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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Vox Populi abre o segundo ato da farsa



Vox Populi abre o segundo ato da farsa




Às 20:02 de 3 de outubro, sob o título O grande naufrágio, um texto de três linhas fez aqui no Direto ao Ponto a constatação necessária:

Embora a apuração não tenha terminado, as pesquisas de intenção de voto, somadas, já permitem identificar os protagonistas do maior fiasco das eleições de 2010.

Foram os institutos de pesquisa.

No dia 9, o tema foi retomado pelo post que resumia a ópera dos malandros no título: Os comerciantes de porcentagens estão prontos para o segundo ato da farsa.

Trecho:

Um dia antes da eleição, a última pesquisa do Vox Populi liquidou a fatura em favor de Dilma Rousseff: com 57% das intenções de voto, a candidata de Lula e do instituto foi dispensada da disputa do segundo turno por uma diferença de muitos milhões de cabeças.

“Fomos os primeiros a identificar o crescimento de Dilma”
, gabou-se Marcos Coimbra, presidente da loja de porcentagens.

Esqueceu-se de combinar com as urnas: terminada a contagem dos votos, os 57% foram reduzidos a 46%.

Entre a profecia de Coimbra e o encerramento da apuração, quase 14 milhões de brasileiros sumiram misteriosamente no buraco negro escavado por 11 pontos percentuais.

Em paragens civilizadas, os coimbras da vida passariam a semana sentados no meio fio, chorando lágrimas de esguicho e examinando as opções possíveis: sair em desabalada carreira ou apresentar-se à delegacia mais próxima, escoltado por um advogado que cobra por minuto.

Mas o País do Carnaval ainda não aprendeu a tratar como criminosos os especialistas em estelionato estatístico.

Sem medo de cadeia, os ilusionistas preparam outro lote de pesquisas forjadas para que se dissemine a certeza da vitória governista.


Sem terem sequer balbuciado desculpas pelo fiasco no primeiro turno, estão prontos para o segundo ato da farsa.

Eles regressaram à cena do crime com movimentos furtivos de punguista. Para que a plateia iludida não explodisse em vaias, o Vox Populi, o Ibope e o Sensus trataram de aproximar seus resultados dos obtidos pelo DataFolha, o único que erra sem evidências de má fé.

Seria demais instalar Dilma Rousseff, já na primeira pesquisa do recomeço da campanha, na folgada dianteira que ocupou até receber o corretivo das urnas. Mas comerciantes gulosos são impacientes. Nesta terça-feira, o Vox Populi inventou uma distância de 12 pontos entre a candidata do grande cliente e o adversário oposicionista.


A vantagem imaginária ajuda a abastecer o caixa da campanha, mantém elevado o moral das milícias, pode eventualmente reduzir o entusiasmo do inimigo.

Brasileiro, raciocinam os fabricantes de algarismos, acredita em assombração, alma do outro mundo, ET de Varginha, até no que Lula diz. Por que não iria acreditar em institutos agrupados no Departamento de Pesquisas e Boas Notícias do PT?


Entre o levantamento da semana passada e o desta terça-feira, Aécio Neves desencadeou a vigorosa ofensiva do PSDB mineiro, Geraldo Alckmin acelerou a mobilização para ampliar a votação do candidato tucano em São Paulo, os governadores eleitos do Paraná e de Santa Catarina lançaram-se à consolidação da frente sul com o apoio dos chefes do PMDB gaúcho, os programas do horário eleitoral se tornaram mais consistentes — os ventos, enfim, sopraram a favor de Serra.


No mesmo período, Dilma reencontrou o palanque mineiro esvaziado pelo sumiço de Hélio Costa e Patrus Ananias, tripulantes do barco governista começaram a estender uma perna em direção à caravela da oposição, a candidata aprendiz atravessou um debate inteiro à beira do chilique, Lula perdeu a voz por alguns dias, Sérgio Cabral foi passear na Europa. Tudo somado, a coisa estaria de bom tamanho se Dilma ficasse no mesmo lugar. Marcos Coimbra achou pouco. E foram providenciados os 12 pontos.


Só quando os brasileiros estiverem a alguns metros das urnas virão as correções de curvas e súbitas mudanças nos índices, atribuídas a tendências de última hora. A metodologia é a de sempre.

O que há de novo é a insolência que resulta da certeza da impunidade. Entre o estelionato do primeiro turno e o começo da reprise, passou-se apenas uma semana.

Os envolvidos nas delinquências sabem que serão desmoralizados pelos votos e expostos ao deboche.

Como não se assustam com isso, resta interromper-lhes o avanço com o Código Penal.


20.10.2010

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O capataz do roçado de escândalos afirma que o Ibope e o Sensus fraudam pesquisas

Direto ao Ponto


Ciro Gomes estreou no Direto ao Ponto em 27 de abril de 2009, cinco dias depois do nascimento da coluna. O resumo da ópera estava no título: O menino maluquinho do Ceará virou um cinquentão muito doido.

Na abertura, o texto recordava uma das performances do artista na campanha presidencial de 2002.

