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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Silvio Mota, ex-integrante da ALN: ‘O mensalão foi uma burrice’


Por Augusto Nunes

PUBLICADO NA EDIÇÃO IMPRESSA DE VEJA

                             HUGO MARQUES


O juiz aposentado Silvio Mota foi um dos comandantes do grupo tático armado da Ação Libertadora Nacional (ALN) e integrou as fileiras do Movimento de Libertação Popular (Molipo) – duas organizações guerrilheiras comunistas que atuaram durante a ditadura militar. O magistrado, que conheceu o ex-ministro José Dirceu em 1969, quando ambos faziam treinamento militar em Cuba, hoje dirige a Casa de Amizade Brasil-Cuba e coordena a Comissão em Defesa da Memória, Verdade e Justiça do Ceará. Na entrevista, ele fala das lembranças que guardou dessa relação, que durou até 1974. Depois disso, cada um seguiu seu caminho. Dirceu voltou ao Brasil e passou a viver escondido no interior do Paraná. Silvio ficou em Cuba até a anistia.


Como o senhor vê a condenação do ex-ministro José Dirceu?

Fico triste. Eu queria que o Dirceu fosse absolvido. Ele já pagou. Com todo o aperreio que passou, acho que já pagou.

O senhor concorda com a tese dos condenados de que o julgamento é político?

Não vou discutir temas jurídicos com o Supremo. O diabo é que não dá nem para discutir, pois a tese deles é a mesma que serviu para condenar o Fujimori (Alberto Fujimori, ex-presidente do Peru, condenado a 25 anos de prisão por chefiar paramilitares que mataram 25 pessoas).

Como era o companheiro de militância José Dirceu?

O Dirceu era preguiçoso e egoísta.
E continua sendo preguiçoso e egoísta.

Por quê?

Ele fazia tudo pela metade. Na hora do treinamento, do trabalho, de repente tinha uma dor nas costas. O homem faltava e, quando a gente ia ver, estava assistindo a filmes. Olha os projetos que ele tinha!

E o egoísmo?

O Dirceu se preocupava apenas com seus projetos pessoais. Sempre notamos isso. Ele era uma pessoa famosa, fazia amizades, as pessoas o procuravam. Era amigo de gente influente em Cuba, o que lhe garantia alguns privilégios.

O ex-ministro chegou a combater a ditadura militar?

Eu acho quase impossível. Por que diabos o pessoal iria botar o Dirceu para combater? Seria um estorvo. A única coisa relacionada à atividade de guerrilha urbana que consta que ele teria feito, salvo engano, foram “levantamentos em São Paulo”. A gente fazia muita loucura. Mas mandar um cara como o Dirceu reconhecer o terreno seria um absurdo.

O senhor esteve sempre ao lado de José Dirceu em Cuba?

Eu cheguei dias depois dele, em 1969. Houve uma época em que eu o via diariamente. Depois, comecei a trabalhar nas brigadas de construção industrial, mas ele não estava lá. Imagine o Dirceu trabalhando numa brigada de construção industrial…

Vocês moravam no mesmo acampamento?

Sim. Ele era boa-praça, a gente conversava. Só tem esse problema, como já disse: é preguiçoso e egoísta, e acabou se lascando por causa disso. O Dirceu, no entanto, é inegavelmente uma liderança do PT. Isso ele é, sempre foi. O papel dele na história do Brasil é enorme. Ele é o homem que liderou o movimento estudantil. Tem carisma, habilidade. Mas o mensalão foi uma burrice.

19/10/2012

terça-feira, 3 de julho de 2012

A Comissão da Verdade tropeçou num terrorista aposentado que acaba de se transformar em assassino confesso de um companheiro de luta contra a ditadura








                                        Por Augusto Nunes

Márcio Leite de Toledo tinha 19 anos quando foi enviado a Cuba pela Aliança Libertadora Nacional, para fazer um curso de guerrilha.

De volta ao Brasil em 1970, tinha 20 quando se tornou e um dos cinco integrantes da Coordenação Nacional da ALN, organização de extrema-esquerda fundada pelo terrorista Carlos Marighela.

O justiçamento do guerrilheiro Márcio Leite de Toledo
                      Márcio Leite de Toledo

Então com 19 anos, fazia parte do quinteto o militante comunista Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, o “Clemente”.

