Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Mostrando postagens com marcador Fora do Eixo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fora do Eixo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Caetano Veloso, o fã de Pablo Capilé, tem de participar dos festivais do “Fora do Eixo” e receber seu cachê em “cubo cards”. Ou: Artista exalta o grupo que derrubou Ana de Hollanda, que ele, Caetano, defendia




Por Reinaldo Azevedo


Caetano Veloso não se emenda — e isso, reconheço, é parte do seu sucesso. É novidadeiro. Costuma opinar com desassombro sobre coisas que conhece. Mas é ainda mais desassombrado quando fala sobre o que ignora. Já deixou claro que não gosta de mim. Ok. Talvez seja burro o bastante para me achar idiota, mas não sou idiota o bastante para achá-lo burro. No geral, ele sabe o que faz em benefício da própria carreira e dessa persona pública obcecada por encontrar um lugar único no discurso. Muito antes de Gilberto Kassab, Caetano já não era nem de direita, nem de esquerda nem de centro. E, sim!, gosto de várias músicas suas. Mas vamos ao que interessa agora.

No dia 5 de agosto, no Twitter, Caetano convocou:

“Vamos todos ver o Pablo Capilé no Roda Viva hoje. Ele e o grupo Fora do Eixo são das coisas mais interessantes acontecendo no Brasil hoje, Caetano Veloso.”

Muito bem! Pablo Capilé deu o seu showzinho particular no Roda Viva, exibindo por que é “das coisas mais interessantes acontecendo no Brasil”. Àquela altura, as redes sociais já traziam depoimentos às pencas de pessoas que passaram pelas “casas Fora do Eixo” e denunciavam trabalho similar à escravidão, apropriação indébita das obras, não pagamento de cachê, constrangimento psicológico, doutrinação ideológica, apropriação de bens de internos…

A coisa pegou fogo quando reproduzi aqui os testemunhos da cineasta Beatrriz Seigner e da estudante de jornalismo Laís Bellini. Capilé, então, que acha que a “mídia tradicional” está acabando em razão de uma “crise de narrativa”, teve de apelar à… mídia tradicional para tentar se explicar. Ao se defender, no entanto, Capilé e o Fora do Eixo admitiram o não pagamento de cachê, o não pagamento de salário, a apropriação — consentida, claro! — de bens dos internos, calote em dívidas feitas na praça… Mas tudo tem uma explicação: o líder da seita acha razoável que uma banda não receba nada para tocar porque o Fora do Eixo está colaborando para formar o público dos artistas, entenderam? A entidade, não obstante, recebe farto patrocínio — em moeda corrente no país — de órgãos oficiais.

É possível que Caetano, naquele dia 5, não soubesse de nada disso. Nem tinha a obrigação. Já os jornalistas que entrevistaram Capilé (e Bruno Torturra) estavam obrigados a saber, sim. Mas… Muito bem! A realidade fala por si. Os testemunhos estão aí. As evidências também. Até mesmo pessoas que estavam bem próximas da cúpula desertaram e denunciaram os métodos autoritários de Pablo Capilé, a “coisa interessante”.

Mas Caetano ainda não se deu por achado. Em sua página na Internet, publica um texto exaltando as qualidades do grande Paulo Rónai. Ele o faz, claro!, à sua maneira, misturando dados da própria biografia com a do intelectual. Mas tudo bem! Trata ainda de uma porção de outras coisas, num estilo muito seu, que a gente poderia chamar de “miscelânea ilustrada”. E eis que surge no texto… Pablo Capilé. Assim:

“Leio que o ministro Joaquim Barbosa tratou o colega Lewandowski de modo no mínimo inapropriado. E que o dólar subiu mais do que em 2009. Uma manifestação é tida como desproporcional por, contando com 200 participantes, ter parado o trânsito da cidade por mais de sete horas. O Capilé, o Fora do Eixo e mesmo a Mídia Ninja, me contam, vêm sendo linchados nas redes sociais. Quantos esforços temos que fazer para dar conta do que nos é apresentado pela realidade! Precisamos de calma e firmeza, destreza e maleabilidade, tudo num ritmo adequado à capacidade de superação de crises.”
Voltei
Linchados? Linchadores não oferecem a ninguém chance de defesa. Capilé dispõe de uma força impressionante na rede para se explicar. Mais: os veículos “tradicionais” de comunicação lhe franquearam a oportunidade de dar a sua versão. Infelizmente para o bom senso, Capilé e o Fora do Eixo endossaram as acusações, só que procuraram tirar o seu sinal negativo. Não pagar cachê, dizem, é parte do esforço para formar público. Apropriar-se de bens alheios é só uma manifestação da filosofia coletivista. Dar calote é coisa muito comum entre pessoas que lidam com a cultura. E vai por aí.

Linchamento? O que está a dizer Caetano? Que mentem todas as pessoas que vêm a público revelar a sua traumática experiência com o grupo Fora do Eixo? O mais curioso é que seu texto canta as glórias de um, com efeito, pequeno grande livro de Rónai: “Como aprendi o português e outras aventuras”, que foi reeditado pela Casa da Palavra (comprem!). Capilé, o seu herói injustiçado, acha que os livros, especialmente os clássicos, em qualquer formato, são coisa do passado, sepultados pela cultura digital.

Coerência?
Pois é… Eu acredito que as pessoas devam viver conforme o credo que defendem. Caetano deveria dar o exemplo aos novos artistas e, em apoio à causa de Capilé, dar um show para as plateias convocadas pelo Fora do Eixo, tendo o seu cachê pago em “cubo cards”. Havendo tempo, deve se internar numa das casas e trabalhar de graça.

Finalmente, lembro que Caetano pediu a permanência de Ana de Hollanda no Ministério da Cultura. Como sempre, ele defende com muita energia tanto uma coisa quanto o seu contrário. Sobre as tentativas de derrubar a hoje ex-ministra, afirmou, segundo publicou a Folha:

“E essa história pode ser essa vontade de derrubar Ana porque acreditam demais na magia benigna da internet. É uma bolha mítica. Não é nada além disso. Há muita mitologia do novo mundo da internet, do admirável muito [mundo?] novo. É uma espécie de bolha conceitual. Sou velho o suficiente pra dizer que é bobagem.”

Caminho para o encerramento
Atenção! Quem, definitivamente, desestabilizou Ana de Hollanda foi o… Fora do Eixo. Eram os seus comandados que saíam por aí a vaiar a ministra em eventos públicos. Ainda hoje, os principais braços de Pablo Capilé da rede a acusam de ter tentado destruir o legado de Gilberto Gil e Juca Ferreira — este, sim, hoje um mero funcionário espiritual da turma. Capilé foi a mão que balançou o berço da ex-ministra da Cultura e acabou por derrubá-la. Entre outras razões porque esses “caras interessantes” acham que direito autoral também é coisa do passado — com o que as ex-ministra não concordava. Caetano, como se vê, acusava uma conspiração para derrubar Ana, mas não se furta a expressar a sua ativa simpatia pelos conspiradores e a acusar um suposto linchamento quando se joga luz nos porões do coletivismo à moda Capilé.

