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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Charge







Sponholz

Bom conselho...




terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Elefante branco




Por Dora Kramer
O Estado de S.Paulo


Nunca tantos ficaram tão acabrunhados nas eleições para as presidências da Câmara e do Senado.

Constrangimento insuficiente para gerar reação em prol de um Poder Legislativo melhor, mas um desconforto evidente resumido na frase precisa do deputado Chico Alencar: "O Parlamento está mal".

Nem no PMDB o clima é de regozijo com o acúmulo de tanto poder: as presidências das duas Casas e a Vice-Presidência da República.

O partido gosta da posição, é claro, mas há muita gente ali percebendo que talvez não valha a pena o preço de ter um presidente do Senado com extenso telhado de vidro e um presidente da Câmara que nem de longe pode representar alguma expectativa de novos ares.

Os adversários Rose de Freitas (47 votos), Julio Delgado (165) e Chico Alencar (11) dedicaram um bom tempo de seus discursos às razões que rebaixam o Congresso na escala das instituições avaliadas em pesquisas de opinião.

Já o vitorioso Henrique Eduardo Alves (271 votos) fez de conta que o mar está para peixe. Reconheceu um erro aqui, outro ali - omissão no exame dos vetos presidenciais e nas regras para distribuição do Fundo de Participação dos Estados.

Preferiu falar de questões internas: distribuição mais igualitária de relatorias, obrigatoriedade na liberação de recursos de emendas individuais ao Orçamento e, em homenagem ao corporativismo explícito, propor uma TV Câmara "menos TV e mais Câmara", que deixe de lado evidências como plenário vazio e se dedique a divulgar as andanças dos deputados em seus Estados.

A ética celebrada ontem foi aquela da palavra firme dos partidos no cumprimento dos acertos entre bancadas.

Pronunciamento que torna a vitória autoexplicativa e não autoriza nenhuma esperança de que o Congresso consiga ao menos em breve, apesar do acentuado desconforto com a situação, reunir forças para enfrentar temas que poderiam ajudar na recuperação da credibilidade da instituição.

Três exemplos: fim dos 14º e 15º salários, fim do voto secreto para cassação de mandatos (propostas já aprovadas pelo Senado) e uma reforma política que reformule de verdade os meios e modos da relação entre representantes e representados.

A julgar pelos balanços das respectivas gestões feitos nas despedidas do senador José Sarney e do deputado Marco Maia, o Congresso tem atuado com extraordinária eficiência e decência. Ambos atribuíram a crescente opinião negativa do público em relação ao Parlamento a "injustiças e incompreensões" resultantes da "transparência" do Poder Legislativo.

O tipo do autoengano que não engana ninguém e, sobretudo, não devolve a estatura que deveria ter o ambiente onde se reúnem as pessoas eleitas para legislar, fiscalizar os atos do Executivo, debater os problemas nacionais.

Em suas despedidas Sarney e Maia saudaram enfaticamente os avanços tecnológicos ocorridos na Câmara e no Senado, sentindo-se, por isso, modernos e dignos de elogios.

Quanto a práticas que fazem a política brasileira permanecer atolada no atraso, não há informatização que dê jeito nem evite que a atual sessão legislativa comece velha, desgastada e, a despeito da desfaçatez da maioria, faça do Legislativo um poder combalido, envergonhado de si.

E nisso está coberto de razão.

Mão do gato. Nem bem assumiu a presidência do Senado, na sexta-feira, Renan Calheiros deixou de lado a discrição e tentou influir na escolha do líder do PMDB na Câmara.

Juntou-se a Jader Barbalho e José Sarney para trabalhar por Sandro Mabel - que acabou perdendo para Eduardo Cunha - e conseguiu virar votos no Maranhão e no Pará, reduzindo a votação de Cunha.

A ofensiva aumentou a tensão na bancada, expressa no resultado apertado, 46 votos a 32, de um PMDB onde começa de novo a se corroer a unidade interna já na perspectiva de 2014.

05 de fevereiro de 2013

Renan ouve xingamentos e encara protestos de manifestantes no Congresso


Durante cerimônia de abertura dos trabalhos legislativos, o presidente do Senado Renan Calheiros ouvir uma série de insultos enquanto se encaminha para subir a rampa do Congresso Nacional.



O senador teve que passar ao lado de manifestantes que exibiam cartazes com os dizeres “Congresso, vergonha nacional” e “Fora Renan”.

Além disso, ainda ouviu xingamentos como “ladrão” e “sem vergonha”.









segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

MP de São Paulo recebe nesta segunda acusações que Marcos Valério faz a Lula. Ou: O dia em que Marilena Chaui comparou o Apedeuta a uma deusa grega




                                            Por Reinaldo Azevedo
O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, encaminha nesta segunda à seção paulista do Ministério Público Federal as acusações que o empresário Marcos Valério, principal operador do mensalão, faz a Lula. Não é pouca coisa. Valério não só diz que o Apedeuta sabia de tudo e sempre esteve no controle do mensalão como sustenta que foi um dos seus beneficiários. O dinheiro para seu uso pessoal teria sido depositado na conta do faz-tudo Freud Godoy. Com efeito, a CPI dos Correios encontrou repasse da agência de Valério para  o carregador de malas.
Muito bem! O procurador que receber o papelório vai decidir se abre investigação ou se pede o arquivamento do caso. Os petistas tratam como um atentado à democracia a possibilidade de Lula vir a ser investigado e se tornar réu numa ação criminal.
Há nisso muito de politicagem vulgar, mas também há uma espécie de crença, em vários setores do PT, na infalibilidade de Lula, quem sabe na sua divindade. E ele não faz por menos, como é sabido: expõe-se à adoração. Tivesse atravessado o Mar Vermelho com Moisés, não duvidem: teria liderado a turba contestadora, impaciente com a demora do Patriarca, e seria o primeiro a propor um de ídolo de ouro: em vez do bezerro, ofereceria a si mesmo como modelo. Se não conseguisse destituir Deus, daria um jeito de, quando menos, tirar Moisés da história…
Não pensem que isso começou com o, como chamarei?, “petismo popular”. De jeito nenhum! O povo é muito menos mistificador do que aqueles que se dizem “intelectuais petistas”, essa contradição dada pelos termos. Contradição? Não pode haver petista culto? Claro que sim! Eu me refiro a “intelectuais” como pessoas comprometidas com a ciência e com o pensamento. Ou bem se busca servir à verdade ou bem se busca servir a um partido.
Muito bem! Em julho de 2003, Marilena Chaui — uma das inventoras da tese vigarista de que a denúncia do mensalão era uma tentativa de golpe — concedeu uma entrevista à revista Primeira Leitura, que eu dirigia. Conversou com o jornalista Fernando Eichenberg, em Paris. Ele lhe dirigiu, então a seguinte pergunta:
A sra. não acha que Lula despolitiza talvez em demasia sua própria trajetória, repisando o mito do homem milagreiro, do político milagreiro, do evento milagreiro, mais ou menos nos termos pela sra. apontados no livro “Brasil, Mito Fundador e Sociedade Autoritária”?
A resposta de Marilena, aquela que já afirmou que, quando Lula fala, o mundo se ilumina, foi fabulosa.

Ela comparou seu líder à deusa grega Métis (vocês saberão detalhes).

Vale a pena ler a íntegra da resposta.

Volto depois.



