1º de setembro ─ O que posso fazer se a educação pública no Brasil é essa desgraceira sem fim? Professor nenhum me ensinou a diferença entre “por que” e “porque”. Daí vem a imprensa me chamar de burronilda só porque/por que escrevi errado no bilhetinho. Eles acham o quê? Que posso ligar para o professor Antonio Candido toda vez que estiver com dúvida? Da minha caligrafia, nem um pio. Tão caprichadinha, tão esmerada.
2 de setembro ─ Como diria o Zózimo, e esse FHC, hein? Um lobo em pele de tucano. Se fez todo de cavalheiro com aquele charme untuoso dele e agora me dá uma mordida dessas. Ele sabe muito bem que o bobo do Lula sobe nas tamancas toda vez que ele abre a boca. Já disse para o Lula resolver isso na análise. O fato é que quem paga o pato sou eu. Fui obrigada a dar uma resposta, menos mal que não cometi nenhum erro de ortografia. Esse episódio todo é muito triste. Apesar de tudo, aquele raposão do FHC ainda tem o seu encanto. Ele nunca deixou de me chamar de presidenta. Ah, poder, és mesmo solitário.
3 de setembro ─ Pedi para a Ana de Hollanda fazer a primeira coisa útil da gestão dela: convencer o Chico a apoiar o Haddad. O bicho é pesado. Se até eu já ganhei uma eleição em cima do Serra!
4 de setembro ─ Gabrielzinho chegou. Veio passar o feriado com a vovó, veio? Veio passá? Qué bincá? Que pitchuco! E ainda dizem que não pode haver Rousseff fofo.
5 de setembro ─ Vinte minutos a mais de esteira esse mês. Já sinto a cintura mais afilada. Soube que a Cristina K. anda esquiando na Patagônia. Conheço a bisca: quer chegar à reunião da ONU com as pernocas em dia. Nem por nada Dilminha será desbancada. Vou desembarcar em Nova York assim meio etérea, uma sílfide tropical. Estou pensando em tecidos de voile, sempre em tons pastéis. Ousarei deixar os ombros de fora? O vestido da Michelle na convenção não me sai da cabeça.
6 de setembro ─ Cáspite! Chegou a conta de luz. Mamãe não para de usar o microondas, eu tenho exagerado um pouco no secador de cabelo e essa esteira consome mais energia do que a CSN. Malandra é a vaca que já nasce malhada para não fazer academia. Agora, as tarifas são escorchantes mesmo, o que me deixa num dilema terrível. O Lobão é indemitível.
7 de setembro ─ Independência. Sei. Só vou acreditar no dia em que o Lula largar do meu pé, o PMDB parar de pedir cargo e mamãe me der um pouco de espaço vital. Dilminha needs personal space!
Tem coisa mais jeca do que esse desfile? Parece uma quermesse. Não é à toa que a Ideli adora, ninguém casa com policial impunemente. E como venta em Brasília, meu Deus! O Kamura despejou duas caçambas de concreto para segurar o meu topete. Não sei como FHC fazia. Ele sempre teve um cabelo bem armado.
8 de setembro ─ “De noite, eu rondo a cidade/ a te procurar, sem te encontrar./ No meio de olhares, espio/ em todos os bares, Dilma, você não está.” Para de pensar nele, não faz bem. O homem está ocupado com a 11ª rodada do petróleo.
9 de setembro ─ Baixei as tarifas dos bancos, os juros do cartão de crédito e a conta de luz. Próximo passo: tirar mamãe do SPC. Quando a carroça anda é que as melancias se ajeitam.
10 de setembro ─ Indiquei o Teori Zavascki para a vaga do Peluso. Achei o nome gozado e o João Santana aprovou; segundo ele, minha única fragilidade é a percepção, injusta, de que não tenho senso de humor. Acontece que até o Álvaro Dias elogiou. Acho que fiz besteira.
Até agora, nada de Chico Buarque no horário eleitoral do Haddad. Estou de olho, irmã, estou de olho.
11 de setembro ─ Lá no estrangeiro, há onze anos, dois aviões atacaram as Torres Gêmeas. Aqui, uma moça burlou a segurança para gritar que queria casar comigo. Somos ou não somos um país amável?
Tive de nomear a Marta, não teve jeito! O Lula estava me deixando maluca. Além do quê, a Ana teve todas as chances do mundo. Em mais de dois anos de governo, ela não me conseguiu nem um mísero drinque com o irmão. A conclusão a que eu chego disso tudo é que São Paulo gosta mesmo é de um botox. Elegeu a Marta e agora quer o Russomanno…
12 de setembro ─ Que susto levei com o desmaio do Temer em Roma! Só me faltava essa! Depois me explicaram que ele andou mais de uma hora naquele calorão todo sem tirar o paletó. Vaidade, vaidade, teu nome é Michel. Tivesse colocado um chapeuzinho, pelo menos. Mas esconder aquela cabeleira? Nunca. Esse morre, mas não perde a pose.