Se ele achar que não é assim, basta pegar o telefone e ligar para Ana de Hollanda. Ela poderá lhe dizer como foi e como é tratada ainda hoje pelo Fora do Eixo. Sob o pretexto de apoiar o novo, Caetano Veloso se alinha com um sujeito que se transformou numa espécie de coroné das leis de incentivo. E coroné em sentido pleno, com o uso de uma mão de obra que as leis brasileiras e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) consideram similares à escravidão.

Mas Caetano, como Chacrinha, uma espécie de ícone pop do Tropicalismo, veio para confundir, não para explicar.

20/08/2013 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Alô, Ministério Público! Fora do Eixo anuncia criança nascida em uma das casas como “construção/experimentação” coletiva; entidade paga a pensão de crianças abandonadas por pais que decidiram viver na comunidade. Com dinheiro da Petrobras e da Lei Rouanet!




Por Reinaldo Azevedo

Fiquei sabendo que a turma do Fora do Eixo está brava comigo. Que pena! Se forem os chefões, não ligo. Se for a mão de obra similar à escravidão que se explora por lá, pior para os… próprios escravos.

A VEJA desta semana traz uma reportagem de Helena Borges sobre a turma. A coisa me parece bem mais grave do que se supunha. Reproduzo um trecho estarrecedor. Volto em seguida.

(…)
Alguns dos moradores [das casas Fora do Eixo] deixaram seus filhos para viver na comunidade. Nesses casos, é o Fora do Eixo que paga a pensão das crianças. No ano passado, nasceu o primeiro bebê que, segundo o Facebook do grupo, será criado coletivamente. “Benjamin Guarani-Kaiowá”, anunciou alegremente o FdE em um post, “tem mãe e pai biológicos, mas será criado por uma enorme rede, veloz e nômade. Nasceu on-line com registro midialivrista e será uma construção/experimentação dos novos bandos urbanos”. Se a turma de Capilé soa assim meio fora do eixo, seu líder não rasga dinheiro — pelo menos não o de verdade.

Voltei
Por onde a gente começa? A última vez em que crianças foram tratadas como “construção/experimentação” foi, não há por que não lembrar, no regime nazista. “Gente”, como se sabe, não é brinquedo e não pode ser submetida a esses, como posso chamar?, testes. Aliás, já há aí material suficiente para que o Ministério Público se interesse pelas “casas” de Capilé, tanto o setor do MP empenhado no combate ao trabalho escravo como aquele que zela pelos direitos dos infantes. Lembro que a proteção à criança, no Brasil, como está claro no ECA, transcende a vontade dos país. Se há notícia de maus-tratos físicos ou psicológicos, o estado tem o dever de intervir.

Segundo entendi, o pobre Benjamin Guarani-Kaiowá está sendo educado pelo estado paralelo inventado por Capilé — o homem que pega a grana em reais da Petrobras ou de governos e “paga” seus escravos com uma moeda própria, os “cubo cards”. Quando chegar a hora de o pai ou a mãe ir à reunião da escola, o “coletivo” é que vai comparecer? Tadinho do Guarani-Kaiowá… Os outros meninos têm de, simbolicamente, matar um só pai, ele terá de enfrentar um coletivo; os outros têm só uma Jocasta… Este terá todas!

É um escândalo que essa gente aloprada possa fazer e escrever essa barbaridade. Até porque, como é sabido, uma “construção/experimentação” pode dar certo ou errado, não é mesmo?

Enquanto o chefe da seita se regozija com sua “construção/experimentação”, outras crianças estão crescendo longe de seus respectivos pais, que decidiram largar tudo para se internar no “mosteiro” de Capilé. Generoso, ele, por intermédio das casas Fora do Eixo, paga a pensão da garotada. Benjamin Guarani-Kaiowá, assim, tem um monte de pais; os outros não têm pai nenhum!

Não custa lembrar que a Petrobras e a Lei Rouanet respondem por parte do dinheiro dessa gente. Empresas públicas e privadas que financiam Capilé e sua turma se tornam moralmente responsáveis por seus métodos.


12/08/2013

sábado, 10 de agosto de 2013

Fora do Eixo, a seita totalitária 2 – Ex-interna relata o dia a dia da Casa dos Horrores em que Pablo Capilé é rei e profeta: amizades monitoradas, vida afetiva e sexual patrulhada, técnica de assédio a novatos, sexismo, humilhações


Por Reinaldo Azevedo

No post anterior (leiam), anuncio que vou tratar do depoimento de Laís Bellini, que também fala sobre a sua experiência com o Fora do Eixo e Pablo Capilé.

Laís diz ter se sentido estimulada a revelar o que viveu ao ler as revelações feitas pela cineasta Beatriz Seigner, a que este blog deu destaque.

Muito bem! O texto da moça é gigantesco. Mais de 45 mil toques. Essa parece ser, aliás, uma constante das pessoas que conseguem se desligar da seita.

Estão de tal sorte sufocadas pela pressão que decidem falar tudo ao mesmo tempo. Talvez seja a reação natural de quem estava exposto a uma tirania.

Ainda que algumas já tenham deixado o Fora do Eixo há algum tempo, não tinham um canal para se expressar.

Ao contrário: viam Pablo Capilé, o Kim Jong-un do movimento, nos píncaros da glória.

À diferença da cineasta Beatriz, a estudante de jornalismo Laís (abandonou, à época, o curso para se dedicar à causa!!!) passou a ser uma “interna” da Casa Fora do Eixo São Paulo.

Passou a morar na “comunidade”, submetida à ditadura de Pablo Capilé e de alguns de seus, como posso dizer?, “ministros”.

O relato é de arrepiar e coincide com outros tantos que estão na rede.

- o Fora do Eixo é uma monarquia absolutista, e é proibido questionar Pablo Capilé;

- Laís relata o que é o dia a dia de pessoas submetidas a uma forma moderna de escravidão;

- a sociedade “Fora do Eixo” é rigidamente hierarquizada, e os que ainda não têm lastro (tempo de casa) só podem conversar com os seus “gestores” (os chefes);

- o contato com as outras pessoas dentro da casa é rigidamente controlado, e as amizades são desestimuladas, censuradas ou mesmo proibidas — nada que desvie as pessoas do trabalho;

- ninguém recebe salário ou algo semelhante; no máximo, as pessoas ganham um “bônus”, uma moeda inventada por Capilé;

- para sair da Casa, é preciso pedir permissão;

- é proibido se relacionar com pessoas que não pertençam ao Fora do Eixo;

- Laís relata o que, tudo indica, parece ser um esquema de fornecimento de notas frias para que o Fora do Eixo justifique gastos — afinal, recebe dinheiro tanto de empresas públicas como privadas (e tem a Lei Rouanet);

- o Fora do Eixo monitora a vida afetiva e sexual de seus internos;

- pessoas são instruídas a assediar novatos, numa técnica chamada de “pós-amor” (???);

- os novatos, fica claro, funcionam como escravos de Pablo Capilé e daqueles que dividem com ele o controle do Fora do Eixo;

- o clima de trabalho se dá em regime de terror, humilhação, xingamentos;

- discriminadas, as mulheres vão para a cozinha; os rapazes discutem política;

- Laís confirma relato feito por Beatriz e diz que Pablo Capilé tem profundo desprezo pela leitura de livros, uma coisa, segundo ele, ultrapassada.