* Há no Lula um traço que é a marca ocidental do homem político. Há um trabalho feito nos anos 80, pelo Jean Pierre Vernant, sobre um aspecto da cultura grega clássica, segundo o qual os gregos consideravam a prática, contraposta à inteligência teórica. Essa inteligência prática ficava sob a proteção de uma deusa chamada Métis. As características da pessoa dotada de Métis, ou dessa inteligência prática, eram as seguintes: golpe de vista certeiro, ou seja, ela era capaz de, num único golpe de vista, perceber o todo; tinha o senso da oportunidade, ou o sentimento do kairós, do momento oportuno, em que momento intervir, em que a ação seria eficaz; tinha a capacidade de encontrar ou de criar um caminho onde não havia caminho: diante da aporia, do aporós, abre um caminho; e era dotada da capacidade da espreita, de saber observar de longe, de espreitar e de produzir uma estratégia para intervir.
Os gregos consideravam que havia alguns tipos sociais que eram dotados de Métis: os capitães de navio, os médicos, os caçadores e os estrategistas militares. Mas a figura que reunia todos os traços da Métis, que era a Métis praticamente encarnada, era o político. O homem político grego era dotado dessas características da Métis. Eu considero o Lula um animal político. Na medida em que ele é dotado dessas características que são constitutivas da figura ocidental do político, ele não pode despolitizar, mesmo que ele queira, porque o modo de ver o mundo é um modo político. É vê-lo como totalidade, como tempo aberto, como conjunto de dificuldades e de aporias, como aquilo que se tem de observar e sobre o que se tem de intervir.
Em relação ao discurso do Lula, alguns dizem que é um discurso populista. Ora, o líder populista é aquele que pertence ou à classe dominante ou ao setor aliado da classe dominante. E é aquele que se apresenta para o povo como o protetor, o guardião, como se esse povo fosse imaturo, vivesse na minoridade, incapaz de se conduzir a si mesmo. Isso é o populismo. Nenhuma dessas características se pode atribuir ao Lula. Ele não vem da classe dominante; ele não se dirige a um povo imaturo e incapaz de se dirigir; ele não se propõe a ensinar a esse povo esse bom caminho, porque, se ele tivesse de fazer isso, não teria sido eleito presidente, na medida em que ele é a expressão desse povo. Então, há uma impossibilidade lógica, para usar uma expressão do Paulo Arantes, de que ele seja um líder populista. É dito também que ele é um líder messiânico. O messianismo possui duas grandes características no Brasil. Primeiro, é milenarista, coisa ausente do discurso ou da ação do Lula. A segunda característica é a componente teológico-política, ou seja, de que o governante é um representante de Deus, que ele transcende a sociedade e a controla por mandato divino, o que Lula também não diz.
O fato de que, no discurso, Lula invoque Deus, é porque ele é um homem religioso. Nem é uma invocação ao reino de mil anos de felicidade, produzido pela ação justiceira dos santos, nem é ele representante de Deus na Terra. É má-fé dizer que ele é messiânico, sobretudo porque é chamado de messiânico por quem faz ciências sociais e que, portanto, sabe o que é o messianismo. O Lula tem uma estrutura discursiva que vi sendo empregada por ele desde 1978. É a maneira que tem de se exprimir. Sobretudo, quando se diz que ele improvisa, não lê, vai falando qualquer coisa. Uma vez, conversei com ele, e ele me disse que, para poder realmente se dirigir a um interlocutor, precisa perceber o que o está pensando, sentindo, precisa do olhar do interlocutor. A escrita rompe a relação. Isso é uma das coisas mais definidoras do discurso político, porque é aquele que se dirige diretamente ao outro; não é à toa que a política nasceu na assembleia democrática. O Lula fala a interlocutores determinados, estabelece o vínculo típico de quem fez aprendizado na assembleia, porque é assim que ela funciona. Isso é uma característica muito marcante dele.
Outra coisa é o fato de ele usar metáforas e provérbios. Qualquer um de nós que tenha nascido e vivido no interior do país sabe que o homem do interior, seja o sertanejo ou o caipira paulista, por exemplo, fala por provérbios. A minha bisavó, que era baiana, falava por provérbios e metáforas. O [Monteiro] Lobato, falando do caipira paulista, fala por provérbios. Peguem-se as grandes personagens do Guimarães Rosa, elas falam por sentenças, máximas e provérbios. Isso é constitutivo da cultura popular brasileira. Quando eu era ainda adolescente, li, em algum lugar, o [Jean-Paul] Sartre dizendo que sempre ficou muito impressionado com os provérbios e as máximas populares porque exprimem uma sabedoria pessimista sobre o ser humano. Não necessariamente, mas, de um modo geral, sim. Vou usar um provérbio. O provérbio “é confiar desconfiando”. Há uma maneira popular de se exprimir, universal, e é por provérbios e por máximas. Depois, essa é uma maneira pela qual a cultura popular no Brasil se exprime. Então, tem-se um nordestino, do interior do país, que é formado nessa cultura e exprime por meio dessa cultura. Portanto, dizer que é um discurso imbecilizante, paralisante, estúpido, ignorante, é repetir o preconceito, a exclusão e a divisão levada ao seu extremo. O que se exige dele é que se desfaça do direito de se exprimir a partir de onde se formou. Penso que, das críticas preconceituosas feitas ao Lula, essa tem sido para mim a mais chocante, porque ignora de onde ele veio. Como ele não produz uma frase em francês, um conceito em inglês ou boutade em alemão, diz-se que é um inculto que diz coisas imbecis, quando, na verdade, é uma maneira de organizar o mundo.
É interessantíssimo, porque Guimarães Rosa é valorizadíssimo por ter sabido operar com isso. Aquele mesmo que se desvanece diante do trabalho que Guimarães fez sobre esse modo de falar fica horrorizado quando encontra alguém que fala como o Riobaldo. Acho isso inacreditável. Uma pesquisadora portuguesa fez um estudo sobre as discriminações sociais no Brasil pelo uso dos provérbios, das sentenças e das máximas. Ela diz que a classe dominante se dá o direito de produzir máximas, mas não admite a produção nem de máximas nem de sentenças pelos dominados e repudia os provérbios. Quando se ouve intelectuais de esquerda a dizer isso, dói. Dói no estômago.
Voltei

Marilena, a douta professora de filosofia, como se vê, transforma, literalmente, Lula numa divindade, dotado de um saber natural, que ele extrai das pessoas. Não tendo como negar os aspectos obscurantistas da fala do seu líder, ela os atribui, então, ao “povo”. Tem-se, pois, como corolário, e isto está mais do que sugerido na resposta, que criticar Lula corresponde a rejeitar o próprio povo.
Escrevi, à época, um textinho na revista explicando quem era, afinal, a tal Métis. Reproduzo em azul:
Há algo de curioso, até engraçado, na associação que a professora Marilena Chaui faz entre a deusa Métis e Lula. Talvez seja preciso cavoucar um pouco os simbolismos. Métis é o nome grego de Prudência, a versão latina da deusa que foi a primeira mulher de Zeus (Júpiter). Foi ela quem deu uma poção a Cronos (Saturno), que o fez vomitar, junto com uma pedra, todos os filhos que houvera engolido. Zeus a seduziu. Ao saber que estava grávida e que estava destinada a ter um filho que seria rei dos deuses e dos homens, ele não teve dúvida: engoliu a mulher grávida. Passou mal, com uma terrível dor de cabeça. Pediu a Hefestos (Vulcano) que lhe abrisse o cérebro, e, de dentro, brotou Palas Atena (Minerva), deusa da sabedoria, da guerra, da ciência e das artes, que tomou assento no conselho dos deuses e passou a ser a principal conselheira do pai. O pássaro predileto de Palas Atena é a coruja. Assim como a inteligência ilumina os problemas, os olhos da ave atravessam a escuridão. Se Lula é mesmo Métis, tomara que se deixe “engolir”, no melhor sentido possível, pelas instituições e que seja a democracia o resultado dessa fusão. Por enquanto, o risco de que se torne mero petisco dos antigos vícios políticos parece grande. Por enquanto, como Cronos, Lula só engole os próprios filhos — no pior sentido possível.


Concluindo
Era julho de 2003. Lula estava no poder havia apenas sete meses, e a maquinaria ideológica que tentaria transformá-lo num ente acima da política e das paixões humanas já estava em curso — Primeira Leitura estava atenta a ela.

Naquele primeiro ano de governo, o Apedeuta enfrentava mesmo era a oposição do petismo, e os principais esteios de Antonio Palocci no Congresso, acreditem!, eram o PSDB e o PFL…

Não sem certa razão: os dois partidos resistiam ao PT mais rombudo, que queria fazer bobagem na economia. A oposição fazia bem em dar apoio ao que, afinal, era o mais racional em economia, mas já errava brutalmente ao não politizar as promessas que Lula, felizmente, ia quebrando.
Mas volto a Marilena e ao mito. Aquele que a petista vê como uma divindade está associado ao que há de pior na política brasileira e é, em último caso, o arquiteto da chegada de Renan Calheiros à Presidência do Senado.

Vamos ver se o Ministério Público e a Justiça lhe devolvem a humanidade e o confrontam, finalmente, com parte de sua obra.


03/02/2013



domingo, 3 de fevereiro de 2013

O desastre da indústria



O Estado de S.Paulo

O grande tombo da indústria, principal componente do fiasco econômico do ano passado, está confirmado e medido oficialmente. A produção industrial diminuiu 2,7% em 2012, segundo informou na sexta-feira o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi o primeiro resultado negativo desde o recuo de 7,4% registrado em 2009, quando se manifestaram plenamente, em todo o mundo, os efeitos recessivos do estouro da bolha financeira nos mercados de crédito americano e europeu. Mas a pior parte da notícia é outra. É preciso ir aos detalhes para encontrar o significado econômico da crise industrial brasileira e entender o estrago causado por erros políticos acumulados em muitos anos. Os números de 2012 servem tanto para um exame do passado quanto para uma avaliação dos problemas à frente. O mau desempenho em 2012 limita as possibilidades de crescimento do País em 2013 e nos anos seguintes e impõe desafios enormes ao governo e ao empresariado.

