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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O Mestre ensina como tratar corretamente a discípula: muita gentileza e nenhuma pergunta


O presidente da República conta piadas obscenas na presença de mulheres, relata intimidades conjugais em palavrórios no palanque e, pelos arrulhos que anda trocando com o neocompanheiro, não achou grave a afronta infligida à filha Lurian e a ele próprio por Fernando Collor na campanha de 1989, quando sua ex-namorada Miriam Cordeiro foi alugada pelo adversário para acusar Lula de ter tentado forçá-la a interromper a gravidez com um abordo.

Piadas grosseiras, revelações personalíssimas, agressões brutais ─ nada disso pode parecer constrangedor aos olhos e ouvidos femininos.

O que Lula considera intolerável é perguntar a uma mulher que disputa a Presidência da República o que o eleitorado deseja saber.

“Eu esperava que o entrevistador tivesse um pouco mais de gentileza”, queixou-se nesta terça-feira durante a discurseira em Belo Horizonte.

Sempre escondendo o nome do acusado, Lula decidiu que o jornalista William Bonner, no Jornal Nacional de segunda-feira, foi descortês com a entrevistada Dilma Rousseff.

Deveria tratá-la com muita delicadeza, ensinou, “pelo fato de ser mulher e ser candidata”.

Lula assistiu ao mesmo programa em que milhões de brasileiros viram apenas um William Bonner incisivo, como deve ser todo entrevistador, mas exemplarmente educado.

Por que resolveu enxergar agressões inexistentes?

Para agredir a liberdade de imprensa, inibir os donos de empresas jornalísticas e, sobretudo, ameaçar os entrevistadores.
 


O padrinho só ficará satisfeito quando todos perguntarem o que a afilhada acha da beleza da mulher brasileira, do Carnaval do Rio ou do presidente Lula.

Se acha mesmo que William Bonner protagonizou um caso de descortesia com mulheres, Lula deve apresentar-se imediatamente à delegacia mais próxima pelo caso de polícia que estrelou em 1984.

Acusada de votar em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, a deputada Bete Mendes ─ mulher, até prova em contrário ─ foi expulsa por Lula do PT.

Em Belo Horizonte, jurou que “aprendeu muito” com Tancredo.

Se fosse sincero, enviaria a Bete Mendes centenas de buquês de rosas semelhantes à que a candidata que inventou ganhou do chefe “pela calma e tranquilidade que teve no Jornal Nacional”.
Mas Lula tem tanto compromisso com a verdade quanto Dilma Rousseff.


sexta-feira, 30 de julho de 2010

O presidente que exige uma mulher no Planalto nega socorro à mulher condenada à morte por apedrejamento



Por Augusto Nunes

Até na morte por apedrejamento o Irã consegue ser mais brutal com as mulheres.

Os homens, enterrados até a cintura, ficam com os braços livres para proteger o rosto. Nem isso será permitido a Sakineh Mohammadi Ashtiani, viúva de 43 anos, já punida com 99 chibatadas e agora à espera do ritual instituído em 1983 pela revolução dos aiatolás.

O Código Penal determina que as mulheres sejam enterradas até a altura do busto, com as mãos amarradas por cordas e o corpo envolvido por um tecido.

Não podem sequer defender-se das pedras atiradas a curta distância sob o olhar da multidão reunida na praça.

O grupo de executores, liderado pelo juiz que assinou a sentença, inclui os jurados que aprovaram a condenação, parentes da vítima, e figurões da comunidade e voluntários anônimos.

Todos são homens: no Irã, mulheres não apedrejam; só podem ser apedrejadas.

Para que a plateia não se frustre com mortes rápidas, as pedras que circundam o alvo são pequenas.

O juiz atira a primeira.

A agonia que se encerra com o traumatismo craniano não dura menos que uma hora.

Tanto pelo espetáculo da perversidade primitiva quanto pela ausência de motivos para a condenação, o caso de Sakineh provocou uma intensa mobilização na internet.

Como em quase todos os países, multidões de brasileiros tentam impedir a consumação da brutalidade.

Alguém teve a ideia de lançar a campanha “Liga, Lula”, inspirada na convicção de que Mahmoud Ahmadinejad não se negaria a atender a um pedido de clemência formulado pelo amigo brasileiro.



Lula também acha que ouviria um sim.
Mas não vai ligar.

