Por Augusto Nunes
Depois de alguns dias enfurnado em Angra dos Reis para descansar sabe-se lá do quê, Lula ressurgiu em São Paulo nesta quarta-feira para nomear-se tutor do maior abandonado que instalou na prefeitura.
Conversou a sós com Fernando Haddad durante 20 minutos e gastou outros 40 ensinando ao tutelado e seus secretários o que deve fazer um prefeito para tornar-se um bom candidato à reeleição.
Os fotógrafos tiveram alguns segundos para registrar a cerimônia de posse que virou aula de esperteza.
Os jornalistas foram driblados na entrada e na saída pelo homem que foge há quase dois meses de perguntas sobre o escândalo protagonizado pela primeira amiga Rosemary Noronha.
O silêncio que completou 56 dias nesta quinta-feira não vai durar para sempre.
Mais cedo ou mais tarde, Lula será interceptado por algum jornalista disposto a cumprir seu dever.
Então, o fugitivo da imprensa será confrontado com perguntas cujas respostas só ele conhece.
Envolvido até o pescoço na história muito mal contada, sabe que desta vez está proibido de fingir que não sabe de nada.
E estará exposto a gargalhadas nacionais se recorrer a mentiras para livrar-se de interrogações encampadas por milhões de brasileiros.
Enquanto Lula foge do caso, a coluna convoca o timaço de comentaristas para a montagem da lista de perguntas à espera de respostas convincentes (ou da confissão de culpa).
Seguem-se 15 exemplos:
1. Onde e quando conheceu Rosemary Noronha?
2. Como qualifica a relação que mantém com Rose há 17 anos?
3. Quais foram os critérios que usou para promover Rose a chefe do gabinete presidencial em São Paulo?
4. Por que decidiu criar o cargo que Dilma Rousseff extinguiu depois da descoberta do escândalo que envolve Rose?
5. Quais eram as atribuições de Rose?
6. Por que pediu a Dilma Rousseff que mantivesse Rose no cargo?
7. Por que Rose participou de pelo menos 20 viagens internacionais?
8. Por que seu nome não foi incluído na lista oficial de passageiros divulgados pelo Diário Oficial da União?
9. Por que nomeou os irmãos Paulo e Rubens Vieira, a pedido de Rose, para cargos de direção em agências reguladoras?
10. Conhecia o currículo dos nomeados?
11. Por que disse em Berlim que não se surpreendeu com a Operação Porto Seguro?
12. Por que Rose foi contemplada com um passaporte diplomático?
13. Por que comunicou à imprensa, por meio de um diretor do Instituto Lula, que não comentaria o episódio porque envolvia questões pessoais?
14. Por que Rose se apresentava como “namorada do presidente”?
15. Acha que Rose é culpada ou inocente?
Se Lula não fugir dessas respostas, não custa perguntar-lhe também se Marisa Letícia acreditou no que disse.
17/01/2013
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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Enquanto Lula foge de Rose, a coluna monta o questionário que o tutor de maiores abandonados está obrigado a responder
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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Caso Rose: 52 dias de estrepitoso silêncio só serviram para confirmar que Lula não tem como sair do atoleiro em que se meteu
Se o tamanho da confusão é maior que o estoque de embustes, Lula emudece até ser socorrido pela crônica amnésia nacional — ou pelo aparecimento de outra encrenca que faça andar a fila de casos político-policiais que envolvem o ex-presidente.Por Augusto Nunes
Foi assim, por exemplo, quando se descobriu a roubalheira do mensalão. Ou quando um avião da TAM explodiu na pista de Congonhas.
Ou quando a imprensa revelou amostras da soberba gastança bancada com cartões corporativos.
Como o truque funcionou nos episódios anteriores, o mágico de circo resolveu reapresentá-lo para engambelar a plateia perplexa com o Rosegate. Desta vez não deu certo. A mudez malandra sobre a pornochanchada fora da lei que estrelou ao lado da primeiríssima amiga Rosemary Noronha só serviu para atestar que Lula não tem como sair do atoleiro em que se meteu.
Imposto pela enxurrada de ladroagens, bandalheiras, perguntas sem resposta e abjeções de variado calibre abastecida por quadrilheiros acampados no escritório da Presidência da República em São Paulo, o mais longo e estrepitoso silêncio de Lula é também o mais patético.
Neste domingo, completou 52 dias.
Amanhã serão 53.
A coluna só vai encerrar a contagem quando o fugitivo da imprensa, no momento homiziado em Angra dos Reis, recuperar a voz — e tratar de usá-la para explicações mais convincentes do que as que deve ter balbuciado em casa.
O país que pensa exige respeito.
Patroa é uma coisa, pátria é outra.
Fartos de tanta tapeação, milhões de brasileiros não aceitam ser tratados como se fossem um bando de marisas letícias.
13/01/2013
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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Um mês depois de revelado o escândalo, Lula continua fugindo de perguntas sobre o caso Rose. Logo saberá que é impossível escapar de quadrilheiras de estimação
Por Augusto Nunes
O berreiro dos cardeais, os uivos dos apóstolos, a choradeira dos devotos, as lamentações das carpideiras ─ nada disso vai adiantar. Nenhuma espécie de chilique da seita lulopetista impedirá que o mestre seja obrigado a quebrar a mudez malandra. Desde 23 de novembro, quando a Operação Porto Seguro tornou nacionalmente conhecida uma certa Rosemary Noronha, Lula foge de comentários sobre a quadrilheira de estimação.