O recuo de 2,7% foi o resultado médio de todo o setor industrial. A produção da indústria extrativa diminuiu apenas 0,3%. A do setor manufatureiro encolheu 2,8%. É esse o canal mais importante de irradiação de tecnologia e de criação de empregos decentes.

É também o mais exposto à concorrência internacional. Quando se decompõe a atividade segundo as categorias de uso, aparece um quadro especialmente sombrio. A produção de bens de consumo diminuiu apenas 1%, porque o governo reduziu impostos sobre veículos e eletrodomésticos e, além disso, o emprego e o poder de compra das famílias permaneceram elevados. A demanda foi em parte suprida por importações competitivas e isso explica o resultado negativo da atividade interna.

Mas a fabricação de bens de capital encolheu 11,8%. Vale a pena, de novo, notar alguns detalhes. A produção de máquinas e equipamentos (nomenclatura do IBGE) recuou 3,6%. A de máquinas para escritório e equipamentos de informática recuou 12,7%. A de máquinas, aparelhos e materiais elétricos caiu 5,4%.

A queda de produção do setor de bens de capital é um péssimo prenúncio. O investimento, como qualquer outro uso de recursos, influencia o crescimento a curto prazo, mas seu efeito mais importante é outro.

O potencial de expansão da economia depende, a médio e a longo prazos, do valor investido em máquinas e equipamentos de vários tipos, em instalações de produção de bens e serviços e em infraestrutura (estradas, portos, armazéns, centrais elétricas, redes de transmissão e distribuição de energia e sistemas de comunicação).

No Brasil, o total do investimento desse tipo, também conhecido como formação bruta de capital fixo, continua inferior a 20% do PIB. Em outros países latino-americanos, está nas vizinhanças de 30%. Na Ásia, há taxas maiores e até próximas de 40%, financiadas principalmente por elevados níveis de poupança interna.

Também é muito importante o dinheiro investido em capital humano, isto é, o dinheiro aplicado nos vários tipos de educação e nos cuidados de saúde. Mas esses valores são raramente explicitados nas contas oficiais do investimento, assim como os recursos destinados à pesquisa e ao desenvolvimento de produtos e processos.

Mas os resultados são facilmente observáveis no desempenho das empresas e das economias nacionais. Em todos esses itens o Brasil fica muito atrás da maior parte dos demais países. Também é preciso levar em conta, naturalmente, a qualidade do investimento, um item quase sempre negligenciado nas avaliações da atividade econômica brasileira. Muito dinheiro perdido em maus projetos e corrupção acaba incluído na conta de investimentos.

Economistas de várias instituições têm estimado em 3,5%, pouco mais ou menos, o potencial de crescimento econômico do Brasil. É um cálculo complicado e impreciso, mas um ponto é indiscutível: o potencial brasileiro, nesta altura, é muito menor que o de outros emergentes. Mas o governo insiste em políticas fracassadas, continuando a atribuir à crise externa e às ações de autoridades estrangeiras (a tal "guerra cambial", por exemplo) os males do Brasil.
03 de fevereiro de 2013


sábado, 2 de fevereiro de 2013

Os verdadeiros culpados da tragédia de Santa Maria



“Culpados não são só os integrantes da banda, nem apenas os empresários gananciosos.
 São o Corpo de Bombeiros de Santa Maria, a prefeitura e o governo do estado.
E a imprensa, o Ministério Público, o Judiciário?

Ninguém frequentou essa boate durante três anos?”


João José Forni *

Passados os primeiros dias de comoção pela tragédia de Santa Maria, é hora de uma reflexão mais racional do episódio e seus desdobramentos. Muita gente tem opinado desde domingo de madrugada. Alguma análises são de especialistas em risco, explosivos e segurança. Cada entrevista reforça a cadeia de erros e omissões que levaram a essa tragédia.

Peritos mostram a inadequação do material utilizado no teto para isolamento acústico, bem como a imprudência de integrantes da banda em brincar com fogo, num ambiente com material inflamável, de fácil combustão, lotado e fechado. Outros aproveitam para tirar um dividendo político, como sempre acontece nas tragédias. Prometem agora “rigorosa” fiscalização nas casas de espetáculos. Chegaram atrasados. Governadores e prefeitos correm para mostrar serviço, após as portas arrombadas. Por que não faziam antes?

Talvez porque suas excelências e demais políticos tenham acordado do pesadelo com as consciências pesadas. Mas, relaxem. Essa pseudopreocupação com a segurança não dura mais de 30 dias. Até chegar outra crise. Daqui a um mês o tema sai de pauta e Congresso, assembleias legislativas ou câmaras de vereadores irão se preocupar com salários, cargos e outras disputas paroquiais. Cada um irá cuidar dos próprios interesses.

Tem sido assim nas tragédias por enchentes, secas, desabamentos. Como no Rio de Janeiro, onde dois anos depois da catástrofe da região serrana, que matou mais de 900 pessoas, 5 mil desabrigados continuam sem teto. E o estado paga aluguel. Sem falar nos prefeitos de algumas cidades que desviaram o dinheiro para os desabrigados. Quem jamais esquecerá essa lamentável tragédia no Sul serão os pais, irmãos, avós, maridos, mulheres e demais parentes de quem ficou preso naquela ratoeira.

Outras análises ou são emocionais, fruto do desespero e revolta dos pais, parentes e amigos dos jovens mortos, e com toda a razão. Ou, da parte de policiais, palpiteiros de plantão e até mesmo de algumas autoridades, são descabidas, porque não tocam no ponto crucial dessa crise. Como aquela boate podia estar funcionando? E não era uma boate de periferia, frequentada pelo Brasil esquecido, que não reverbera na mídia ou nas visitas dos presidentes, quando atingido por tragédias. Era a principal casa de espetáculo noturno de uma cidade de 240 mil habitantes. Todo mundo conhecia e frequentava.

Surpreende, na avaliação das autoridades sobre essa tragédia, o não reconhecimento de que os principais culpados do incêndio e da morte de centenas de jovens, não são só os integrantes da banda, que acabaram presos. E nem apenas os empresários gananciosos. Como tantos outros empresários no país, eles estão se lixando para os consumidores, preocupados apenas em faturar.

Os principais culpados são o Corpo de Bombeiros de Santa Maria, a prefeitura municipal, com toda a rede de fiscalização, e o governo do estado, ou seja, o poder público. A estes compete, em última instância, junto com o Poder Legislativo, regulamentar, criar leis, mas, também, fiscalizar. Eles não arrecadam impostos para isso? Todos eles, juntos naturalmente com os irresponsáveis empresários, são os verdadeiros culpados.

Por que o Corpo de Bombeiros e a prefeitura, principalmente? Eles são responsáveis pela liberação de qualquer estabelecimento comercial na cidade: casas comerciais e de diversões, botecos, lojas etc. A boate estava funcionando com alvará vencido desde agosto. Não poderia estar funcionando, portanto. Se não, vejamos.

Se você hoje quiser abrir legalmente uma lojinha na garagem, precisa de um alvará da prefeitura da cidade e deve instalar equipamentos exigidos pelos bombeiros, além de outros registros. Se você não tiver alvará e os equipamentos anti-incêndio, você pode ser multado ou impedido de funcionar. Fora outras taxas de inscrição, impostos etc. E por que a boate estava irregular, em pleno centro de Santa Maria? Como não era fiscalizada, passou ao largo da prefeitura e do Corpo de Bombeiros. Será que eles tinham conhecimento que o alvará estava vencido. Se sabiam, se omitiram. Se não sabiam, não cumpriam com as obrigações do poder público.

Por trás das tragédias brasileiras, quando se mergulha nas causas, há sempre uma cadeia de erros: irresponsabilidade, descuido, corrupção, omissão do poder público; o consagrado “jeitinho” brasileiro do malandro, que atropela a lei e vai tocando o negócio, faturando, cometendo abusos, até o dia em que a casa cai. Essa boate é o símbolo da irresponsabilidade que campeia em outras Santas Marias pelo país. Ali, não havia nada ético, não se obedecia à lotação permitida; não havia saídas de emergência, tinha obstáculos e atropelos na saída, como testemunham frequentadores. Isso era habitual.