Caso ligasse, não iria além de reparos em tom amistoso ao método escolhido para o assassinato.

“Eu, sinceramente, não acho que nenhuma mulher deveria ser apedrejada por conta de… ter, sabe, traição”, gaguejou nesta quarta-feira.

Adultério – ou “traição”, prefere Lula – não chega a ser um crime hediondo. Estariam de bom tamanho a cadeira elétrica, uma injeção letal, a câmara de gás, até mesmo a forca.

Matar a pedradas pode parecer exagero, diria na conversa telefônica.

Mas a conversa não haverá, sublinhou a continuação da discurseira. “Um presidente da República não pode ficar na internet atendendo tudo que alguém pede de outro país”, justificou-se.

“Veja, eu pedi pela francesa e pelos americanos que estão lá, pedi para a Indonésia por um brasileiro, pedi para a Síria por quatro. É preciso cuidado, porque as pessoas têm leis, as pessoas têm regras, as pessoas, sabe… Se começam a desobedecer as leis deles para atender o pedido de presidentes, vira uma avacalhação”.


Avacalhar significa desmoralizar, ridicularizar, tratar desleixadamente, não levar a sério.

Não combina com a história de Sakineh.

Mas a expressão usada pelo campeão da vulgaridade se ajusta admiravelmente ao próprio governo:
é uma avacalhação.


O verbo é conjugado o tempo todo há sete anos e meio.E frequenta com especial assiduidade o palavrório dos condutores da política externa.

Lula se desmoraliza ao tratar como problema político uma causa humanitária. Para defender o parceiro, age como ajudante de carrasco.

Não pode ser levado a sério alguém incapaz de compreender que os direitos humanos prevalecem sobre todas as leis ou regras.

Lula encara dramas com desleixo e participa de chanchadas com muita aplicação.
 

É ridícula, enfim, a argumentação invocada para mascarar a verdade escancarada: para recusar ou endossar pedidos, para estuprar ou tratar respeitosamente normas legais, Lula compõe um hino à avacalhação.

O que importa é a conveniência eleitoreira, o parentesco ideológico, a cumplicidade mafiosa.


Fidel Castro, por exemplo, emplacou três pedidos em três anos.

Foi para atender ao ditador-de-adidas que o presidente autorizou a deportação dos pugilistas Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, fez que não leu a carta da blogueira Yoani Sanchez e acusou o preso político Orlando Zapata de se se deixar morrer no 85° dia da greve de fome.

Hugo Chávez emplaca todos, até os que chegam ao som da lira do delírio. Foi para agradar ao bolívar-de-hospício, por exemplo, que Lula violentou as leis de Honduras e transformou em pensão a embaixada brasileira.

É para ajudar o comparsa venezuelano que hostiliza o governo colombiano e afaga as FARC.

Para eleger Dilma Rousseff, virou colecionador de crimes eleitorais. Para fechar negócio com José Sarney, transformou-o em homem incomum. Para chegar à presidência, exigiu que os corruptos fossem justiçados.

Para consolidar-se no poder, promoveu-os a amigos de infância.

No momento em que se recusou a estender a mão a Sakineh, em respeito às leis do Irã, estava ajudando Hugo Chávez a desrespeitar as leis da Colômbia.

Enquanto adulava os narcoterroristas das FARC, o ministro Celso Amorim tentava estuprar a legislação israelense que proíbe a entrada na Faixa de Gaza de autoridades estrangeiras que podem ser utilizadas pelo Hamas como peças de propaganda.


Lula acha que uma brasileira merece a Presidência sobretudo por ser mulher. Mas não acha que merece misericórdia uma iraniana que só foi condenada à morte por apedrejamento porque é mulher.

Lula anda chorando quando lembra que a longa temporada no poder está chegando ao fim. Não se comove com a iraniana angustiada com a aproximação do fim terrível.

O candidato sem chances ao Nobel da Paz nem sabe o que é um humanista.

Desde sempre fez a opção preferencial pelos pastores da violência.


Dilma Rousseff acha que todas as mulheres devem apoiá-la porque é mulher. Não deu um pio sobre a saga da iraniana que vai morrer por ser mulher.

Lula só pensa em Lula.

Dilma não consegue pensar.

Sakineh merece compaixão.

O Brasil merece coisa melhor.




30/07/2010