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sexta-feira, 22 de junho de 2012

Lugo recorre à Justiça para adiar julgamento; votação de impeachment segue o previsto na Constituição paraguaia


Por Reinaldo Azevedo

O governo do Paraguai anunciou na madrugada que o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, recorrerá nesta manhã à Justiça para tentar impedir que o Senado vote ainda hoje o seu impeachment.

Entrará com uma “ação de inconstitucionalidade” afirmando que, em razão do tempo exíguo, está tendo cerceado o seu direito de defesa.

Vamos ver.

É boa a chance de que consiga, até porque a Justiça deve levar em conta a forte pressão dos países da Unasul, cuja presidência rotativa está justamente com o Paraguai.

Sustentar que está em curso um golpe no Paraguai é conversa de tolos ou de oportunistas.

O governo brasileiro entrou nessa.

Segundo qual critério?

Reconhece os termos da Constituição daquele país e os poderes do seu Parlamento ou não?

Mais tarde, voltarei ao tema.

Os ditos “governos populares” da América Latina agora deram para chamar as instituições democráticas de “golpistas” quando elas lhes põem freios.
Os militares de antigamente rasgavam as leis no continente em nome da ordem.

Os populistas pretendem rasgá-las em nome do povo.


É até desejável que Lugo ganhe mais tempo para a sua defesa.

Mas que fique claro: o Parlamento não está transgredindo uma só linha da legalidade.

Quem o fez, infelizmente, foi o presidente ao tolerar a ação de bandidos disfarçados de camponeses que lutam por terra.

Segue o texto que escrevi às 21h05 de ontem.
*

A Unasul, com o Brasil à frente, se mobiliza para tentar impedir o impeachment do presidente do Paraguai, Fernando Lugo.

O governo brasileiro, como é regra em matéria de política externa desde a gestão de Celso Amorim, está indo além de suas sandálias.

É até provável que o impedimento do ex-padre, que sempre foi muito pouco pio, não seja a melhor coisa para o país. O risco de aumentar a instabilidade é grande.

Mas é evidente que o governo brasileiro erra e exagera ao chamar a possibilidade de impeachment de “golpe”.

Não é!


A abertura de um processo de impeachment foi aceita pela Câmara por 76 a 1 (!!!), e agora cabe ao Senado conduzir o julgamento político, conforme estabelece a Constituição do país.

O impedimento pode ser aprovado ou recusado.

Caso se dê a primeira hipótese, assume o vice.

Cadê o golpe?


Não há, até agora, a menor evidência de que se tenha negado ao presidente o direito de defesa.

Impeachment, afinal de contas, já houve no Brasil, não é mesmo? Tirou do poder o presidente Fernando Collor de Mello.


Aliás, fosse a Constituição paraguaia igual à nossa, Lugo já teria sido afastado.

Por aqui, basta que se abra o processo na Câmara para afastar o mandatário.

É compreensível que os países da Unasul se mobilizem, acompanhem o processo, verifiquem se o direito de defesa está sendo respeitado etc. Mas não mais do que isso.

Países têm as suas leis.

O Brasil resolveu enroscar, com justa razão, com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que pediu a suspensão da construção de Belo Monte.

Não aceita esse tipo de ingerência.

É descabido que tente dar um murro na mesa e decidir o destino de Lugo em lugar no Congresso paraguaio.

Isso, sim, seria um “golpe”.

E dado por país estrangeiro!

Lugo, o desastrado

Um confronto entre sem-terra paraguaios e as forças de segurança deixou 17 mortos na sexta-feira passada em Curuguaty, a 250 km de Assunção. Policias desarmados foram garantir a reintegração de posse de uma área invadida e foram recebidos a bala. Seis policiais desarmados foram assassinados pelos ditos sem-terra. Na reação, as forças de segurança mataram 11 homens que lutavam ao lado dos invasores.

A exemplo do que acontece no Brasil, os sem-terra paraguaios pertencem a uma organização paraoficial. Lugo mantém estreita ligação com os líderes do movimento, que cobram dele, no entanto, ações mais radicais em favor do que entendem ser a reforma agrária necessária.

Querem o que chamam “fim do latifúndio” e a divisão das propriedades produtivas.