O candidato desfiava promessas na entrevista a uma emissora de rádio quando um ouvinte resolveu perguntar-lhe por telefone se, por acaso, pretendia ser presidente da Suiça.

“Lá é parlamentarista”, replicou a voz irritada. “É só um aviso aí pra esses petistas furibundos. Tem que fazer as perguntas com um pouco mais de cuidado pra largar de ser burro”.

Não demorou a perceber que ficara um pouco pior no retrato. Mas levou alguns dias para balbuciar um pedido de desculpas tão convincente quanto a frase recitada em seguida: “Nunca agredi ninguém em minha extensa vida pública”.

Como é que é?, espantaram-se todos os cearenses. Até os mandacarus do sertão sabem que Ciro sempre foi uma usina de grosserias. Em 1994, por exemplo, quando ainda se enfeitava com plumas de tucano, foi à luta contra o partido que apoiaria no século seguinte:

“Os políticos do PT são uns mijões nas calças”, resumiu numa entrevista. Nos 16 anos seguintes, o que andou fazendo e dizendo transformou o antigo menino maluquinho num cinquentão doido demais.

Em fevereiro de 2008, irritou-se com a atriz Letícia Sabatella, que visitava o Congresso com um grupo de celebridades contrárias à transposição das águas do São Francisco. “Não sei se estou no mesmo lugar que o seu, mas é parecido”, disse. “Eu, ao meu jeito, escolhi a opção de meter a mão na massa. Às vezes suja de cocô. Mas minha cabeça, não. Meu compromisso, não”. Letícia nem respondeu.

Três meses depois da atriz, chegou a vez de Luizianne Lins, prefeita de Fortaleza em campanha pela reeleição. Para ajudar a então senadora Patrícia Saboya, mãe de seus filhos e também candidata, o deputado federal estacionado no PSB (depois de escalas no PDS, no PMDB, no PSDB e no PPS) deu uma geral na paisagem e, em julho de 2008, emitiu o parecer: “Fortaleza é um puteiro a céu aberto”.

Em abril de 2009, irrompeu no plenário da Câmara colérico com os parlamentares que achavam prudente usar a cota de passagens aéreas com menos desfaçatez. “Até ontem era tudo liberado!”, esbravejou. “Então, por que mudar? É um bando de babacas!”.

Ficou mais bravo ainda quando soube que viera do Ministério Público a informação de que havia financiado com dinheiro da Câmara, tungado dos contribuintes, um giro internacional da mãe. “Ministério Público é o caralho!”, caprichou. ”Não tenho medo de ninguém! Da imprensa, de deputado! Pode escrever o caralho aí!”, recomendou aos jornalistas.

Voltou ao palco em fevereiro passado para detonar os principais partidos da base alugada: “A moral da aliança PT-PMDB é frouxa. É um roçado de escândalos já semeados”, constatou. Em 23 de abril, numa entrevista ao SBT, assumiu o comando da artilharia antigovernista.

Afirmou que Serra “é muito mais preparado que Dilma”, contou que mandara José Dirceu pastar, recomendou a Lula que recuperasse a humildsde perdida e voltou a mirar na coalizão federal.

“O PT se junta ao pilantra para esquecer os malfeitos que o pilantra faz”, acusou. No dia 14 de setembro, o escândalo da Receita Federal e as bandalheiras na Casa Civil o animaram a festejar o acerto do diagnóstico. “Já falei que essa aliança é um roçado de escândalos”, gabou-se.

Nesta terça-feira, menos de um mês depois da declaração, o menestrel da moralidade aceitou o convite para trabalhar como capataz do roçado.

“Tem uma pessoa muito especial que hoje integra a coordenação da campanha, que é o nosso querido Ciro Gomes”, recitou Dilma Rousseff. “Ele vai participar da coordenação e estou muito feliz porque eu admiro, respeito e considero muito o deputado Ciro Gomes. Acho que ele tem uma imensa contribuição a dar”.

Frustrada com os resultados do primeiro turno, a candidata do PT queixou-se do “baixo nível” da campanha. Para elevá-lo, convocou o hóspede perpétuo do Sanatório Geral.

Os estragos vão começar quando forem divulgadas as próximas pesquisas de intenção de voto. Os marqueteiros de Dilma certamente transformarão os índices colhidos por institutos amestrados para cantar vitória no horário eleitoral. E a oposição poderá silenciar a cantoria com a exibição de um vídeo de 30 segundos.

Nesse trecho da entrevista veiculada em 26 de abril pela Rede TV!, o coordenador da campanha governista informa que o Ibope e o Sensus são comerciantes de estatísticas. Como o entrevistador pareceu surpreso, Ciro pisou no acelerador: “O Montenegro vende até a mãe”.

Carlos Augusto Montenegro é o presidente do Ibope.

Se receberem alguma interpelação judicial, os dirigentes do PSDB devem repassá-la à coordenação da campanha de Dilma Rousseff. Os amigos injuriados que se entendam com Ciro Gomes.


06/10/2010