No caso de Santa Maria, a história pregressa não é de hoje. Ali, a ética e a lei eram atropeladas todos os dias. Não se obedecia à lotação permitida; não havia saídas de emergência; havia obstáculos e atropelos na hora de pagar a conta, como testemunham frequentadores; a banda fazia pirotecnia com um teto inflamável. Isso era habitual. Essa boate é o símbolo da irresponsabilidade e de compromisso que campeia em outras Santas Marias pelo país.

É preciso investigar qual a instância da prefeitura liberou essa boate, há três anos. Quando permitiu um salão de shows, para cerca de mil pessoas, funcionar com uma única entrada e saída, sem portas de emergência e janelas. É preciso investigar por que e como foi liberado esse alvará; as relações dos proprietários com as autoridades locais. Quem eram os padrinhos dos empresários? Quem são esses empresários?

Nas crises, vítimas esperam segurança do poder público

O prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer, numa entrevista à CBN, apressou-se em se eximir da responsabilidade, ao atribuir a fiscalização ao Corpo de Bombeiros. O primeiro erro numa crise é querer terceirizar a culpa. O prefeito deve assumir que a prefeitura errou. Sua administração vai ficar marcada na história de Santa Maria, para sempre, pela maior tragédia do Rio Grande do Sul. Na última terça-feira, a Prefeitura de Santa Maria desencavou um decreto antigo, em que, alega, transferiu ao Corpo de Bombeiros a responsabilidade pela fiscalização das casas de espetáculos. O Corpo de Bombeiros recebia verba para isso. E daí? Isso não exime a prefeitura da cidade de responsabilidade.

Nas crises, o que a população espera do poder público é segurança. Segurança que os jovens na boate não tiveram, quando foram lá para se divertir. Não competia a eles, na inocência e despreocupação da juventude e na empolgação do divertimento, fiscalizar a ratoeira em que tinham entrado. Eles pagam impostos. Confiavam que o poder público cumpria sua parte. Mas ele não cumpriu. É muito rápido e implacável em cobrar impostos, mas incompetente em fiscalizar. Essa é a verdade.

Mas há outros culpados na cidade. Será que a imprensa, o Ministério Público, o Judiciário, ninguém frequentou essa boate durante três anos? Se frequentaram, por que nenhum deles denunciou que ali não existia uma boate, mas uma verdadeira armadilha para os frequentadores? Nenhum jornalista investigativo, nenhum promotor, desembargador, juiz, engenheiro, entrou naquela boate em três anos? Alguém teve iniciativa, coragem e discernimento para denunciar? Tão óbvias, agora, são as irregularidades daquele prédio, em pleno centro da cidade…

O que fazia o Corpo de Bombeiros, tão eficiente em salvar pessoas, em outras tragédias; e tão incompetente para evitar a morte de 236 jovens e ferimentos graves em mais de 100, ao se omitir em fiscalizar a segurança daquele local? E agora vem o comandante do Corpo de Bombeiros tentar amenizar o erro e a culpa da corporação, afirmando que aquela porta era adequada para o número de pessoas. Poupe-nos, senhor comandante. Em respeito aos jovens que ali morreram e às suas famílias, pela incompetência de sua corporação. E de todos os que nessa cadeia deveriam ter fiscalizado e fechado aquela arapuca.

Depois da tragédia, aparecem soluções para tudo. Criam-se factóides, como o das prisões dos membros da banda e dos empresários. É certo que também ela foi irresponsável, por brincar com fogo dentro de um tanque de combustível. A banda, como os seguranças, são apenas agentes que contribuíram para acender o pavio de um prédio que estava minado pelos empresários. Se for para prender ou apontar todos os culpados, a polícia de Santa Maria vai ter muito trabalho, muita gente está solta ainda. E provavelmente nunca será presa.


* João José Forni, formado em Letras e Jornalismo, é Mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB) e tem MBA em Gestão Estratégica pela Universidade de São Paulo (USP). Professor universitário, também atua como consultor de comunicação e palestrante. Mantém os sites http://www.jforni.jor.br e http://www.comunicacaoecrise.com.

 02/02/2013


A HORA DA VERDADE!


TRAGÉDIA DE SANTA MARIA

REVISTA VEJA


A reportagem-bomba de Veja em edição especial enfoca uma dramática realidade a partir da tragédia ocorrida em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, conde morreram 235 jovens no incêndio da boate Kiss: "Brasil: um país sem alvará".


A frase da capa da revista resume tudo: "Que em memória dos 235 jovens mortos de Santa Maria façamos um Brasil novo, onde ninguém mais seja vítima do descaso, da negligência, da corrupção de valores e da impunidade."
Acrescento no concerne à "corrupção de valores" e a "impunidade", a maior desgraça que vem sendo cevada no Brasil por conta de uma década de PT no poder.

Basta que recordemos como era o ambiente brasileiro antes da chegada de Lula e seus sequazes ao poder. Eis aí o mote para uma grande reportagem de Veja e também para teses acadêmicas. É um material precioso que pode estar em séries históricas, quem sabe no IBGE e nas secretarias de segurança dos Estados e, quiçá, no próprio Ministério da Justiça.

Outro dado a ser levantado diz respeito ao fato de que várias ações antes levadas a efeito pelos governos federal, estaduais e municipais foram transferidos para as deletérias Organizações Nao-Governamentais, conhecidas por ONGs. Calcula-se, segundo foi veiculado pela imprensa e portanto esse dado tem de ser verificado, a existência de mais de 300 mil ONGs encarregadas de realizar atividades antes restritas à esfera estatal.

Um levantamento nesse sentido não pode prescindir de uma acurada análise sobre o aparelhamento pelo PT de todas as instâncias estatais, seja da administração direta, agências e empresas públicas, abrindo a possibilidade de troca de favores tendo em vista a manutenção do poder. Aliás, isso é público e notório. 

Isto porque esse aparelhamento tem objetivo puramente político, sobretudo o controle por parte do PT e seus esbirros daquelas tarefas que implicam a fiscalização estatal de uma miríade de atividades. Inclui-se aí as inúmeras licenças, os conhecidos "alvarás", documento que só pode ser expedido por ente estatal. 

No que tange à corrupção de valores à qual alude o texto de capa da revista Veja, e que tem sido um tema recorrente em artigos que tenho escrito aqui no blog, à guisa de exemplo, destaco o fato de que além da corrupção dos valores, existe também um trabalho voltado sistematicamente à corrosão e inversão desses valores. O exemplo mais evidente é a política de direitos humanos que é aplicada em favor de delinquentes, em vez de ser dirigida aos cidadãos honestos. 

Tem-se aí a corrosão e inversão completa do Direito e isso, sem qualquer dúvida é uma das causas que contribuem para o aumento inusitado da violência, dos assaltos, assassinatos e do tráfico de drogas, face à flagrante impunidade.

No que concerne a emissão de licenças o foco fica praticamente restrito as tais "licenças ambientais" ou proibição do tabagismo. Eis aí o pensamento politicamente correto em todo seu esplendor. Se o sujeito derrubar uma goiabeira ou detonar um animal peçonhento, corre o risco de multa ou prisão. E, dentro de uma boate pode tudo, com exceção do cigarro de tabaco, enquanto drogas alucinógenas correm soltas. Sem falar nas marchas pela descriminalização dos entorpecentes e outras vadiagens correlatas e que são, lamentavelmente, glamourizadas pela grande mídia totalmente controlada pelos arautos do pensamento politicamente correto, os responsáveis pelo incentivo à desordem e ao desrespeito.

Infelizmente precisou que 235 jovens resultassem mortos para que, de alguma forma, todos esses problemas, que são muito graves, tenham vindo à tona. Não li ainda a reportagem da revista Veja. Vamos ver se evoca esse necessário debate que deve ser pautado prioritariamente nestes dois eixos: a corrupção de valores e a impunidade. 

Por enquanto a grande mídia está comendo apenas pelas beiradas. O que aconteceu em Santa Maria é de absoluta gravidade e é a ponta do iceberg da sacanagem imperante no Brasil sob a égide do governo do PT e seus sequazes. Esta é uma questão urgente que tem de ser levada em consideração para passar o Brasil a limpo, enquanto há tempo. Aqui.

 01.02.2013

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Lula, o fugitivo, foi a Cuba para visitar Chávez, mas só conseguiu ouvir notícias sobre o tiranete





Mal contado
– Desde que seu nome foi envolvido em escândalos de corrupção, o que não é novidade, Luiz Inácio da Silva é um fugitivo da imprensa. Lula, que já declarou que odeia ler, não pode ouvir falar em jornalista.

