiências brasileiras em outros países", como o Bolsa Família, o programa assistencialista que deveria ser apenas temporário, mas que vai se perpetuando graças à incapacidade do governo de criar condições para que seus beneficiários possam dele abrir mão.

Em seguida, a presidente achou adequado convidar Francisco a integrar uma "ampla aliança global de combate à fome e à pobreza, uma aliança de solidariedade, uma aliança de cooperação e humanitarismo", naturalmente liderada pelo messianismo lulista.

A título de dar razão à voz dos jovens que saíram às ruas em protestos, Dilma tornou a dizer que as manifestações foram o efeito da melhoria de vida dos brasileiros, pois "inclusão social provoca cobrança de mais inclusão social, qualidade de vida desperta anseios por mais qualidade de vida". E então a presidente e candidata à reeleição fez escancaradas promessas de campanha: "Para nós, todos os avanços que conquistamos são só um começo. Nossa estratégia de desenvolvimento sempre vai exigir mais, tal como querem todos os brasileiros e todas as brasileiras. Exigem de nós aceleração e aprofundamento das mudanças que iniciamos há dez anos". Só faltou entregar um santinho a Francisco e pedir-lhe voto.

O contraste com o sereno discurso do papa acentuou ainda mais o deslocamento da fala eleitoreira de Dilma. Em seu rápido pronunciamento, Francisco não fez menção aos protestos nas ruas nem a questões políticas, preferindo dirigir-se aos jovens e deixando claro que sua visita tem caráter eminentemente religioso. Ele disse que a juventude é "a janela pela qual o futuro entra no mundo" e cobrou de sua geração que dê aos jovens condições para seu pleno desenvolvimento intelectual, material e moral.

"Não trago nem ouro nem prata", disse Francisco, repetindo fala de São Pedro, o primeiro papa, para enfatizar o despojamento de seu papado e a necessidade de retomar a essência dos valores espirituais. Segundo o Vaticano, essa mensagem norteará os discursos de Francisco sobre temas políticos, nos quais refutará "a opressão de interesses egoístas".

Em outras oportunidades, quando ainda era o cardeal Jorge Mario Bergoglio, o papa já criticou a substituição da política pela mera propaganda. "Endeusamos a estatística e o marketing", disse Bergoglio, no que poderia ser uma descrição dos governos lulopetistas. Para ele, "seria necessário distinguir entre a Política com P maiúsculo e a política com P minúsculo".

Como Francisco deve ter percebido logo em seu primeiro dia no Brasil, é longo o caminho para o resgate da política como atividade nobre, para, em suas palavras, acentuar valores "sem se imiscuir na pequenez da política partidária".
24 de julho de 2013

domingo, 21 de julho de 2013

Imagina no Leblon: o desfiladeiro de Sérgio Cabral



Como o governador do Rio se tornou o alvo principal dos manifestantes, um mês depois de iniciados os protestos e com passeatas esvaziadas no resto do país

João Marcello Erthal e Cecília Ritto
Veja.com
 

Governador Sérgio Cabral é o mais atacado nos protestos do Rio de Janeiro
(Marcelo Fonseca/Folhapress)

Diante do crescimento dos protestos, o governador acusou uma “antecipação de campanha” nociva ao Rio de Janeiro. O primeiro a levantar bandeiras para 2014, no entanto, foi o próprio PMDB, com o prefeito reeleito Eduardo Paes anunciando Pezão como pré-candidato já no discurso de comemoração ao resultado das urnas em 2012

Passado um mês do início dos protestos pela redução das passagens de ônibus, o Rio de Janeiro mantém, no eixo entre o Leblon e o Palácio Guanabara, um foco permanente de manifestações. Os endereços de residência e trabalho do governador Sérgio Cabral são os pontos de encontro de grupos que pedem desde o cancelamento da Copa do Mundo de 2014 até a suspensão das concessões de linhas de ônibus na cidade – dois assuntos fora da alçada de decisão do Executivo do estado.

O desfiladeiro da popularidade do peemedebista reeleito em primeiro turno em 2010, com a maior vantagem já obtida em uma eleição para o governo (66%), começou a ser cavado ainda em 2011, quando um acidente de helicóptero expôs a proximidade com o empreiteiro Fernando Cavendish, dono da Delta e detentor de contratos milionários com o governo.

Menos de um ano depois, o mesmo empresário apareceu em fotos de uma viagem a Paris ao lado do governador e seu primeiro escalão, no episódio que ficou conhecido como o escândalo dos guardanapos.

Desde então, a visibilidade dos grandes eventos no Rio, palco da final da Copa das Confederações, e as críticas à atuação da Polícia Militar aumentaram o abismo entre o Guanabara e a rua – separados atualmente por duas fileiras de alambrados.

“O mandato do governador do Rio se fragilizou com a exposição de questões éticas e morais. E a pauta das ruas passa justamente por essas duas questões. Cabral encarnou isso e tornou-se o principal alvo dos manifestantes”, explica o sociólogo Paulo Baía, da UFRJ, que estuda há seis anos demandas por reconhecimento, direito e respeito que parte de ações nas ruas.

Baía aponta a ausência do governador como uma falha na estratégia adotada por Cabral para lidar com os protestos. “Nos outros estados, governadores e prefeitos foram rápidos em tomar algum tipo de medida para oferecer algum tipo de resposta.

A Câmara, o Senado e a Presidência foram pelo mesmo caminho. Cabral não, e acabou perdendo base no setor que mais o apoiava, a classe média mais abastada”, analisa. Cabral optou por ficar fora de um momento decisivo da reação aos protestos.

Apesar de escalado para anunciar, ao lado do prefeito Eduardo Paes, a redução nas tarifas de transporte interestadual, preferiu não aparecer, deixando para o afilhado político o anúncio.

Rompeu, assim, o combinado entre os governantes do Rio e de São Paulo, onde o prefeito petista Fernando Haddad comunicou o recuo no reajuste ao lado do governador Geraldo Alckmin.

Cabral não foi o único com dificuldade de entender o grito das ruas. Mas algumas declarações infelizes indicam um descompasso com o tom dos protestos.

Quando vieram à tona as viagens diárias do governador no helicóptero do estado, usado também para levar família, empregados e o cachorro Juquinha para os fins de semana em Mangaratiba, ele se defendeu alegando não ser o único.

“Não sou o primeiro a fazer isso no Brasil. Outros fazem também, e faço de acordo com o cargo que eu ocupo. Não é nenhuma estripulia”, afirmou.

Naquele momento, como agora, os manifestantes interpelaram os governantes não só pelo que consideram ilegal, mas pelos abusos que parecem ‘acobertados’ pela legalidade.

“No primeiro mandato, as notícias sobre Cabral eram positivas. E ele tem mérito: trouxe de volta a autoestima do estado. No segundo mandato, no entanto, lutas políticas fizeram vazar questões antiéticas, com a exposição de uma simbiose entre as esferas pública e privada”, diz Baía.