Abaixo, meus caros, vai um testemunho do que é a Casa dos Horrores. Eu cortei bastante coisa, mas ainda ficou enorme (há o link com a íntegra). Mas vale a pena ler.

Eu havia pensando, nos primeiros dias, que esse tal Fora do Eixo era só, assim, um CPC (Centro Popular de Cultura) fora de época e, claro!, com muito menos qualidade.

Não é, não!

Os relatos que estão na rede dão conta de que estamos diante de algo bem mais complexo e, em muitos aspectos, perigoso. Há um frenético trabalho de cooptação de jovens e, percebe-se pelos testemunhos, de lavagem cerebral mesmo.

Pablo Capilé, parece, pretende ser uma mistura de Che Guevara pós-moderno com Jim Jones, aquele maluco que conduziu 918 pessoas ao suicídio, em novembro de 1978, na Guiana.

Recoloco a questão: como é que estudantes universitários descolados, que se querem, vamos ser claros, mais inteligentes do que os “caretas conservadores”, caem nessa conversa e acabam atuando como escravos de alguns espertalhões?

Estarreçam-se com o relato de Laís. Os entretítulos são deste editor.

O começo e o fim
2011 começou como o que seria meu último ano em Bauru, cidade onde cumpria meu curso de jornalismo pela Unesp, mesma universidade que uniu os primeiros integrantes do Enxame Coletivo, ponto da rede Fora do Eixo por lá. (…) Me encantei, e como sempre faço quando me apaixono por qualquer coisa, me joguei. Fui fundo, bem fundo, tapei meus olhos, cerrei minha boca (fui cerrando aos poucos, melhor dizendo). Meus ouvidos, a cada mês, ficavam mais aguçados (recebiam bem as mensagens vindas de cima) e a mente, mais convencida e dependente… 9 meses depois, antes que chegasse a bater a cabeça no fundo do poço, segurei numa cordinha que pendia perto da minha queda e voltei à realidade. Frustrada sim, decepcionada por demais, mas enfim, voltei a pensar.

Aparece Pablo, o mago
Conheci o Pablo, e ele, obviamente, viu nos meus olhos que eu estava ali, encantada com tudo o que estava ouvindo, conhecendo, descobrindo. Me chamou para uma conversa pessoal (o que deve acontecer com um monte de gente, mas no dia, eu me senti muito importante, e meus próximos ficaram intrigados do porque “O grande Pablo Capilé” queria falar comigo, hoje eu bem sei que ele queria saber mesmo o quanto eu já estava dentro, envolvida, fascinada). Na conversa, fez com que eu me sentisse importante naquela rede, me fez ver o quanto meu papel como “mulher”, como ele dizia, era essencial para que Bauru voltasse com toda a potência como antes (…). Em pouco tempo estava no núcleo duro do coletivo de Bauru, e por consequência, morando na sede de lá.
(…)

Tranca a universidade

(…) Meu último semestre na universidade ia por água abaixo. Liguei pra minha mãe e disse: “Mãe, não vou terminar a faculdade, a universidade não está com nada, vou trabalhar com educação popular, com conhecimento compartilhado, que vai além desse engessamento institucional e blá-blá-blá. Ela, como sempre, tentou me entender e me disse: “Confio em você”. E assim foi intensamente, me joguei por completo. Já fazia parte de reuniões da regional São Paulo, e, com cada vez mais envolvimento e, bem percebido pelo núcleo duro geral da rede, estava sendo muito acionada por integrantes de outros pontos, “pequenos”, da regional São Paulo. (…)

O senhor de tudo
Através de imersões (que aprendemos a fazer durante uma nossa lá na Casa Fora do Eixo São Paulo), começamos a espalhar o conhecimento da rede, as ideias, os vocabulários, os vícios, as dependências, e tudo mais que vem embolado nessa seita, com cara de culturalmente popular, musicalmente descolada, pessoalmente encantadora, internamente… cheio de gente incrível que está cega como eu já estive e com um número contável nas mãos de quem são os controladores e administradores da rede querendo consumir só uma coisa em você: a sua mente. E para quê?! Sinceramente até hoje eu não sei o que é que realmente o Capilé quer fazer da vida dele, nem até onde ele quer chegar. Antes eu pensava que ele queria, sei lá, virar ministro da Cultura, saca? Hoje eu acho que isso tá pequeno pra ele. Ele quer mais, e é por isso que não se diz de partido algum, surfa no mar de vários, tem interlocutor no partido da Marinão que eu sei, tem interlocutor no PT (que é o partido com quem esteve sempre mais próximo), e por aí vai. Hoje eu vejo o Fora do Eixo como uma rede que tá alimentando a imagem do Pablo Capilé, o grande criador da ideia de valorizar a troca de produtos e serviços, o grande criador da moeda solidária, que é o tal maldito “card”. Aliás, na moral, se o Fora do Eixo fosse pagar tudo o que deve em card (e em dinheiro) para os outros, poderia fatalmente decretar falência.
(…)

O convite
Em pouco tempo eu já havia adquirido o vocabulário que encanta quando bem discursado e saía por aí espalhando essa seita São Paulo a fora). No último dia de turnê, o Capilé ligou no meu celular. Perguntou como tava rolando a turnê, como tava minha articulação com os possíveis novos pontos e tal… No fim da conversa disse assim: “Então, o que você vai fazer sábado!?” isso era quinta, eu estava voltando para Bauru. “Eu gostaria que você viesse pra São Paulo sábado, aqui na casa fora do eixo São Paulo… Vai rolar a festa de 10 anos da Fórum e eu gostaria que você estivesse aqui pra participar com a gente”. Puuuuuuuta que pariu! Me senti importante pra caraaaaaalho e olha só que irônico… Hoje, eu vejo essa minha reação como nada mais que uma pessoa que inconscientemente ignorava o propósito horizontal da rede, pois ali eu estava vendo um momento de “subir na rede” como tanto já tinha ouvido falar (…)

Sai sem nada
Sim, tenho amigos ali dentro que me veem como quem desistiu, mas não se dão conta do escravismo que estão vivendo, e aqui eu digo escravismo referindo-me ao mental e ao financeiro. Quem toma coragem pra sair da rede tem que ter algum recurso financeiro para recomeçar a vida do zero, e muitos, que eu sei, ainda enfrentam longas sessões de terapia. Muitos amigos meus preferiram mudar de cidade, mudar de ares, enfim, pra tentar tudo de novo…

A cúpula
Ah, quando eu digo cúpula, falo das seguintes pessoas, que, a meu ver, seguem sua própria escadinha de hierarquização, de poder (lastro, como eles dizem): Pablo, Lenissa, Mari e Carol e Felipe (os dois últimos num mesmo nível). Vejam aqui que isso aqui é mera opinião minha, um peixe pequeno naquele mar cheio de espécies…

Pablo, o infalível
Eu já vi gente que tem mesmo tempo de rede baixar a cabeça, já vi medo estampado no rosto de pessoas que estão ali na mesma dedicação que ele, já ouvi me falarem que tem que ficar quieto porque ele sabe o que tá fazendo e que a gente tem que confiar e não ficar perguntando muito.