Até porque, dez entre dez profissionais da imprensa aguardam uma explicação do ex-presidente sobre as denúncias de Marcos Valério acerca do seu envolvimento no Mensalão do PT e escândalo de Rosemary Noronha, sua namorada, que foi flagrada pela Polícia Federal, na Operação Porto Seguro, como membro da quadrilha dos pareceres.

Desde que os escândalos vieram à tona, Lula tem intercalado viagens internacionais como sumiços de encomenda. Depois de refugiar-se no final do ano na casa de praia de um amigo, Lula voltou à cena política, mas não falou com a imprensa.

Para continuar a fuga, o ex-metalúrgico arrumou uma viagem a Cuba, onde, segundo sua assessoria, faria uma vista ao moribundo Hugo Chávez, seu companheiro no esquerdismo barato que sopra na América Latina.

Em Havana, onde cumpriu o obrigatório beija-mão local, Lula visitou o ditador Fidel Castro, reuniu-se com o presidente Raúl Castro – que é igual ou pior que o irmão, participou de cerimônia oficial em homenagem a Jose Martí, discursou na Assembleia local, onde fez críticas aos Estados Unidos, e ouviu dizer que o tiranete venezuelano se recupera bem.

Ora, Lula viaja a Cuba para visitar Hugo Chávez e lá só consegue ouvir dizer que o camarada venezuelano está se recuperando? Há algo estranho nessa história que já se transformou em enredo de filme de terror, a ponto de fazer inveja ao Zé do Caixão. Que Lula queira continuar em fuga é compreensível, porque explicar o inexplicável é complicado, mas melhor seria ter combinado a mentira.

O fato de mais um político ir a Cuba para visitar Chávez e voltar sem vê-lo reforça as especulações de que caudilho bolivariano já mudou de lado há algumas semanas, como noticiou o ucho.info com base em informações de integrantes do serviço secreto de alguns países e ex-agentes da CIA.

Chávez está morto e os sucessores esperam o momento para emplacar o último capítulo da farsa, que é dar posse ao cadáver, evitando assim a convocação de nova eleição na Venezuela.

Bicho criado em casa





Por Dora Kramer
O Estado de S.Paulo

O PT faz acordo para levar um denunciado e um investigado pelo Ministério Público às presidências do Senado e da Câmara, financia partidos para atraí-los à base governista, correligionários de altas patentes são condenados à prisão e, segundo o presidente do partido, a "oposição apartidária" é que desmoraliza a política.

Que tal?

Isso para falar do presente, sem contar o passado de uma vida dedicada a desancar Deus, o mundo e seu Raimundo.

Os correligionários de hoje eram os "picaretas", "ladrões" e "bandidos"de ontem, contra os quais o PT prometia combate ferrenho quando, e se, chegasse ao poder.

Pois há dez anos chegou e é o que se vê: não bastasse se aliar, festeja os piores tipos, elevando o que antigamente formava o baixo clero à condição de cardinalato do Congresso.

E com a tranquilidade dos puros, mas a sagacidade dos astutos, Rui Falcão, o presidente do PT, acusa Ministério Público e meios de comunicação independentes de tramarem contra a atividade política.

Oferece lições que dariam ensejo a preocupações quanto à sanidade do professor, não flertassem firmemente com o ridículo. Diz Falcão: "São esses a quem nomeei que tentam interditar a política no Brasil. Quando desqualificamos a política a gente abre espaço para aventuras golpistas. A gente abre espaço para experiências que no passado levaram ao nazismo e ao fascismo".

Faltou acrescentar um fator essencial na desconstrução do valor democrático numa sociedade: o populismo (ovo da serpente do autoritarismo), ao qual o PT se dedica com afinco no estímulo ao culto da personalidade e à desmoralização da massa crítica.

A ofensiva é clara: o petista ataca a "oposição apartidária" porque sabe que a partidária está dominada, nas cordas, sem força para preservar o indispensável exercício do contraditório sem o qual restam o silêncio, a concordância, a eliminação do debate, a alternância.

E o objetivo é esse mesmo: exercer o poder sem ser contraditado em nada e por coisa alguma, a fim de que apenas a voz do poder da vez prevaleça.

O PT, contudo, deve tomar cuidado com seus impulsos de eliminação porque, quando não há oposição de lado algum, as posições antagônicas tendem a nascer e a crescer dentro da situação. E aí, alertam os que já viveram essa situação em passado não muito distante - mais especificamente no governo Fernando Henrique, personificada na figura de Antonio Carlos Magalhães - instala-se um verdadeiro inferno.

É hoje o dia. O Senado, que é um pálido retrato do que já foi e agora caminha rumo ao lixo da História, perde autonomia, autoridade moral e também legitimidade na representação dos Estados.

Há 21 suplentes entre os 81 parlamentares da Casa. É isso: um quarto do Senado exerce mandato sem ter recebido um voto.

A suplência ali é composta por dois nomes indicados pelo titular da chapa e escolhidos entre amigos, parentes e financiadores de campanha que não passam pelo crivo das urnas.

Na maioria dos casos assumem a cadeira devido a licenças pedidas para garantir ao substituto biônico uma temporada no paraíso.

Compressor. O líder do governo no Senado, Eduardo Braga, lá por meados do segundo semestre de 2012 chegou a pensar seriamente em concorrer à presidência da Casa.

Chegou a fazer algumas consultas informais sobre sua chance contra o desejo de Renan Calheiros de voltar. Hipótese, na ocasião, que aos de bom senso parecia absurda.

Braga é ovelha desgarrada do grupo de senadores independentes do PMDB que resiste a se entregar ao Palácio do Planalto e à dupla Calheiros-Sarney.

01 de fevereiro de 2013

56 a 18, e Renan, denunciado por três crimes, volta à Presidência do Senado




Por Reinaldo Azevedo

Renan Calheiros (PMDB-AL) foi eleito presidente do Senado com 56 votos.

Era o placar esperado.

Pedro Taques (PDT-MT) ficou com 18, abaixo do que lhe foi prometido.

Haviam fechado com o opositor de Renan os 11 do PSDB, os 5 do PDT, os 4 do DEM e 1 do PSOL.

Só nessa primeira conta, já ficaram faltando três votos.

Na reta final, o PSB também lhe prometeu os 4 votos que tem, elevando o número para 25.

Além desses, Taques contava também Pedro Simon (PMDB-RS) e Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE).

Na urna, ficaram faltando nove…

No texto da manhã, informava que os partidários de Renan apostavam nas traições.

Não foram tantas quantas esperavam, mas houve.


Seria interessante que se procedesse a uma confirmação de voto — como é secreto, é impossível saber com certeza.

Os que prometeram ficar com Taques deveriam vir a público para dizer: “Não fui eu”.
No texto desta manhã, escrevi: “Há corações tucanos e democratas que batem por ele [Renan].

No próprio PDT, que está na base do governo, havia quem preferisse que o colega de partido ficasse fora dessa”.

O apoio do PSB, como se viu, também foi claudicante.




O senador tem a prerrogativa de votar em quem quiser — até mesmo de se rebelar contra a orientação da bancada. Mas mentir é uma coisa feia. Esconder-se no voto secreto numa questão como esta é evidência de covardia.
O senador Renan Calheiros volta, assim, à Presidência do Senado, arrastando, desta feita, uma denúncia do Ministério Público, que está no STF, de três crimes. É grande a chance de se ter um presidente do Congresso réu num processo criminal.

Leiam trechos da reportagem de Laryssa Borges, Marcela Mattos e Gabriel Castro, publicado na VEJA. Volto para encerrar. No próximo post, comento uma declaração de Renan, o eleito, segundo quem a ética não é um fim, mas um meio. Daqui a pouco eu volto para destrinchar seu pensamento profundo.
*
O Senado Federal confirmou nesta sexta-feira sua disposição em manter o velho histórico de corporativismo e elegeu o alagoano Renan Calheiros, do PMDB, para presidir a Casa nos próximos dois anos. Ele derrotou com facilidade o novato Pedro Taques (PDT-MT), por 56 votos a 18. Houve dois votos em branco e duas abstenções.
(…)


Para angariar votos, Renan usou da conhecida habilidade em negociar cargos na Mesa Diretora e promessas de arranjos políticos futuros na Casa. Roberto Requião ganhou a presidência do braço brasileiro do Parlamento do Mercosul, e Eduardo Braga virou líder do governo. Também cobrou a “fatura” pela blindagem que ofereceu ao governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), na naufragada CPI do Cachoeira.