Da mesma forma que o Paz da certidão de nascimento, o codinome contrastava com o temperamento e o prontuário de um devoto da violência.

Em outubro de 1970, durante uma reunião clandestina, os componentes da Coordenação Nacional debateram as circunstâncias do assassinato de Joaquim Câmara Ferreira, que havia 11 meses substituíra o chefe supremo Marighela, fuzilado numa rua de São Paulo por uma milícia liderada pelo delegado Sérgio Fleury.






Sob o argumento de que estavam percorrendo o caminho mais curto para a eliminação física dos engajados na luta armada, Márcio propôs aos demais dirigentes uma pausa na guerra desigual.

Não era a primeira vez que aquele companheiro desafinava do restante da direção, desconfiou Clemente.

Demorou duas horas para concluir que Márcio era um dissidente prestes a traí-los, entregar-se à polícia da ditadura e contar o muito que sabia.

Demorou dois dias para convencer o restante da cúpula a avalizar seu parecer.

Demorou um pouco mais para, com o endosso dos parceiros, montar o tribunal revolucionário, propor a pena capital e aprovar a sentença que, já com 20 anos, ajudou a executar numa rua de São Paulo.

Convocado para uma reunião de rotina do alto comando, Márcio foi para o encontro com a morte no fim da tarde de 23 de março de 1971.

Antes de sair do apartamento que lhe servia de esconderijo, o condenado que não tivera o direito de defender-se e sequer suspeitava da tocaia deixou um registro manuscrito: “Nada me impedirá de continuar combatendo”, prometeu-se.

Não imaginava que fora proibido de continuar vivendo.

Assim que chegou ao ponto combinado na região dos Jardins, foi abatido a tiros.

Alguns foram disparados por Clemente, acaba de admitir o terrorista aposentado ao jornalista Geneton Moraes Neto, que o entrevistou para o programa Dossiê, exibido pela Globo News neste 30 de junho.

O vídeo abaixo reproduz o trecho da entrevista em que o depoente se transforma oficialmente em assassino confesso. “Então nós fomos lá e cumprimos a tarefa”, diz Clemente depois de resumir a decisão do tribunal revolucionário composto por três juízes com pouco mais de 20 anos de idade.

“Cumprir a tarefa” é bem menos chocante que “executar um companheiro de luta contra a ditadura”.

Entrevistador competente, Geneton vai direto ao ponto: “Você participou diretamente da execução, então?”

Com a placidez de quem recita uma receita de bolo, Clemente enfim assume a autoria do crime. “Essa é uma informação que até hoje eu não dei”, avisa.

“E, na verdade verdadeira, eu não dei também porque ninguém teve essa atitude de chegar e me perguntar diretamente. Participei, sim, da ação. A tiros… a tiros…”

A expressão sem culpas e o olhar de quem não perde o sono por pouca coisa informam que, para o declarante, tirar ou não a vida de um ser humano é algo que merece tanta reflexão quanto ir à praia ou ficar na piscina do prédio.




Alguns integrantes da Comissão da Verdade dividem o universo que resolveram devassar em torturadores a serviço da ditadura e heróis da resistência.

Uns merecem o fogo do inferno, outros só merecem a gratidão do país (e desfrutar de uma Bolsa Ditadura de bom tamanho).

Em qual dessas categorias devem ser enquadrados Carlos Engênio Coelho Sarmento da Paz e Márcio Leite de Toledo?

O algoz pode alegar que a execução de um dissidente que também combatia a ditadura militar foi um acidente de percurso?


Essa espécie de homicídio foi engavetada pela anistia?

A família da vítima de um crime que o Estado não cometeu pode figurar na relação dos indenizados?

Como reparar a memória do jovem executado?

A Comissão da Verdade está convidada a oferecer respostas convincentes para tais interrogações.

Bem menos complicado é responder à pergunta feita por Clemente em novembro de 2008, quando voltei a tratar do episódio infame: “O que quer o jornalista Augusto Nunes quando publica um artigo como este?”.

Simples: quero deixar claro que não há nenhuma diferença entre o torturador que matou Vladimir Herzog e o terrorista que executou Márcio Leite de Toledo.

Um servindo à ditadura militar, outro perseguindo a ditadura comunista, ambos se tornaram assassinos sem direito ao perdão


03/07/2012