Hierarquia – o gestor

(…) a coisa ali funciona bem assim. Comecei a trabalhar então pelo Congresso Fora do Eixo que aconteceu em dezembro de 2011, em São Paulo. A gente trabalhava das 8h, 9h da manhã até às 03h, 04h… E olha que eu não reclamo de muito trabalho quando acredito na causa… Mas o problema que eu vejo é que ali parecia uma nóia coletiva de um querer demonstrar mais trabalho que o outro para o seu gestor. Sim, porque ali dentro havia gestores. A galera nova que chegava tinha seu gestor, dependendo em que área ia trabalhar. Eu fiquei trabalhando com a Carol, na Universidade Fora do Eixo, e diversas vezes eu saquei que o “lastro” da Lenissa era o maior ali entre as meninas, e ela, junto da Mari que já estavam havia mais tempo, ficavam constantemente posicionando a Carol para ela se impor por cima de mim. E aí vem uma lista de coisas absurdas da vivência ali dentro que eu acho que tem que ser explicitada

(…)

Coreia do Norte
Quer fazer crítica!? Faça diretamente ao seu gestor que ele resolve com você. Você quer conversar com seu amigo? Você não pode. Sim, você tem um gestor lá dentro da casa e, sim, você não pode sair por aí conversando com sua amiga que vive e trabalha no mesmo lugar que você. (…) Eu conversei algumas vezes com alguns amigos e, no que se chama lá dentro de “choque pesadelo”, fui chamada várias vezes pra conversas em off, a pressão é forte ali… Na hora, você se sente a pessoa mais errada do mundo, sente que tá fodendo com um propósito muito maior e para de conversar com a sua amiga. Sério… Eu fui proibida, digo proibida mesmo… de conversar com o cara que ali dentro eu considerava ser o meu melhor amigo. A seguinte frase foi dita a mim: “Laís, o Gabriel era seu “amigo” lá em Bauru. Agora ele está aqui para trabalhar com o Felipe. Qualquer coisa que ele precisar ele tem que conversar com o Felipe. Você tem que conversar com a Carol. Vocês não têm que ficar de conversa. Aqui dentro, vocês não são amigos. Vocês trabalham para a rede e em setores diferentes.” Claro que a coisa começou a pesar pro meu lado porque eu comecei a sacar que me tornei uma espécie de vírus ali. Não podia mais conversar com as pessoas que queria, com quem me sentia à vontade. Sinceramente, era muito nítida a falsidade todas as vezes que a Carol ou a Lenissa e a Mari me chamaram pra conversar como “amigáveis”. Mas, quando se está lá dentro, você tem medo, medo de responder, de questionar e acaba acreditando que fazer o que estão te pedindo será melhor para o coletivo. Ou seja, é bom você não conversar com seus amigos ali dentro porque, se conversar, pode ficar espalhando críticas absurdas que são “da sua cabeça”, e isso não é bom… Até porque, na concepção delas, eu era uma garota mimada, de classe média, que não vi o que é sofrer pra crescer na vida e, portanto, não aguentava viver na pressão que a rede tinha pra conseguir se desenvolver. Se eu queria perguntar, eu tava perguntando demais, tava com, como a Lenissa me dizia, “síndrome da aparecidisse”.

(…)

Assediar, catar e cooptar – O pós-amor

Catar e cooptar. Vejam bem, moças e rapazes, se você for considerado um perfil estratégico para estar e entrar na rede, cuidado! Você em breve pode perceber alguma pessoa que vai se aproximar bastante de você, mas bastante mesmo, a ponto de demonstrar muito desejo por você. Quando você está se aproximando, há reuniões que acontecem dentro da cúpula, às vezes com mais uns ou outros, que podem ser indicados para tal ação, para definir quem é a pessoa que tem mais perfil para dar em cima de você e te fisgar pra dentro da rede. Sim, essas conversas acontecem em reunião, e, ali, é definido o nome da pessoa que vai partir pra cima. Cada um aqui que tire a sua conclusão. Tanto sei desse papo que soube ainda que ficaram preocupados quando o cara que foi enviado para partir pra cima de mim não conseguiu, e por isso não sabiam o quanto eu estava me envolvendo realmente com a rede ou não. Só pra pontuar: quando eu ainda estava lá, eu participei de uma conversa na qual propunham que eu tinha de demonstrar que eu estava mais dentro, que eu estava mais entregue à rede, pra que elas pudessem confiar em mim e pra que eu pudesse partir pra fazer ações estratégicas como sair pra catar e cooptar uns caras que considerassem interessante estar dentro. Uma semana depois dessa conversa, eu estava fora. E não se enganem, queridos, o amor tá aí pra ser mais uma ferramenta… seja você um(a) universitário(a), um(a) intelectual, um(a) artista interessante pra eles, um(a) professor(a) bem posicionada politicamente. Não importa, se você é alvo, o “amor”, ou melhor, o “pós-amor” é uma ferramenta.
(…)

Sexismo
Me perguntem qual o sexo do gestor da cozinha. E me perguntem quem sai pra uma ou outra noitada do Fora do Eixo pra dar as caras na festa com uma “galera”.

Confinamento
Com quem você se relaciona?! Não queira estar lá dentro e se relacionar amorosamente com qualquer outra pessoa que esteja fora da rede. Você vai viver aquilo ali e nada mais. Ficar dentro da casa o dia inteiro e só sair quando é necessário para a casa (cumprir alguma agenda da sua frente de trabalho ou, então, se você está escalado para almoço, compras, algo do tipo). Você não vai sair de casa para ir ao cinema, tampouco ao teatro. Você não vai sair pra ouvir um som nem tomar uma cerveja com o seu vizinho. Afinal, você nem conhece seu vizinho, porque não há tempo, espaço, disponibilidade. Você vive dentro da Casa Fora do Eixo São Paulo, e isso é a sua vida. Se você quer visitar seus pais no interior… “Olha, sinceramente, que você tenha um bom motivo. E que não vá pedir dois meses seguidos. Sim, porque ali o verbo era esse. “Posso ir visitar minha mãe essa semana?”, coisas do tipo. Quer encontrar uma pessoa que não faz parte da rede?! Vai inventar a maior mentira pra conseguir sair dali uma noite, e, no dia seguinte, se demorar pra voltar, não tem cara bonita te dizendo bom-dia, não. Ali, é cobrança 24h por dia. Agora, ai de você perguntar por que o Pablo tá saindo. Por que a Lenissa vai passar três dias fora. Você não tem de perguntar. Ela vai sair, vai usar o dinheiro do caixa coletivo, não vai pedir a ninguém o quanto vai usar. Mas, claro!, veja bem, ela tem “mais lastro que você”. O Pablo resolveu dormir até mais tarde e perdeu o voo? Não importa, ele nem se deu a obrigação de cancelar o vôo. “Você vai ligar lá, Laís, vai dar um jeito de trocar a passagem.” “Mas já passou a hora do check in” “Não importa, troca, ou compra outra, tem que comprar outra, rápido, Laís, já resolveu (o gtalk bombando!!!)? Vai, Laís, vai logo, menina! Tá lerda hoje! Você é lerda mesmo né? Parece retardada”. Sim, você fica na função de comprar 70 passagens aéreas e não para durante 4 dias, fazendo todas as cotações possíveis e impossíveis. (…) “Laís, você é retardada, NÃO TÁ OUVINDO O QUE EU TÔ FALANDO?” É nesse nível!
(…)