Denúncias

O arsenal de denúncias contra Renan Calheiros, que motivou seu afastamento do cargo de presidente do Senado em 2007, foi revitalizado com a proximidade das eleições para a presidência da Casa. Em 2007, VEJA revelou que o senador se valia do lobista Cláudio Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior, para pagar a pensão alimentícia da filha que teve com a jornalista Mônica Veloso. Em sua defesa, Renan argumentou que tinha obtido lucro espantoso com a venda de gado. As investigações, entretanto, concluíram que as notas fiscais apresentadas eram falsas.

Nesta sexta-feira, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, confirmou que apresentou denúncia contra Renan ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelos crimes de falsidade ideológica, peculato e uso de documentos falsos.

O senador Pedro Simon, dissidente do PMDB e contrário à candidatura de Renan, foi o mais enfático e o primeiro em plenário a escancarar a possibilidade de o futuro presidente do Senado gerir a Casa ao mesmo tempo em que pode se tornar réu na mais alta corte do país. “O ilustre senador Renan Calheiros está sendo processado pelo procurador-geral. Ele se elege hoje e na quarta ou quinta-feira o STF aceita a denúncia e se inicia um processo lá. Se iniciar um processo lá, evidentemente que se inicia um processo aqui. Vai se repetir o filme”, declarou Simon.

Aliados
Renan Calheiros chegou ao Senado às 9h30 acompanhado do presidente do Senado, José Sarney. Certo da vitória, o político alagoano ironizou, a seu modo, a candidatura alternativa costurada por setores da oposição e por senadores que se intitulam independentes. “Pedro Taques é candidato mesmo?”, questionou. Em seguida, ainda minimizou o risco de traições de senadores que lhe prometeram apoio: “eleição é como mineração. Ninguém sabe onde vai ter ouro”.

Na sessão que consagrou o nome de Calheiros como novo presidente do Senado, coube ao senador Vital do Rêgo (PMDB-PB) anunciar em plenário a candidatura do peemedebista à mais alta cadeira do Congresso. Com um discurso torto, Vital teceu elogios ao poderio do PMDB, à forte bancada de 20 dos 81 senadores e resumiu: a continuidade de uma gestão marcada pela “modernidade”, “inovação” e “transparência”, como diz ter sido a de José Sarney, só poderia ser garantida com a presidência de Renan Calheiros.

“O PMDB é um partido que não pediu favores para estar aqui. É o partido que representa maior liderança do país em termos proporcionais e legislativos, porque foi eleito pela vontade do povo brasileiro”, afirmou Vital do Rêgo.

Até senadores sem nenhum voto, como os suplentes Sérgio Souza (PMDB-PR) e Lobão Filho (PMDB-MA) – que devem as vagas à nomeação de Gleisi Hoffmann e Edison Lobão como ministros – saíram em defesa de Renan Calheiros em plenário. “Sabemos que existe um processo que se iniciou há poucos dias no STF. São fatos de 2007 e muito mais ligados à vida particular deste senador do que à vida pública desse homem que começou sua vida pública há mais de 30 anos”, disse Souza.

“Nessa Casa não há nenhuma vestal. A última vestal que tentou ser vestal nessa Casa foi desossado pela imprensa. Não há ninguém a levantar o dedo para o senador Renan Calheiros”, completou Lobão.

Encerro

O discurso que traduziu melhor o espírito da coisa foi, como veem, o de Lobão Filho (PMDB-MA, filho, como se presume, de Lobão pai.

O rapaz está lá sem voto nenhum porque era suplente do pápi, que virou ministro. Referindo-se a Demóstenes Torres, que teve o mandato cassado, negou que haja vestais na Casa.


Pois é…

Numa Casa em que ninguém é vestal, é preciso tomar cuidado para que não se considere que todos são, então, bandidos.

Certamente não foi isso o que quis dizer o Lobinho, filho do Lobão.



01/02/2013


‘Disputa acirrada no PT’



Editorial  Estadão
Primarismo, descaramento e mistificação



O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-ministro José Dirceu e o presidente do PT, Rui Falcão, para seguir a efetiva ordem de importância de cada um na hierarquia da agremiação, parecem ter tirado o dia, anteontem, para disputar entre si um acirrado torneio de primarismo, descaramento e mistificação.

Em Cuba, participando de um daqueles convescotes ideológicos cheios de ar quente e vazios de ideias ─ no caso, uma “Conferência pelo Equilíbrio Mundial”, no Palácio de Convenções de Havana ─, Lula demonstrou surpreendente sintonia com o espírito já um tanto fanado da new age, ao pedir ao público que mandasse “energia positiva” para o caudilho venezuelano Hugo Chávez.

Se ele porventura superar as sequelas da operação a que se submeteu na ilha em meados de dezembro para extirpar o câncer de que padece, Lula bem poderá se gabar de haver contribuído para a sua miraculosa recuperação.

Pelo menos seria coerente com a sua propensão a tratar de proezas alheias como se delas fosse o autor.


Mas o apelo ao despacho de energia cósmica para revigorar o autocrata de Caracas até que passa, com um pouco de caridade.

O que fica é o exemplo confeccionado por Lula para a ocasião, a fim de ilustrar a sua enésima diatribe contra as “elites” em geral e a imprensa em particular por seu suposto “ódio” contra Chávez, a argentina Cristina Kirchner, o uruguaio Pepe Mujica e o boliviano Evo Morales pelo bem que fariam aos pobres. (Ele omitiu o equatoriano Rafael Correa.)

“No Brasil”, afirmou, voando baixo, “a imprensa não suporta que os pobres viajem de avião.”

O que os viajantes, ricos, remediados ou pobres, não suportam ─ e o que a imprensa denuncia ─ é a situação dos obsoletos aeroportos brasileiros, que o lulismo no poder não cuidou de apetrechar para o aumento do número de voos e passageiros.

A mídia, a mesma que o ajudou a decolar do sindicalismo para a grande política ─ como certa vez, em um momento de franqueza, ele admitiu ─, é o bode expiatório de há muito escolhido para livrar o PT do acerto de contas com seus próprios malfeitos.





Desde o julgamento do mensalão, ela tem a companhia da Justiça. O Supremo Tribunal Federal (STF), que impôs aos mensaleiros penas compatíveis com o crime de lesa-República que se esbaldaram em cometer, e o titular do Ministério Público Federal, Roberto Gurgel, por ter encaminhado à instância adequada as acusações do publicitário Marcos Valério contra Lula, em vez de lançá-las ao lixo, capitaneiam a “ofensiva da direita contra o nosso projeto político”, nas palavras de Dirceu (10 anos e 10 meses de prisão, além de multa de R$ 676 mil

Em um ato da CUT, no Rio, “pela anulação do julgamento do mensalão”, o mensaleiro-chefe acusou o STF de violar os direitos individuais e a democracia. No seu vale-tudo mental, atribuiu o noticiário da imprensa sobre as mazelas dos políticos ora à intenção de “amanhã dar um golpe”, ora à intenção de inibir o Congresso de regular a mídia. Às vezes, nessas horas, a verdade assoma em meio à fabulação. No caso, a pouca vontade do próprio PT em mobilizar as massas para a defesa dos mensaleiros.


“Aonde (sic) estão os nossos?”, perguntou retoricamente Dirceu para se queixar de que ninguém “foi para a tribuna denunciar” a decisão de Gurgel de dar curso às denúncias de Marcos Valério.

Por sua vez, Andréa Haas, mulher do condenado ex-dirigente do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato (14 anos, 8 meses, R$ 1,3 milhão), pediu aos companheiros “que não sejamos esquecidos, como até hoje fomos”. Não será o desalento petista que motiva as exortações de Dirceu e a campanha que promete encetar contra o STF?




Não será também o que leva o deputado Rui Falcão a abrir ao máximo a sua “torneira de asneiras”, como fazia a boneca Emília das histórias de Monteiro Lobato? São tantas que não é fácil escolher a que merece ir ao pódio.

Entre a imputação ao Ministério Público de ter “atuação partidária” e o imperativo de combater a oposição “sem cara, mas com voz” que “tenta interditar a política no Brasil”, o Oscar vai para esta obra de arte: “Quando desqualificamos a política (…), a gente abre campo para experiências que, no passado, levaram ao nazismo e ao fascismo” (apud, Rui Falcão).

01/02/2013

Taques vai perder para Renan daqui a pouco. Vejam por que há nisso algumas vitórias. Ou: 300 mil contra Renan daqui a pouquinho





Por Reinaldo Azevedo

É claro que o senador Pedro Taques (PDT-MT) vai perder a disputa pela Presidência do Senado para Renan Calheiros (PMDB-AL).