A Via Campesina — que ajudou a depredar o estande da CNA na Rio+20 — está lá, com os “companheiros paraguaios”.

Lugo não endossa explicitamente a violência dos sem-terra, mas também tem sido frouxo na repressão às ações do grupo.

Os chamados “brasiguaios” — agricultores brasileiros que prosperaram no Paraguai — estão entre os alvos da turma.

Já se detectou a presença de “sem-terra” brasileiros lutando contra os brasiguaios.

No Paraguai, o sonho de muitos dos nossos extremistas se realizou: os sem-terra se armaram para valer e travam suas disputas a bala.

O prolífico ex-padre (Lugo já reconheceu dois filhos, concebidos na vigência de seu voto de castidade), que se dividia entre o púlpito e o leito pouco casto com impressionante desenvoltura, sonhou fazer a mesma coisa na política: foi eleito para defender as leis e a Constituição, mas deu guarida a um movimento violento, que invade propriedades produtivas, mata e pratica atos explícitos de terrorismo para fazer “justiça social”.

O resultado se conta em mortos.

Cá no meu tribunal pessoal, merece o impeachment por ser o responsável último pela elevação de tensão no campo e por ter usado o espaço legal e institucional de que dispõe para solapar a legalidade e a institucionalidade.
Mas é o Senado paraguaio que vai decidir.

E vai decidir segundo a Constituição.

A menos que Dilma Rousseff, por intermédio de Antônio Patriota, dê um golpe no Parlamento do país.
22/06/2012

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Parlamentares paraguaios abrem processo de impeachment



São cinco as acusações contra o presidente, e o resultado será conhecido na tarde desta sexta-feira (22), em uma ação considerada pelos movimentos sociais um golpe de estado

JOSÉ ROBERTO BURNIER Assunção
JN

O Congresso do Paraguai aprovou e deu início ao processo de impeachment do presidente Fernando Lugo.

Tudo em um único dia.

São cinco as acusações contra o presidente, e o resultado será conhecido na tarde desta sexta-feira (22), em uma ação considerada pelos movimentos sociais um golpe de estado.

A votação na Câmara dos Deputados foi pela manhã; 76 foram a favor da abertura do processo, inclusive do Partido Liberal, que integrava a coalizão do governo.

Somente uma deputada apoiou o presidente.

Os deputados acusaram Fernando Lugo de mau desempenho das funções e de ser responsável pelos confrontos entre policiais e sem terra na semana passada, que deixaram 17 mortos.

Minutos depois da votação na Câmara, Lugo fez um pronunciamento pela TV.

Afirmou que não irá renunciar e que enfrentará o julgamento político. Acusou os deputados de não respeitarem a decisão do povo, que o elegeu em 2008, prometendo uma ampla reforma agrária.

À tarde, foi a vez de o Senado se reunir e estabelecer as regras do processo, que começou na noite desta quinta-feira (21) com a acusação formal pelos deputados. Nesta sexta, Lugo terá duas horas para se defender antes da votação do processo que pede o impeachment dele.

Todo o Congresso paraguaio foi cercado por quatro mil policiais. Na frente, integrantes de movimentos sociais e organizações trabalhistas se agruparam para fazer uma vigília de apoio ao presidente.

Líderes dos sem terra, sindicatos e organizações civis acusam o Congresso de tentar um golpe de estado disfarçado, já que a oposição domina amplamente o Legislativo. As Forças Armadas divulgaram um comunicado garantindo o respeito à Constituição. Cinco ministros do Partido Liberal já entregaram os cargos.

A crise no Paraguai também foi discutida na Rio+20 pelos integrantes da União das Nações Sul-Americanas (Unasul). No encontro convocado pela presidente Dilma Rousseff, ficou decidido que os ministros das Relações Exteriores dos 12 países do bloco chegarão ainda nesta quinta ao Paraguai.

“Os presidentes expressaram sua convicção de que se deve preservar a estabilidade e o pleno respeito à ordem democrática do Paraguai, observado o pleno cumprimento dos dispositivos constitucionais e assegurado o direito de defesa e o devido processo”, declarou o ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota.

Na sexta-feira passada, 400 policiais cumpriam uma ordem da Justiça para desocupar uma fazenda invadida por sem-terra em Curuguaty, a 130 quilômetros da fronteira com o Brasil. As imagens do canal de TV paraguaio Telefuturo mostram policiais avançando. Em seguida, começam os disparos. Os policiais gritam e se jogam no chão.