Curtir o Pablo
Eu já estive lá. Já vivi momentos em que aparecia um texto com crítica ao Fora do Eixo e aparecia o Pablo sala por sala ou recebíamos a informação via gtalk: “Escrevam aí sobre o quanto você curte estar vivendo isso aqui, o quanto a gente faz coisa massa”, e aí, como mais uma demanda, em 15 minutos, o Facebook tinha 300, 400, 500 textos com esses mesmos tantos de curtir e compartilhar. É bom lembrar que curtir e compartilhar coisas que o Pablo e mais outros por lá escrevem no Facebook é demanda diária. Mas, quando você está lá dentro, parece mais que você está defendendo a causa da rede, que por mais que você tenha crítica, todo mundo tá ali pra algo maior.
(…)

Proibido falar com estranhos
Eu já cheguei a ouvir da Carol (e sinto muito que são fortes recomendações da Lenissa e do Pablo) coisas do tipo: “Com quem você está conversando aí no Facebook, Laís? Esse cara nem é do Fora do Eixo. Quem é ele?! Por que você está conversando com ele?” E, veja bem, ai de você perguntar alguma coisa a Pablo, Felipe, Mari, Lenissa, Carol no mesmo nível de prepotência. Ai de você querer saber com quem o Pablo conversa horas de porta fechada. Qual o assunto da conversa fechada em gtalk entre eles e assim por diante.
(…)

Armação para xingamentos

Eu sei que, depois disso que tô escrevendo, vai aparecer muita gente dizendo que é tudo mentira, que sou rancorosa, mesquinha, filha de mamãe e blá-blá-blá. Ok, ok, eu também já escrevi textos dizendo que tal pessoa era rancorosa, mentirosa e que eu era pós-rancor. Eu sei como funciona, apesar de ter passado só 9 meses na rede, pouco tempo na Casa Fora do Eixo São Paulo, ter tido pouco “lastro”, foi bem mais que o suficiente para me implodirem lá dentro ao perceberem que eu estava despertando, claro.

Vida amorosa patrulhada

Sim, me distanciaram dos meus amigos. Me questionaram sobre minha vida amorosa. Disseram pra eu não me relacionar com tal pessoa porque “este não é o momento de você se relacionar com tal pessoa. É o momento de você trabalhar para subir na rede, para adquirir lastro, para ter espaço pra falar, pra conquistar essas coisas, você tem que assumir esses papeis”. “Laís, por que você tá indo caminhar todos os dias no Parque com a Bianca? Acho que vocês duas estão conversando muito. Não é para vocês ficarem conversando muito”. “Laís por que hoje você ficou de risadice com os meninos na cozinha!? Você é mulher, tem que se posicionar como tal, não é pra ficar de conversa, de risada com ninguém na cozinha. Vai na cozinha porque tá com fome. Pega o que tem que comer e voltar a trabalhar. Não tá vendo que tá todo mundo aqui focado!?”.
(…)

Mais trabalho escravo sem cultura
Na moral, o que é se “posicionar” como mulher? E foco? Ali é passar o dia inteiro fazendo marketing online do Fora do Eixo. Toma banho rápido. Vai no banheiro correndo. Ninguém na casa lê livro algum, porque não dá tempo, isso não existe. E, ainda mais com o discurso do Capilé de que ler é perda de tempo, que agora a comunicação está mais dinâmica, que a gente usa o Facebook pra ter informação de tudo e que isso basta, juntando um ou outro artigo e tal que você vai ler porque obviamente estará falando do Fora do Eixo, e sim, isso é tudo. Cinema… tem um clube de cinema dentro da rede, e marcávamos uma vez por semana (que era nossa hora de descanso da semana) para assistir a algum filme. Mas, sim, rolava uma puta pressão psicológica e disfarçada. Porque, na real, se a sua gestora não vai assistir, por que você vai?! Você tem que trabalhar e trabalho ali, meu amigo, não tem fim.
(…)

O dinheiro: nota fria?
O Fora do Eixo é uma rede com vários coletivos. Quando existia em Cuiabá o Cubo, eles tinham uma associação, a Asprogic, cuja presidenta, se não me engano, é a Lenissa. Em São Carlos, uma outra associação existia e se chamava Associação Caminho das Artes, cuja presidenta, depois de um tempo, se tornou a Carol. A partir disso, tem-se, ali dentro da cúpula do Fora do Eixo, duas pessoas que são presidentas de duas associações, portanto, que podem emitir notas, e podem emitir, portanto, notas de serviço a outras organizações. Organizações tais que podem ser, por exemplo, o Fora do Eixo, que recebe dinheiro público por editais ou relações diretas com empresas privadas como a Vale do Rio Doce, a Petrobrás, a Oi, etc. Quem recebe dinheiro para apoiar atividades culturais tem que justificar os gastos. Por exemplo, então, a associação Caminho das Artes pode prestar um serviço ao Fora do Eixo e emitir uma nota sobre sua atividade prestada a tal organização, que vai servir de justificativa ao que o Fora do Eixo tem que apresentar ao governo ou a empresas que o apoiam.

A vida cotidiana: Pablo, o monarca

Pergunta pra Ivana Bentes e pro Claudio Prado se eles vão sair de suas bem acomodadas e “media ou alto classeadas” casas e vidas para ir viver numa casa Fora do Eixo, dividir seu quarto com mais 8 pessoas, suas roupas com mais 20, 30 pessoas, seu sabonete com mais 22, sua bermuda com mais 15 caras, vai lavar a louça do almoço pra 80 pessoas e o prato do Capilé (que eu nunca vi lavar uma louça em todo tempo que estive morando lá, “mas calma lá, Laís, ele tem coisa mais importante pra fazer”). Também nunca vi Carol, Lenissa e Mari fazer um almoço, uma janta. Ops, vi sim, acho que duas vezes, quando deu uma vontadezinha de fazer uma coisa diferente. “Mas, Laís, deixa de ser mesquinha, egoísta, você acabou de chegar, tá perguntando coisa demais, fica de boa, vai de boa”. Eu nunca vi Mari, Lenissa, Carol, Pablo, Felipe levantar da cadeira pra lavar um banheiro pós-domingo na casa… E nunca vi também alguém ter coragem de pedir pra eles ajudarem, sendo que batia final de domingo na casa, e o resto da casa toda levantava e ia limpar a parte inteira externa pra ficar limpa porque, na segunda-feira, a vida e o trabalho continuam. Eu nunca vi nenhum deles sair pra fazer compras.
(…)