Mas isso está longe de ser o mais importante. A vitória já está dada: haver, ao menos disputa. O fato de uma parcela dos senadores se rebelar contra o candidato oficial é a boa notícia — muito especialmente quando ele tem a ficha de Renan.

PSDB (11), PDT (5), DEM (4) e PSOL (1) anunciaram o voto em Taques. Espera-se que os peemedebistas Pedro Simon (RS) e Jarbas Vasconcelos (PE) também recusem o nome de Renan. O PSB decidiu que seus quatro representantes não votarão no peemedebista, mas não anunciou apoio a Taques. Se todos esses se juntarem, o senador por Mato Grosso pode chegar a 27 votos — um terço do total de 81.

Os entusiastas de Renan falam em até 70 votos porque apostam nas traições. O PMDB tem 20 senadores — 18 devem estar garantidos para o parlamentar de Alagoas. O PT conta com 12. Só essas duas legendas já garantem 30 votos para o candidato peemedebista.

Haverá traições na oposição?

Possível é. Vamos ver. Renan, já informei aqui, é figura influente no Senado, e seus amigos se distribuem por todas as bancadas. Há corações tucanos e democratas que batem por ele. No próprio PDT, que está na base do governo, havia quem preferisse que o colega de partido ficasse fora dessa.

Nos seus vitupérios contra a imprensa, Rui Falcão deixou claro que os partidos de oposição não incomodam o governo. Ele não gosta é da imprensa e do Ministério Público porque, disse, são as verdadeiras oposições no Brasil. Na essência, é uma tolice e uma mentira. Mas entendo o que ele quis dizer. Com as exceções de hábito, os adversários do petismo oferecem pouco combate.

Desta vez, mesmo para perder e correndo o risco de ficar fora da Mesa Diretora, as oposições decidiram dar sinal de vida. Foi uma imposição da ética, cedendo ao convite ao brio de milhões de brasileiros. Milhares, Brasil afora, mesmo sabendo que vão perder, aderiram a petição de repúdio a Renan. Neste momento, os signatários já chegam a 285 mil. As oposições precisam aprender a perder com os bons se querem, um dia, vencer. Não é só frase de efeito. Perder com os bons significa dizer o que tem de ser dito e fazer o que tem de ser feito. Ela também foi eleita pelo povo. E eleita para se opor. O Senado que cassou, por bons motivos, o mandato de Demóstenes Torres não pode eleger Renan presidente da Casa sob silêncio.

Para assinar a petição, clique aqui.
 01/02/2013

PGR acusa Renan de desviar dinheiro do Senado e falsificar documentos


Denúncia de Gurgel ao Supremo, à qual ÉPOCA teve acesso, revela que o senador forjou notas fiscais para justificar operações com lobista – Renan responderá pelos crimes de peculato, falsidade ideológica e uso de documentos falsos; pena pode chegar a 23 anos de prisão


DIEGO ESCOSTEGUY
O senador Renan Calheiros (PMDB-AL) é candidato à Presidência do Senado. A eleição ocorre nesta sexta
(Foto: Jonas Pereira/Agência Senado)

Os 81 senadores da República irão eleger daqui a pouco como presidente da Casa um colega denunciado na última semana pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal pelos crimes de peculato (desvio de dinheiro público, 2 a 12 anos de cadeia), falsidade ideológica (1 a 5 anos de cadeia) e uso de documento falso (2 a 6 anos de cadeia). ÉPOCA teve acesso na noite de quinta-feira (31), com exclusividade e na íntegra, à devastadora denúncia oferecida pelo procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, contra o senador Renan Calheiros, do PMDB de Alagoas, no dia 24 de janeiro.

Gurgel é taxativo: Renan apresentou, ao Senado da República, notas frias e documentos falsificados para justificar a origem dos recursos que o lobista de uma grande empreiteira entregava, em dinheiro vivo, à mãe de sua filha, a título de pensão.

Está provado, finalmente, que Renan não tinha condições financeiras de arcar com a pensão – e que não fez, de fato, esses pagamentos à mãe de sua filha. De quebra, descobre-se na denúncia que Renan desviou R$ 44,8 mil do Senado. Nesse caso, também usou notas frias para justificar o desfalque nos cofres públicos.

Se condenado pelos três crimes no STF, o novo presidente do Senado poderá pegar, somente nesse processo, de 5 a 23 anos de cadeia – além de pagar multa aos cofres públicos, a ser estipulada pela corte. (Há, ainda, outros dois inquéritos tramitando contra Renan no STF.)

A denúncia de Gurgel está no gabinete do ministro Ricardo Lewandowski desde segunda-feira. Caberá a ele encaminhar, aos demais ministros do STF, voto favorável ou contrário à denúncia. Lewandowski não tem prazo para dar seu voto.


Peculato, falsidade ideológica e documento falsoA denúncia apresentada pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel. O documento, entregue ao STF, tem 17 páginas

A denúncia de Gurgel, fundamentada em anos de investigação da PGR e da PF, centra-se no episódio que deu início ao calvário de Renan, em 2007, quando ele era presidente do Senado e, após meses de incessantes denúncias, viu-se obrigado a renunciar ao cargo – mas não ao mandato.

Naquele ano, descobriu-se que o lobista Cláudio Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior, pagava, em dinheiro vivo, R$ 16,5 mil mensais à jornalista Mônica Veloso, com quem o senador tivera uma filha.

No mesmo período em que o lobista Gontijo bancava as despesas de Renan, entre 2004 e 2006, a Mendes Júnior recebia R$ 13,2 milhões em emendas parlamentares de Renan destinadas a uma obra no Porto de Maceió – obra tocada pela mesma Mendes Júnior.

Abriu-se um processo no Conselho de Ética no Senado. Renan assegurou aos colegas que bancara a pensão do próprio bolso, e apresentou documentos bancários e fiscais que comprovariam sua versão.

O dinheiro seria proveniente de investimentos do senador em gado. A denúncia da PGR derruba por completo a versão bovina de Renan – e mostra que, para se montar a versão fajuta, Renan cometeu muitos crimes.


Espantosa lucratividade

O trecho afirma que Renan deixou de computar gastos com empregados, durante quatro anos, para gerar lucros capazes de justificar o aumento do seu patrimônio

Diz Gurgel na denúncia (leia o trecho abaixo): “Em síntese, apurou-se que Renan Calheiros não possuía recursos disponíveis para custear os pagamentos feitos a Mônica Veloso no período de janeiro de 2004 a dezembro de 2006, e que inseriu e fez inserir em documentos públicos e particulares informações diversas das que deveriam ser escritas sobre seus ganhos com atividade rural, com o fim de alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante, qual seja, sua capacidade financeira”.

Para piorar: “Além disso, o denunciado utilizou tais documentos ideologicamente falsos perante o Senado Federal para embasar sua defesa apresentada (ao Conselho de Ética)”. “Assim agindo”, diz Gurgel, “Renan Calheiros praticou os delitos previstos nos artigos 299 (falsidade ideológica) e 304 (uso de documento falso), ambos do Código Penal.”


Defesa com documentos falsos


O procurador-geral Roberto Gurgel conclui que Renan não tinha como justificar, por meios legais, a renda para pagar pensão à filha que tem com Monica Velloso. Por isso, usou documentos falsos. Gurgel afirma que Renan cometeu os crimes de falsidade ideológica e de uso de documentos falsos


"Espantosa lucratividade"

Como Renan apresentara ao Senado extratos bancários capengas, sem identificação de entradas e saídas de recursos, a PGR conseguiu, com permissão do Supremo, quebrar o sigilo bancário dele.

Uma perícia da Polícia Federal nas contas do senador apontou que “os recursos indicados por Renan Calheiros como sacados em dinheiro não poderiam amparar os supostos pagamentos a Mônica Veloso no mesmo período, seja porque não foi mencionada a destinação a Mônica, seja porque os valores destinados ao denunciado não seriam suficientes para suportar os pagamentos”.

Em português claro: Renan não tinha saldo em conta para pagar a pensão, ao contrário do que alegara.

Nesse caso, os peritos da PF não deixaram margem à dúvida. Em 2009, esmiuçaram detidamente os documentos bancários e fiscais. Dos 118 cheques relacionados por Renan como fontes dos pagamentos da pensão, 66 foram destinados a outras pessoas e empresas, e outros 39 tinham como beneficiários o próprio senador.