13 de setembro ─ Recebi a visita do nadador paraolímpico Daniel Dias. Fui firme: ou ele e os coleguinhas se engajam para que as Paraolimpíadas de 2016 não sejam chamadas de “Paralimpíada”, ou cancelo tudo.
14 de setembro ─ Que rebu! A Ideli me acordou logo cedo, parecia que estava tendo uma hemoptise: “Sirigaita! Doidivanas! A rainha não merece! É o fim da monarquia! Blá-blá-blá!” Desde o primeiro dia que ela implica com a Kate. É inveja da silhueta e daqueles calcanhares bem torneados, finos. Eu fiquei com dó. A moça estava com o marido, num castelo tipo o de Caras, só que sem ninguém. Tinha direito à privacidade. Depois, ela é de outra geração e essas coisas são normais. Eu é que preciso me precaver. Convenci mamãe a interrompermos nossos banhos de sol na laje do Palácio. Vai que…
15 de setembro ─ Gente, que fuzuê é esse no Oriente Médio? A Gleisi diz que é tudo por causa de um filme sem graça que satiriza o Maomé. Imagina se o povo brasileiro reagisse assim a cada novo filme do Bruno Mazzeo…
16 de setembro ─ Lancei o Bolsa Medalha para ver se a gente desencanta nos Jogos Olímpicos. A Ideli, que é metida a espirituosa, pediu um Bolsa Chanel para as ministras.
18 de setembro ─ Minha Santa Rita do Coração Perpétuo, nem eu aguento mais Avenida Brasil! Que enrolação! Vou ter que falar com o marido da Gleisi e vamos rever a tal da regulamentação dos meios. Certa estava eu na juventude: “O povo não é bobo, fora Rede Globo!” Como se não bastasse o que fizeram com a Camila na novela das seis. Sei que o sobrenome é Pitanga, mas aquela cor não existe na natureza. Parece uma barra de chocolate amargo.
21 de setembro ─ Tadinho do Zé Dirceu. Mandei um bilhetinho para ele com uma frase que vovó adorava repetir: “Quem se faz de Redentor, sai crucificado.” Mandei em português, não em búlgaro.
22 de setembro ─ Chamei o Patriota e dei um tranco nele. Não quero saber daquele hotel Waldorf Astoria. Um palácio de ácaros! Entro e já começo a espirrar. Além disso, a comida é horrível! O marido de uma amiga minha, que é do mercado, me disse para ficar no St. Regis. É para lá que eu vou. E ainda quero ver se embarco sábado à noite e fujo para tomar um brunch no Balthazar. Delícia, delícia, delícia!
24 de setembro ─ Start spreading the news/ I am leaving today/ I want to be a part of it/ New York, New York!!! Amanhã me puseram no horário da tarde. Divino. Dá tempo de fazer o discurso e chispar para o Barneys. Quero ver uns fascinators e perguntar se eles já receberam o vestido da Michelle.
25 de setembro ─ Fiquei bem naqueles tons outonais. Disse lá as coisas que o Guido me mandou dizer e fui até a Macy’s comprar os presentes de mamãe. É mais barato que o Barneys e ela não percebe a diferença. Para a Ideli, eu levo um xampuzinho aqui do hotel mesmo.
10/10/2012
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quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Diário da Dilma: Malandra é a vaca que já nasce malhada para não fazer academia
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Marta em lugar de Ana. Ou: O grande trabalho de ex-ministra foi garantir dinheiro para Kim Jong-Lula. Até a neta do estimado líder foi aquinhoada!
Ana de Hollada foi demitida do Ministério da Cultura
Em seu lugar, assume a senadora Marta Suplicy (PT-SP)
Por Reinaldo Azevedo
Falemos primeiro da que sai. Deixa a pasta aquela que nunca deveria ter sido nomeada. Ao fazê-lo, Dilma escolheu um sobrenome — Buarque de Holanda (o “Hollanda” dela tem dois eles, não sei se por erro de registro ou questões numerológicas) — não uma gestora para a pasta.
Era uma espécie de medalha de reconhecimento pelos serviços prestados ao partido pelo irmão da maninha, o já decano do engajamento “esquerdosamente correto”.
A causa mais recente de Chico Jabuti é a candidatura de Marcelo Freixo, a que aderiram 10 de cada dez militantes de extrema esquerda de Copacabana, Leblon e Ipanema. Mas voltemos.