Monarquia absolutista
O Fora do Eixo é uma das estruturas mais engessadas que eu conheço na minha vida; “ditatorial” diria eu. Com seus ministros e seu presidente muito bem autointitulado rei-mor da bancada. Diria mais: ali se vive uma ditadura monárquica, com toda a sujeira de autoritarismo de milhões de outras caras bonitas que possa haver num governo que se descreva como tal. Monárquica porque o Pablo é um rei lá dentro. Só não parece porque ele não se importa muito em demonstrar e porque também, pô!, é bem descolado aparecer como um cara de boa, que não liga pra roupa que tá vestindo, tá sempre tranquilão… É o pós-rei-cult. E digo ditatorial porque a única coisa que eu consigo associar com o medo que existe nas pessoas em questionar o poder da cúpula é a ditadura.
(…)

Ameaças a quem sai
Eu espero que mais gente tenha a coragem da Beatriz, a minha coragem e a de tanta gente que ainda vai aparecer, cada uma a seu tempo, cada uma no seu espaço, porque abrir a boca pra falar disso aqui não é fácil, não. Sim, eu tenho amigos que já foram ameaçados e não venham pedir nomes, cada um vai falar da sua experiência a hora que bem entender.

Dívida e estelionato

Saí com o Fora do Eixo me devendo pouco menos de 5 mil reais (não em card, em real mesmo…). Negociei com eles porque muita coisa diziam que era “investimento meu na rede” e diziam ainda que, no fundo mesmo, eu que devia pra eles pelo tanto de coisa que eu aprendi enquanto estive na rede. O que toparam pagar segue: passagem aérea comprada no cartão de crédito da minha mãe, meu limite do cartão que ficou negativo, mais de 8 multas no período de um mês com meu carro circulando São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais. Sendo que eu não considerei, por exemplo, cobrar a batida no carro que acabou com uma lateral, devolvi o carro pra minha mãe assim mesmo, um ano de 3G no meu cartão e mais. Eu não queria mais ficar debatendo, fechei em cerca de 3 mil reais. Sò vi a cor de 500 reais, e já trocamos incansáveis 57 e-mails. A resposta sempre é que o orçamento, o caixa, não deu pra fechar, pra pagar esse mês. Lembrando ainda que colocaram meu nome no Serasa por não pagarem uma conta de um celular que não era meu, mas estava no meu nome, mesmo depois de eu ter saído, e eu é que fui pagar essa conta um ano depois pra que meu cartão fosse liberado, e meu nome, limpo. Eu saí do Fora do Eixo em fevereiro de 2012. Estamos em agosto de 2013. E que aqui cada um pense o que quiser.

Desqualificação
Cada um sai da casa com uma TAG. Lembro que tinha a ?#?traíra?, o ?#?filhodaputa?, eu sai como a?#?desistente?, sei que, depois de mim saiu, a ?#?loca? e por aí vai. Pra cada um que se vai, eles justificam com um milhão de defeitos da pessoa (…). Até quando eu estava lá, tinha uma frase do Pablo pra quando alguém saía: “pode ir, pra cada um que sai, chega 10 a mais”. A coisa já não tá mais bem assim. As pessoas estão acordando, e eu espero que esse meu relato seja mais um despertar. Eu sei que, depois deste texto, podem rolar diversas reações da Casa. Ou eles vão ignorar ou vão retaliar a minha pessoa como bem tentam fazer. Podem falar, podem gritar. Pode ser que doa dependendo de quem escreva, até porque, de lá de dentro, eu ainda guardo carinho de muita gente, mas o meu papel hoje tá sendo social, de despertar o olhar de quem tá vendo de fora e também de quem não tá vendo de dentro. Que fique claro que, quando eu trato de Fora do Eixo, eu não tô generalizando as pessoas da rede que fazem parte dela, como eu fiz, eu tô falando de quem a comanda, quem a organiza, quem a vê como ferramenta estratégica para chegar eu não sei aonde.
(…)

Humilhação
Quando eu saí da casa, pedi pra sair tranquila, avisei a Carol que eu não queria alarde, que eu não estava bem, tinha passado dois dias acordada, pensando na atitude a tomar. Não aguentava mais a pressão, não queria mais estar ali, só queria ir embora tranquila, sem discutir, sem problemas. A resposta pra esse meu pedido foi colocar as 22 pessoas que viviam comigo e mais umas outras que estavam ali na casa no dia na minha frente numa reunião geral. Descer uma enxurrada de argumentos, aos quais eu não estava afim de responder. Esquentaram meu psicológico até eu não aguentar mais. Eu só chorava, queria sair dali, sem problemas, sem mal-estar. As pessoas ali me olhavam com cara de “coitada, desistiu!”, e a cúpula, mais precisamente Lenissa e Mari, com uma certa cara de que eu era lamentável, falando com arrogância (…) De verdade, eu mal me lembro do que me disseram naquela noite. Eu só queria sair dali e me mantiveram ali, como se eu tivesse que bater cartão pra galera, já que eu estava saindo. Fizeram isso comigo porque eu não tava saindo de lá sabendo de nada demais que pudesse comprometê-los. Eu era só um peão ali dentro. Quem sabia muito, eles fizeram sair na surdina. Da noite pro dia, como rolou com muita gente que ainda não se sentiu à vontade pra falar, mas que, com certeza, tem muito mais que eu pra contar. A mim me colocaram diante de todos ali que eram meus amigos, até então alguns bem próximos, e perguntaram: “Por que você tá saindo, Laís?” Eles sabem que o estado em que eu me encontrava, psicológica e emocionalmente, não daria condições para que eu contra-argumentasse e puxasse um debate coletivo ali. Hoje, como diriam os Doces Bárbaros, de “pé quente e com a cabeça fria”, eu lhes dou essa resposta.

A última fala daquela conversa foi, obviamente, do Capilé: “Laís, independente de qualquer coisa, a gente vai se cruzar por aí, tenho certeza”. E, sim, Capilé, é aqui que a gente tá se cruzando de novo. Eu aqui, você aí.”
Laís Bellini 

10/08/2013

 

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Cineasta rompe o silêncio e denuncia como trabalha o “Fora do Eixo”, a seita que está na raiz da “Mídia Ninja”: ela acusa a exploração de mão de obra similar à escravidão, a apropriação indébita do trabalho alheio e ódio à cultura e aos artistas



Por Reinaldo Azevedo

Beatriz Seigner: cineasta rompe o silêncio e denuncia os métodos com os quais operam o Fora do Eixo e Pablo Capilé