Escreve Gurgel: “No verso de alguns destes cheques destinados ao próprio Renan, havia manuscritos que indicam o provável destino do dinheiro, tais como ‘mão de obra reforma da casa’, ‘reforma Barra’ e ‘folha de pagamento’, o que diminui ainda mais sua capacidade de pagamento”.


Fazenda Santa Rosa (conhecida também como Tapado), em Alagoas, que pertence a Renan
(Foto: Dida Sampaio/AE)

Renan garantira ao Senado que sua “capacidade de pagamento” advinha de seus investimentos em gado. A investigação da PGR demonstra que a versão de Renan é um disparate fiscal, bancário e até mesmo matemático. Há discrepâncias na quantidade de animais vendidos, assim como nos destinos deles.

Em 2006, por exemplo, as notas de Renan registram a venda de 765 animais, mas as chamadas guias de trânsito animal – um documento adicional a esse tipo de transação – informam que 908 foram transportados.

Ao confrontar datas e quantidades, peritos da PF descobriram que as informações de venda e entrega coincidem apenas no caso de 220 animais. Há mais irregularidades. Algumas guias de trânsito de animal apresentadas por Renan nem eram dele, mas de outros vendedores de gado. As notas fiscais apresentam falhas, como falta de selos fiscais de autenticidade, campos deixados em branco e informações rasuradas.

Duas empresas que, segundo os documentos, teriam comprado gado de Renan, nem estavam habilitadas para isso – e estavam envolvidas em fraudes tributárias. José Leodácio de Souza, que teria comprado 45 bois, negou, em depoimento, ter tido qualquer negócio com Renan – o que, nas palavras de Gurgel, “confirma a falsidade ideológica dos documentos apresentados”.

Segundo a investigação da PGR, Renan não registrou quaisquer despesas com o custeio de suas atividades como pecuarista. É como se os 1.950 bois de Renan, por mágica, pastassem durante anos sozinhos, abandonados – sem precisar, por exemplo, do trabalho de peões ou veterinários.

Diz Gurgel: “A ausência de registro de despesas de custeio (…) implica resultado fictício da atividade rural, o que explica a espantosa ‘lucratividade’ obtida pelo denunciado entre 2002 e 2006”. Em 2002, Renan declarou lucros de 85% com os bois; em 2006, 80%. Era, presume-se, o rei do gado.

A PGR descobriu inconsistências semelhantes na evolução do patrimônio declarado oficialmente por Renan. A se acreditar nas declarações de Imposto de Renda do senador, diz a PGR, Renan viveria em regime espartano para os padrões de um senador. Mal teria dinheiro para “sua subsistência e de sua família”, diz a PGR. Em 2002, por exemplo, a família de Renan teria apenas R$ 2,3 mil mensais para viver. Em 2004, um pouco mais: R$ 8,5 mil mensais.




Desfalque no Senado
Em outro capítulo da denúncia, Gurgel acusa Renan de simular gastos com aluguel de carros da empresa de seu primo Tito Uchôa, para desviar parte da verba indenizatória paga pelo Senado. Renan é acusado de peculato – ou seja, desvio de dinheiro público

Tunga no Senado

Renan não usou apenas bois para tentar justificar de onde tirava dinheiro para pagar a pensão da filha. Usou também uma empresa que pertence ao primo – e que recebia do gabinete de Renan por “serviços”. Trata-se da Costa Dourada, uma locadora de carros de Alagoas que está em nome de Tito Uchôa – este não apenas primo, mas também laranja de Renan em rádios e TVs. Renan, ainda para justificar como pagara a pensão da filha, disse ter recebido R$ 687 mil da empresa, por meio de supostos empréstimos.
Tito Uchôa, primo de Renan
(Foto: Marco Borelli/O Jornal)

A PGR descobriu, porém, que os empréstimos não foram declarados à Receita e que o dinheiro supostamente proveniente deles “não transitou pelas contas apresentadas”. No papel, Renan recebia mais dinheiro da Costa Dourada do que o lucro que a empresa tinha. Em 2005, por exemplo, Renan recebeu R$ 99,3 mil da Costa Dourada – mesmo ano em que a empresa declarou lucro de R$ 71,4 mil.

E quanto aos supostos empréstimos da Costa Dourada a Renan, contraídos em 2005? Não foram pagos pelo senador. Diz Gurgel: “Passados mais de três anos desde o início dos empréstimos, não houve registros de pagamentos ou amortizações parciais dos recursos”.

A PGR descobriu muito mais, após quebrar os sigilos bancários dos envolvidos: havia saques, em espécie, das contas da Costa Dourada, enquanto a empresa supostamente prestava serviços ao gabinete do senador. O dinheiro saída da conta do Senado, ia para a conta da empresa do laranja de Renan, era sacado em espécie – e sumia.

As gambiarras entre Renan e a empresa do primo-laranja levaram a PGR a descobrir outro crime cometido pelo senador: peculato, ou desvio de dinheiro público.

Diz Gurgel na denúncia: “No curso deste inquérito, também ficou comprovado que, no período de janeiro a julho de 2005, Renan Calheiros desviou, em proveito próprio e alheio, recursos públicos do Senado Federal da chamada verba indenizatória, destinada ao pagamento de despesas relacionadas ao exercício do mandato parlamentar”.

Era um esquema prosaico. O gabinete de Renan desviava recursos da verba indenizatória e apresentava ao Senado notas fiscais da Costa Dourada. No total, R$ 44,8 mil. Ao analisar as contas bancárias da Costa Dourada e de Renan, porém, a PGR nada encontrou.

Diz Gurgel: “Não há registro de pagamento e recebimento dos valores expressos nas referidas notas fiscais, o que demonstra que a prestação de serviços não ocorreu (…) servindo apenas para desviar os recursos da verba indenizatória paga pelo Senado Federal”. E onde foi parar o dinheiro do Senado? A PGR não conseguiu descobrir ainda. Por quê? Porque o Senado recusou-se a fornecer os documentos que comprovariam o destino dos recursos. Para a PGR, “o denunciado (Renan) praticou o delito previsto no artigo 312 (peculato), do Código Penal”.

O Senado não se recusou apenas a encaminhar ao Supremo as provas sobre o destino da verba indenizatória de Renan. Sequer encaminhou a íntegra da papelada fornecida por Renan ao Conselho de Ética para justificar o patrimônio, conforme pedira a PGR. Diante da postura do Senado, Gurgel pede na denúncia que o Supremo ordene à Casa que envie a documentação necessária ao avanço das investigações.

Desde que as primeiras acusações sobre seu patrimônio vieram a público, Renan mantém sua inocência. Mesmo com o acúmulo de evidências contrárias à versão dele, Renan insiste que o dinheiro para pagar a pensão de sua filha não viera da Mendes Júnior – e, sim, dos tais rendimentos que ele teria obtido com a venda de gado. Entre 2003 e 2006, esses investimentos teriam lhe rendido R$ 1,9 milhão.

Na semana passada, após se descobrir que Gurgel apresentara a denúncia à qual agora ÉPOCA tem acesso, Renan afirmou em nota: “Ela (a denúncia) padece de suspeição e possui natureza nitidamente política.

A denúncia foi protocolada exatamente na sexta-feira anterior à eleição para a presidência do Senado Federal. Trata-se de atitude incompatível com o habitual cuidado do Ministério Público no exercício de suas nobres funções”.

Renan disse ainda que foi ele quem solicitou as investigações ao Ministério Público e à Receita Federal, e que forneceu os documentos (“todos verdadeiros”), além de sigilos bancário, fiscal e telefônico.

Diz a nota: “O senador Renan Calheiros lamenta a injustificável demora e agora a acusação, já julgada pelo Senado Federal, também será apreciada pelo Supremo Tribunal Federal, num ambiente de imparcialidade”.



Documentos sonegados

Em dois trechos, a denúncia afirma que o Senado protegeu Renan na investigação: recusou-se a fornecer documentos à Polícia Federal e deixou de enviar outros ao Supremo Tribunal Federal

Assim que obteve cópia da denúncia da PGR, na quinta-feira, ÉPOCA telefonou para Renan, mas o senador não atendeu à reportagem. Na caixa postal de seu telefone celular, foi deixada uma solicitação de entrevista para que o senador pudesse comentar a denúncia do procurador Roberto Gurgel.

Cinco minutos após o contato feito por ÉPOCA, uma mulher ligou, a partir do telefone celular do senador Renan Calheiros, e identificou-se como Dilene, secretária do senador. Mais uma vez, ÉPOCA solicitou uma entrevista com o senador.

Até o fechamento da reportagem, o senador Renan Calheiros e sua assessoria de imprensa não responderam aos pedidos de entrevista.