Ana foi um fiasco na pasta desde o começo. Ficava evidente que não tinha a mais remota ideia do que fazer por lá. Os próprios petistas não se entendiam a respeito. Boa parte do “engajamento cultural” no Brasil é, como sabem, financiado pelo “estado burguês” com o qual os engajados querem acabar.
A ideologia mais influente no Brasil continua a ser a do assalto aos cofres públicos, seja com mensaleiros, seja com “artistas” que estão certos de que os desdentados são obrigados a financiar suas metáforas.
Por inépcia política e administrativa, Ana não conseguiu ordenar a distribuição do leite de pata estatal para bocas sedentas. Estavam todos descontentes.
Não que sua passagem pela pasta tenha sido irrelevante! Nada disso! Kim Jong-Lula, nosso estimado líder, fará em São Paulo um “Memorial da Democracia”, como sabem.
Em São Bernardo, o prefeito Luiz Marinho (PT), seu primeir-estafeta, decidiu construir um “Museu da Greve”.
É isso mesmo!
A obra custará R$ 18 milhões.
O município arcará com R$ 3,6 milhões.
O resto virá do governo federal — parte do dinheiro, Ana prometeu, sairá do… Ministério da Cultura!
Só isso? Não! Ana assegurou que o tal memorial de Lula — o de São Paulo, não o museu de São Bernardo — também contará com recursos da Lei Rouanet.
Entenderam, companheiros?
Ana pode não ter sabido atender às demandas dos artistas sequiosos de uma verbinha pública, mas assegurou recursos para dois monumentos em homenagem ao Apedeuta!
É um escracho!
O grupo de teatro amador a que pertence Bia Lula, neta do Apedeuta, conquistou o direito de captar R$ 300 mil pela Lei Rouanet. A primeira a se apresentar para financiar o espetáculo foi a Oi, ex-Telemar — aquela que havia investido alguns milhões da Gamecorp de Lulinha, filho do Lulão e tio de Bia.
A obra dessa gigante ainda não está completa. Ana aprovou outro projeto, se me permitem o vocábulo, “seminal” para a cultura, que envolve o livro “Leite Derramado”, de um tal Chico Buarque de Holanda. A Biblioteca Nacional decidiu financiar a tradução da obra para o coreano.
Faz sentido?
Claro que faz!
Se queremos mimosear os coreanos — os do Sul; no Norte, comandando pelos comunistas, amigos de Chico, livros estrangeiros são proibidos — com o leite derramado pelo irmão de Ana, por que os brasileiros não haveriam de pagar por isso?
O esforço para tentar impedir a eleição de José Serra (PSDB) em São Paulo já custou dois ministérios: o da Pesca (o tiro, por enquanto, saiu pela culatra) e o da Cultura. Dilma meteu o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), sobrinho de Edir Macedo e bispo da Igreja Universal, no Ministério da Piaba.A ministra que entra
Ele confessou não saber pôr uma minhoca no anzol.
Não era metáfora. Seus antecessores também não sabiam.
Dilma nomeou Crivella num esforço apara diminuir a rejeição a Haddad junto aos evangélicos. Ela o fez num momento em que o ministro Gilberto Carvalho (secretário-geral da Presidência) afirmou que os petistas deveriam disputar eleitores com os evangélicos, enfrentá-los mesmo. Houve mal-estar.
A operação Crivella, em São Paulo, não deu tão certo assim. A Igreja Universal, por intermédio de seu partido, o PRB, sustentou a candidatura de Russomanno, e, por enquanto, ele tem tirado votos dos petistas na periferia. Seus obreiros estão encarregados de lembrar algumas das “obras” do ex-ministro da Educação — o kit gay é uma delas.
Agora Dilma faz uma segunda concessão à operação Haddad. Lula esmagou Marta em São Paulo. Tirou-a da disputa na base da brutalidade. Chamou os apoiadores de sua candidatura — que reunia a maioria do PT na cidade — e deu uma ordem: “o candidato é outro”. A senadora foi tratada como velha e ultrapassada. Ela ficou brava e resistiu a entrar na campanha.
Finalmente, topou gravar mensagens de apoio ao candidato petista e andou chutando a canela de Serra — afinal, é só o que interessa — e ganhou, de presente, o Ministério da Cultura.
Vamos ver se saberá se comportar com o devido decoro, agora que tem um cargo no Executivo e que é ministra de todos os brasileiros — também dos não-petistas.
PS – Ah, sim: se vocês procurarem nos arquivos, encontrarão alguns textos antevendo o fiasco que seria Ana de Hollanda no Ministério da Cultura. Estava escrito na estrelas — quero dizer, na estrela.
11/09/2012
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