Beatriz Seigner é cineasta (“Bollywood dreams — Sonhos bollywoodianos”). Uma rápida pesquisa no Google indica a sua intimidade com a área. Ela postou no Facebook um impressionante depoimento sobre a sua experiência com o tal “Fora do Eixo” — a ONG (ou sei lá que nome tenha) comandada por Pablo Capilé, o chefão do grupo que está na origem da tal “Mídia Ninja”, que vem sendo reverenciada por alguns bobalhões da imprensa como a nova, moderna e mais aguda expressão do jornalismo.
O depoimento é longuíssimo, mas vale a pena ler. Beatriz sustenta, e os fatos que ela elenca parecem lhe dar razão, que o tal Capilé é uma espécie de chefe de uma seita. O jornalismo investigativo, se quiser, pode fazer a festa. A Mídia Ninja — que parecia tanger todas as cordas do lirismo, coisa de jovens ousados dispostos a afrontar os limites do conservadorismo —, como se pode depreender do texto de Beatriz, é uma máquina ideológica muito bem organizada, azeitada, que obedece ao comando político de um líder acima de qualquer questionamento: Capilé.
Em seu depoimento, Beatriz acusa o Fora do Eixo — que não tem existência legal e não pode, portanto, ser acionado na Justiça — de: - apropriar-se indevidamente do trabalho dos artistas; - de explorar uma forma moderna — ou “pós-moderna” — de mão de obra escrava; - de passar a patrocinadores públicos e privados informações falsas sobre a real dimensão do Fora do Eixo; - de ameaçar as pessoas que tentam se desligar do grupo.
Uma seita Eu, confesso, ignorava — e não havia lido isso em lugar nenhum — que o Fora do Eixo mantém “casas”, onde, vejam só, moram pessoas mesmo, mais ou menos como essas seitas religiosas que estimulam os jovens a abandonar a família.
Segundo Beatriz, esses moradores não recebem salário nenhum — vivem com o que lhes fornece o “coletivo” — e se dedicam integralmente ao Fora do Eixo: não têm individualidade, não assinam seus trabalhos, não põem sua marca pessoal em nada. Se deixam a casa, saem sem nada.
Isso tem explicação. A cineasta acusa Capilé de ter enorme desprezo pela arte e pelos artistas — parece que esse rancor é especialmente devotado aos livros (“uma tecnologia ultrapassada”), em particular aos clássicos. Os abduzidos do Fora do Eixo, que entregam graciosamente a sua mão de obra a Capilé, não têm tempo de usufruir de bens culturais nem acham isso necessário: tudo pela causa.



                      
Capilé: incentivador da cultura ou chefe de uma seita que explora trabalho similar à escravidão?