O silêncio que começou há mais de um mês pode até estender-se por duas, três semanas. A trégua do Ano Novo ajuda. Mas o ex-presidente não escapará da hora da verdade.
A menos que todos os jornalistas resolvam perder definitivamente a voz, o homem que nunca sabe de nada será confrontado com perguntas e cobranças que exigirão álibis menos bisonhos e respostas mais criativas.
Se repetir, por exemplo, que se sente “apunhalado pelas costas”, Lula se arriscará a ouvir de volta uma desmoralizante gargalhada nacional.
Se confirmar que “não se surpreendeu” com o que houve, como balbuciou em Berlim, terá de ser menos ambíguo: não se surpreendeu com as gatunagens de Rose, com o atrevimento do bando, com a eficiência da Polícia Federal ou com o quê?
O colecionador de escândalos já deveria ter aprendido que nenhuma patifaria de grosso calibre deixa de existir ou fica menor só porque o protagonista da história finge ignorá-la.
Atropelado pelas apurações da PF, passou as duas primeiras semanas enfurnado no Instituto Lula, de onde só saiu para uma festa no Rio e uma discurseira para catadores de papel em São Paulo.
Sempre cercado por muros humanos, não concedeu aos repórteres um único segundo de sua preciosa atenção. Depois, viajou para longe do Brasil e passou uma semana driblando jornalistas com saídas pelos fundos e escapadas pela cozinha. Para quê? Para nada.
Se já era de bom tamanho quando partiu, a encrenca ficara um pouco maior quando voltou. Indiciada pela Polícia Federal, Rosemary Noronha foi em seguida denunciada pelo Ministério Público por formação de quadrilha, corrupção passiva, tráfico de influência e falsidade ideológica.
Entre os comparsas incluídos na denúncia figuram os irmãos Paulo Vieira, ex-diretor da Agência Nacional de Águas (ANA), Rubens Vieira, ex-diretor da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), e Marcelo Vieira, que vive de expedientes.
Os três bebês de Rosemary são os líderes da máfia dos pareceres técnicos forjados.
Os lucros da organização criminosa aumentaram extraordinariamente depois do recrutamento da chefe de gabinete do escritório paulista da Presidência.
Rose apresentava-se aos interlocutores conforme o grau de intimidade. Para os íntimos, era a mulher do Lula. Para o resto, a namorada do presidente. Nas reuniões com subordinados, declamava o primeiro verso do hino dos novos-ricos: “Aqui tudo é chique”.
Parecia-lhe especialmente chique a decoração do escritório na esquina da Paulista com a Augusta. Numa das paredes, um imenso pôster mostra Lula (com a camisa do Corinthians) batendo um pênalti.
Enquanto esteve acampada na casa da filha Mirele, também demitida da Anac, Rose pôde contabilizar os estragos causados pela brusca tempestade.
De um dia para o outro, perdeu o emprego oficial, o posto de primeira-dama oficiosa, o escritório, o salário superior a R$ 10 mil, os amigos e o namorado.
Acabou a vida mansa proporcionada pelos lucros da quadrilha. Acabaram as viagens internacionais ou mesmo domésticas: excluída das comitivas presidenciais desde a posse de Dilma Rousseff, agora não pode sequer sonhar com outro cruzeiro no mar de lhabela, ao som da dupla sertaneja Bruno e Marrone.
Sempre à beira de um ataque de nervos, Rose acha que os companheiros do PT não lhe estenderam a mão na hora da tormenta. É uma caixa-preta até aqui de mágoa.
Tão perigosa quanto Paulo Vieira, que anda sondando o Ministério Público sobre as vantagens da delação premiada. Nesta segunda-feira, a sindicância aberta pelo Planalto para apurar o envolvimento de funcionários públicos com a quadrilha foi prorrogada por dez dias.
Talvez dê em nada. Mas o processo judicial começou a andar. E o desfecho do julgamento do mensalão avisou que ninguém mais deve considerar-se condenado à perpétua impunidade.
Nos escândalos anteriores, organogramas secretos previam a existência, entre o líder supremo e os meliantes em ação, de um alto comando formado por companheiros ─ que sempre funcionou como um oportuníssimo airbag na hora do estrondo.
Desta vez nâo há intermediários entre o candidato a inimputável e a turma da delinquente que protege há quase 20 anos. As impressões digitais do ex-presidente estão por toda parte.
Foi Lula quem instalou Rosemary Noronha no gabinete em São Paulo e pediu a Dilma que a mantivesse no cargo. Foi Lula quem, a pedido de Rose, transformou os irmãos Vieira em diretores de agências reguladoras.
Sem Lula, Rose não se teria juntado à comitiva presidencial em 23 viagens internacionais. Sem Lula, uma alpinista social de subúrbio jamais teria feito carreira como traficante de influência. Era Lula a fonte de poder da quadrilha, que não teria existido sem ele.
Pouco importam os balidos do rebanho, a vassalagem dos governadores ou as genuflexões de Dilma Rousseff (que conhecia muito bem a representante da Presidência em São Paulo).
Rose é um caso de polícia criado por Lula. Todos são iguais perante a lei. Ele que trate de encontrar explicações ─ se é que existe alguma.
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