De acordo com a promotoria, os camponeses estavam com armas de guerra e bombas caseiras. O confronto provocou críticas violentas da oposição e levou à demissão do ministro do Interior e do chefe de polícia.

Nesta quarta, Fernando Lugo disse que abriria uma investigação para saber o que levou a morte dos seis policiais e 11 sem-terra.

Mas não foi suficiente para evitar o processo.
21/06/2012

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A doença imaginária de Cristina Kirchner comprova que, para os populistas sul-americanos, câncer é cabo eleitoral




Direto ao Ponto



Depois de garantir a reeleição com a beatificação do marido morto, dezenas de modelitos pretos e a cara de choro de quem enviuvou ainda no berço, Cristina Kirchner resolveu aterrissar espetacularmente no clube dos governantes domadores de cânceres, fundado e dirigido por Hugo Chávez. “Exames de rotina, realizados no dia 22, localizaram um carcinoma papilar no lóbulo direito da glândula tireoide, e a presidente será operada no próximo dia 4 de janeiro”, comunicou em 28 de dezembro o porta-voz da Casa Rosada, Alfredo Scoccimarro, tentando dissimular a animação de quem sabe que, na terra do tango, tragédia dá voto.

Nos anos 50, Juan Domingo Perón prolongou a permanência no poder expondo à visitação pública uma Evita em ruínas e, depois, o cadáver da protetora dos descamisados.

Cristina foi mais ousada: em vez de explorar a doença dos outros, optou por um câncer pessoal e intransferível.

Deu certo.


Em vigília permanente, milhares de devotos atravessaram a semana passada acampados na Plaza de Mayo. Sobraçando faixas com a inscrição Fuerza Cristina, cantaram hinos peronistas, rezaram e choraram. Para a seita dos loucos por um martírio, foi um reveillon de sonho.

Excitado com o ingresso de Cristina Kirchner no quadro de sócios, que já incluía o cubano Fidel Castro, os brasileiros Lula e Dilma Rousseff e o paraguaio Fernando Lugo, o chefe da entidade informou que a primeira reunião da turma seria realizada assim que a companheira argentina tivesse alta.

E aproveitou a oportunidade para assombrar o mundo com a revelação: as enfermidades que andam surpreendendo governantes sul-americanos são coisa dos ianques. 


Mais precisamente da CIA, que teria descoberto como se faz para instalar tumores malignos em defensores do povo. 

 
O entusiasmo de Chávez contagiou o amigo Lula.

Ainda no meio do tratamento, o ex-presidente brasileiro reiterou que, em fevereiro, vai desfilar no Sambódromo a bordo de um carro alegórico da Gaviões da Fiel.

Também avisou que, em março, já com a faixa de campeão do Carnaval de São Paulo, homenageará o Rio com uma visita ao Morro do Alemão.

Dilma, Lugo e Fidel estavam prontos para entrar na festa desencadeada pela tireoide de Cristina quando se soube que a colega argentina só esqueceu de combinar com os médicos.

Ao fim da cirurgia de três horas, só foi encontrado um único e escasso tumor benigno.

“O exame histopatológico definitivo constatou a presença de nódulos nos dois lóbulos da glândula tireoide, mas descartou células cancerígenas, alterando o diagnóstico inicial”, conformou-se o porta-voz Scoccimarro, esforçando-se para conter a decepção.

“O novo diagnóstico levou os médicos a considerarem desnecessário o tratamento de quimioterapia”.

Durante quase dez dias, portanto, Cristina Kirchner enfrentou bravamente um câncer imaginário. Quem conta com a proteção do Beato Néstor vence quaisquer inimigos. Mesmo os que não existem.


No mundo civilizado, enquanto milhares de cientistas perseguem a cura da doença, incontáveis pacientes famosos ou anônimos enfrentam tumores malignos com coragem e discrição.

No subcontinente acanalhado pelo primitivismo populista, o espetáculo deprimente protagonizado por canastrões de bolero, heróis de chanchada e prima-donas de ópera demonstra que gente obcecada pelo poder transforma até câncer em cabo eleitoral.

09/01/2012