Por Augusto Nunes
“Os dois discursos de Dilma Rousseff estavam repletos de frases inacabadas, períodos incompreensíveis e ideias sem sentido”.
“Dilma é a representante de todos os brasileiros – e não
apenas daqueles que a bajulam e temem adverti-la sobre sua limitadíssima
oratória”.
“Dilma continuou a cometer desatinos gramaticais e atentados à lógica”.
“É possível imaginar, diante de tal amontoado de palavras
desconexas, a aflição dos profissionais responsáveis pela tradução
simultânea”.
“Depois, em discurso a empresários, Dilma divagou, como
se grande pensadora fosse, misturando Monet e Montesquieu – isto é,
alhos e bugalhos”.
“A presidente julgou desnecessário preparar-se melhor
para representar de fato os interesses do Brasil e falou como se
estivesse diante de estudantes primários – um vexame para o País”.
Embora lembrem os textos de Celso Arnaldo Araújo, as seis frases foram extraídas do editorial publicado pelo Estadão na edição de hoje, sob o título Ela fala pelo Brasil. Há
poucos meses, o jornal descobriu o que esta coluna repete desde que
abril de 2009, quando nasceu: a presidente da República não se expressa
em português, mas em dilmês.
Nesta quarta-feira, finalmente se rendeu à constatação aqui reiterada
há cinco anos: Dilma Rousseff não fala coisa com coisa.
Confira a
íntegra do editorial.
Volto em seguida.
Até mesmo o lusófono presidente da Comissão Europeia, José Manuel
Durão Barroso, deve ter tido sérias dificuldades para entender os dois
discursos da presidente Dilma Rousseff proferidos em Bruxelas a
propósito da cúpula União Europeia (UE)-Brasil. Não porque contivessem
algum pensamento profundo ou recorressem a termos técnicos, mas, sim,
porque estavam repletos de frases inacabadas, períodos incompreensíveis e
ideias sem sentido.
Ao falar de improviso para plateias qualificadas, compostas por
dirigentes e empresários europeus e brasileiros, Dilma mostrou mais uma
vez todo o seu despreparo. Fosse ela uma funcionária de escalão
inferior, teria levado um pito de sua chefia por expor o País ao
ridículo, mas o estrago seria pequeno; como ela é a presidente, no
entanto, o constrangimento é institucional, pois Dilma é a representante
de todos os brasileiros – e não apenas daqueles que a bajulam e temem
adverti-la sobre sua limitadíssima oratória.
Logo na abertura do discurso na sede do Conselho da União
Europeia, Dilma disse que o Brasil tem interesse na pronta recuperação
da economia europeia, “haja vista a diversidade e a densidade dos laços
comerciais e de investimentos que existem entre os dois países” –
reduzindo a UE à categoria de “país”.
Em seguida, para defender a Zona Franca de Manaus, contestada
pela UE, Dilma caprichou: “A Zona Franca de Manaus, ela está numa
região, ela é o centro dela (da Floresta Amazônica) porque é a capital
da Amazônia (…). Portanto, ela tem um objetivo, ela evita o
desmatamento, que é altamente lucrativo – derrubar árvores plantadas
pela natureza é altamente lucrativo (…)”. Assim, graças a Dilma, os
europeus ficaram sabendo que Manaus é a capital da Amazônia, que a Zona
Franca está lá para impedir o desmatamento e que as árvores são
“plantadas pela natureza”.
Dilma continuou a falar da Amazônia e a cometer desatinos
gramaticais e atentados à lógica. “Eu quero destacar que, além de ser a
maior floresta tropical do mundo, a Floresta Amazônica, mas, além disso,
ali tem o maior volume de água doce do planeta, e também é uma região
extremamente atrativa do ponto de vista mineral.
Por isso, preservá-la
implica, necessariamente, isso que o governo brasileiro gasta ali. O
governo brasileiro gasta um recurso bastante significativo ali, seja
porque olhamos a importância do que tiramos na Rio+20 de que era
possível crescer, incluir, conservar e proteger.” É possível imaginar,
diante de tal amontoado de palavras desconexas, a aflição dos
profissionais responsáveis pela tradução simultânea.
Ao falar da importância da relação do Brasil com a UE, Dilma
disse que “nós vemos como estratégica essa relação, até por isso fizemos
a parceria estratégica”. Em entrevista coletiva no mesmo evento, a
presidente declarou que queria abordar os impasses para um acordo do
Mercosul com a UE “de uma forma mais filosófica” – e, numa frase que
faria Kant chorar, disse: “Eu tenho certeza que nós começamos desde 2000
a buscar essa possibilidade de apresentarmos as propostas e fazermos um
acordo comercial”.
Depois, em discurso a empresários, Dilma divagou, como se grande
pensadora fosse, misturando Monet e Montesquieu – isto é, alhos e
bugalhos. “Os homens não são virtuosos, ou seja, nós não podemos exigir
da humanidade a virtude, porque ela não é virtuosa, mas alguns homens e
algumas mulheres são, e por isso que as instituições têm que ser
virtuosas. Se os homens e as mulheres são falhos, as instituições, nós
temos que construí-las da melhor maneira possível, transformando… aliás
isso é de um outro europeu, Montesquieu. É de um outro europeu muito
importante, junto com Monet.”
Há muito mais – tanto, que este espaço não comporta.
Movida pela
arrogância dos que acreditam ter mais a ensinar do que a aprender, Dilma
foi a Bruxelas disposta a dar as lições de moral típicas de seu
padrinho, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Acreditando ser uma
estadista congênita, a presidente julgou desnecessário preparar-se
melhor para representar de fato os interesses do Brasil e falou como se
estivesse diante de estudantes primários – um vexame para o País.
Vamos acabar ganhando, vivo repetindo aos amigos compreensivelmente
afetados por algum surto de pessimismo. Até agora, além desta coluna, só
o Blog do Planalto, cujos redatores morrem de medo de alterar as
discurseiras da chefe, reproduzia sem qualquer correção ou retoque os
aterradores improvisos de Dilma Rousseff.
O Estadão é o
primeiro grande jornal a publicar exatamente o que a presidente disse em
dilmês, não o que os redatores imaginaram que o neurônio solitário
estava querendo dizer.
O restante da imprensa não demorará a entender que traduzir para o
português as falas de Dilma é um desrespeito aos leitores e um pontapé
no direito à informação.
Os brasileiros merecem saber que são governados
por alguém incapaz de explicar o que pensa.
Se é que consegue pensar.
26/02/2014
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