Neste primeiro post (ainda volto ao assunto), seleciono alguns trechos do depoimento de Beatriz. Leiam. É estarrecedor.
O primeiro contato com o “Fora do Eixo” Conheci um representante da rede Fora do Eixo durante um trajeto de ônibus do Festival de Cinema de Gramado de 2011, onde eu havia sido convidada para exibir meu filme “Bollywood Dream – O Sonho Bollywoodiano” e ele havia sido convidado a participar de um debate sobre formas alternativas de distribuição de filmes no Brasil. Meu filme havia sido lançado naquele mesmo ano no circuito comercial de cinemas, em mais de 19 cidades brasileiras, distribuído pela Espaço Filmes, e o rapaz me contava de como o Fora do Eixo estava articulando pela internet os cerca de 1000 cineclubes do programa do governo Cine Mais Cultura, assim como outros cineclubes de pontos de cultura, escolas, universidades, coletivos e pontos de exibição alternativos, que estavam conectados à internet nas cidades mais longínquas do Brasil, para fazerem exibição simultânea de filmes com debate tanto presencialmente, quanto ao vivo, por skype. Eu achei a ideia o máximo. Me disponibilizei, a mim e ao meu filme para participar destas exibições (…)
Remuneração? Com relação à remuneração eles me explicaram que aquele ainda era um projeto embrionário, sem recursos próprios, mas que podiam pagá-lo com “Cubo Card”, a moeda solidária deles, que poderia ser trocada por serviços de design, de construção de sites, entre outras coisas. Já adianto aqui que nunca vi nem sequer nenhum centavo deste cubo card, ou a plataforma com ‘menu de serviços’ onde esta moeda é trocada. E fiquei sabendo que algumas destas exibições com debate presencial no interior de SP seriam patrocinadas pelo SESC – pois o SESC pede a assinatura do artista que vai fazer a performance ou exibir seu filme nos seus contratos, independente do intermediário. E só por eles pedirem isso é que fiquei sabendo que algumas destas exibições tinham sim, patrocinador. Fui descobrir outros patrocinadores nos pôsteres e banners do Grito Rock de cada cidade. Destes eu não recebi um centavo.
Os sustos de Beatriz Meu primeiro susto foi quando perguntaram se podiam colocar a logomarca deles no meu filme – para ser uma ‘realização Fora do Eixo’, em seu catálogo. Eu disse que o filme havia sido feito sem nenhum recurso público e que a cota mínima para um patrocinador ter sua logomarca nele era de 50 mil reais. Eles desistiram.
O segundo susto veio justamente na exibição com debate em um SESC do interior de SP, quando recebi o contrato do SESC, e vi que o Fora do Eixo estava recebendo por aquela sessão, em meu nome, e não haviam me consultado sobre aquilo. Assinei o contrato minutos antes da exibição e cobrei do Fora do Eixo aquele valor descrito ali como sendo de meu cachê, coisa que eles me repassaram mais de 9 meses depois, porque os cobrei, publicamente.
O terceiro susto veio quando me levaram para jantar na casa da diretora de marketing da Vale do Rio Doce, no Rio de Janeiro, onde falavam dos números fabulosos (e sempre superfaturados) da quantidade de pessoas que estavam comparecendo às sessões dos filmes, aos festivais de música, e do poder do Fora do Eixo em articular todas aquelas pessoas em todas estas cidades. Falavam do público que compareciam a estas exibições e espetáculos como sendo filiados a eles. Ou como se eles tivessem qualquer poder sobre este público.
O mundo do pensador Capilé. Ou: Ele precisa de duto, de esgoto Foi aí que conheci pela primeira vez o Pablo Capilé, fundador da marca/rede Fora do Eixo (…). Até então haviam me dito que a rede era descentralizada, e eu havia acreditado, mas imediatamente, quando vi a reverência com que todos o escutam, o obedecem, não o contradizem ou criticam, percebi que ele é o líder daqueles jovens e que, ao redor dele, orbitavam aqueles que eles chamam de “cúpula” ou “primeiro escalão” do FdE.
(…) Capilé dizia que não deveria haver curadoria dos filmes a serem exibidos neste circuito de cineclubes (…) e que ele era contra pagar cachês aos artistas, pois, se pagasse, valorizaria a atividade dos mesmos e incentivaria a pessoa “lá na ponta” da rede, como eles dizem, a serem artistas e não “DUTO”, como ele precisava. Eu perguntei o que ele queria dizer com “duto”, ele falou sem a menor cerimônia: “Duto, os canos por onde passam o esgoto”.
Eu fiquei chocada. Não apenas pela total falta de respeito por aqueles que dedicam a maior quantidades de horas de sua vida para o desenvolvimento da produção artística (e, quando eu argumentava, isso ele tirava sarro dizendo “todo mundo é artista”’ao que eu respondia “todo mundo é esportista também”) (…)
Ódio à cultura e aos livros E o meu choque, ao discutir com o Pablo Capilé, foi ver que ele não tem paixão alguma pela produção cultural ou artística, que ele diz que ver filmes é “perda de tempo”, que livros, mesmo os clássicos (que continuam sendo lidos e necessários há séculos), são “tecnologias ultrapassadas” e que ele simplesmente não cultiva nada daquilo que ele quer representar. Nem ele nem os outros moradores das casas Fora do Eixo (já explico melhor sobre isso).
Ou seja, ele quer fazer shows, exibir filmes, peças de teatro, dança, simplesmente porque estas ações culturais/artísticas juntam muita gente em qualquer lugar, que vão sair nas fotos que eles tiram e mostram aos seus patrocinadores dizendo que mobilizam “tantas mil pessoas” junto ao poder público e privado, e que por tanto, querem mais dinheiro, ou privilégios políticos.
A manipulação Vejam que esperto: se Pablo Capilé disser que vai falar num palanque, não iria aparecer nem meia-dúzia de pessoas para ouvi-lo, mas se disserem que o Criolo vai dar um show, aparecem milhares. Ou seja, quem mobiliza é o Criolo, não ele. Mas, depois, ele tira as fotos do show do Crioulo, e vai na Secretaria da Cultura dizendo que foi ele e sua rede que mobilizou aquelas pessoas. E assim, consequentemente, com todos os artistas que fazem participação em qualquer evento ligado à rede FdE. Acredito que, como eu, a maioria destes artistas não saiba o quanto Pablo Capilé capitaliza em cima deles e de seus públicos.
As planilhas [Capilé] diz que as planilhas do orçamento do Fora do Eixo são transparentes e abertas na internet, sendo isso outra grande mentira deslavada — tais planilhas não se encontram na internet, nem os próprios moradores das casas Fora do Eixo as viram ou sabem onde estão. Em recente entrevista no Roda Viva, Capilé disse que arrecadam entre 3 e 5 milhões de reais por ano. Quanto disso é redistribuído para os artistas que se apresentam na rede? O último dado que tive é que o Criolo recebia cerca de 20 mil reais para um show com eles, enquanto outra banda desconhecida não recebe nem 250 reais, na casa FdE São Paulo.
Os patrocinadores Mas seria extremamente importante que os patrocinadores destes milhões exigissem o contrato assinado com cada um destes artistas, baseado pelo menos no mínimo sindical de cada uma das áreas, para ter certeza de que tais recursos estão sendo repassados, como faz o SESC.
A seita tem “casas”. Ou: Trabalho similar à escravidão? Depois desse choque com o discurso do Pablo Capilé, ainda acompanhei a dinâmica da rede por mais alguns meses (foi cerca de 1 ano que tive contato constante com eles), pois queria ver se esse ódio que ele carrega contra as artes e os artistas era algo particular dele, ou se estendia à toda a rede. Para a minha surpresa, me deparei com algo ainda mais assustador: as pessoas que moram e trabalham nas casas do Fora do Eixo simplesmente não têm tempo para desfrutar os filmes, peças de teatro, dança, livros, shows, pois estão 24 horas por dia, 7 dias por semana, trabalhando na campanha de marketing das ações do FdE no Facebook, Twitter e demais redes sociais.
E como elas vivem e trabalham coletivamente no mesmo espaço, gera-se um frenesi coletivo por produtividade, que, aliado ao fato de todos ali não terem horário de trabalho definido, acreditarem no mantra “trabalho é vida” e não receberem salário — e, portanto, se sentirem constantemente devedores ao caixa coletivo, da verba que vem da produção de ações que acontecem “na ponta”, em outros coletivos aliados à rede — faz com que simplesmente, na casa Fora do Eixo em São Paulo, não se encontre nenhum indivíduo lendo um livro, vendo uma peça, assistindo a um filme, fazendo qualquer curso, fora da rede. Quem já cruzou com eles em festivais nos quais eles entraram como parceiros sabem do que estou falando: eles não entram para assistir a nenhum filme, nem assistem/participam de nenhum debate que não seja o deles. O que faz com que, depois de um tempo, eles não consigam falar de outra coisa que não seja deles mesmos. (…)
Expropriação do trabalho (…) reparei que aquela massa de pessoas que trabalham 24 horas por dia naquelas campanhas de publicidade das ações da rede FdE não assinam nenhuma de suas criações: sejam textos, fotos, vídeos, pôsteres, sites, ações, produções. Pois assinar aquilo que se diz, aquilo que se mostra, que se faz, ou que se cria é considerado “egóico” para eles. Toda a produção que fazem é assinada simplesmente com a logomarca do Fora do Eixo, o que faz com que não saibamos quem são aquele exercito de criadores, mas sabemos que estão sob o teto e comando de Pablo Capilé, o fundador da marca.
Sem existência legal (…) a marca do fora do Eixo não está ligada a um CNPJ, nem de ONG, nem de Associação, nem de Cooperativa, nem de nada — pois, se estivesse, ele [Capilé] seguramente já estaria sendo processado por trabalho escravo e estelionato (…) por dezenas de pessoas que passaram um período de suas vidas nas casas Fora do Eixo e saem das mesmas ao se deparar com estas mesmas questões que exponho aqui, e outras ainda mais obscuras e complexas.
Os escravos (…) o que talvez seja mais grave: os que moram nas casas Fora do Eixo abdicam de salários por meses e anos — e, portanto, não têm um centavo ou fundo de garantia para sair da rede. Também não adquirem portfólio de produção, uma vez que não assinaram nada do que fizeram lá dentro – nem fotos, nem cartazes, nem sites, nem textos, nem vídeos. E, portanto, acabam se submetendo àquela situação de escravidão (pós)moderna simplesmente porque não veem como sobreviver da produção e circulação artística fora da rede.
Capilé incentiva que se abandone a universidade Muitas destas pessoas são incentivadas pelo próprio Pablo Capilé a abandonar suas faculdades para se dedicarem integralmente ao Fora do Eixo. Quanto menos autonomia intelectual e financeira estas pessoas tiverem, melhor para ele.
Medo da retaliação: o poder de Capilé E, quando algumas destas pessoas conseguem sair, pois têm meios financeiros independentes da rede FdE para isso, ficam com medo de retaliação, pois veem o poder de intermediação que o Capilé conseguiu junto ao Estado e aos patrocinadores de cultura no país, e temem ser “queimados” com estes. Ou mesmo sofrer agressões físicas. Já três pessoas me contaram ouvir de um dos membros do FdE, ao se desligarem da rede, ameaças tais quais “você está falando demais, se estivéssemos na década de 70 ou na Faixa de Gaza, você já estaria morto/a.” Como alguns me contaram, “eles funcionam como uma seita religioso-política, tem gente ali capaz de tudo” na tal ânsia de disputa por cada vez mais hegemonia de pensamento, por popularidade e poder político, capital simbólico e material, de adeptos. Por isso se calam. (…)

08.08.2013